Do poeta brasileiro, cidadão do mundo, Ferreira Gullar, prémio Camões 2010:
Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".
Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/
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domingo, 24 de junho de 2012
ARS POETICA (91): Metade de Ferreira Gullar, Pedaço de Chico Buarque
Do poeta brasileiro, cidadão do mundo, Ferreira Gullar, prémio Camões 2010:
terça-feira, 15 de maio de 2012
ARS POETICA (90): A Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012
de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada
e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade
foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas
ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade
legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa do operário
há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo
Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós
Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?
- Jorge Castro
Maestro: Mikis Theodorakis (1925-)
quinta-feira, 22 de março de 2012
ARS POETICA (89): ouço a luz

lembra-te que és meu pôr do sol
mas sou eu que me afasto
enquanto brilhas ainda
amor
será
com os ouvidos na luz
os olhos em ti
2005 - carlos peres feio DIA DA POESIA...................................
quarta-feira, 21 de março de 2012
ARS POETICA (88): The Poem of Life (in 9 pages), by David Zink

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
ARS POETICA (87): Cartas do amor urgente, de Carlos Peres Feio
escrita
mas és tu que a vais
entregar
tu não sabes
mas levas a minha vida
na tua mão
confio-te o melhor de
mim
porque as minhas
palavras
ganham-me sempre em
concurso
com os meus atos
tresloucados
leva à tua irmã as
minhas letras
ainda não é dia dos
namorados
mas eu já a namoro
com o normal romantismo
de um coração que envia
mensagens
não acredito nas
soluções avançadas
para sentimentos antigos
o meu coração pode vir a
ter
um pace maker
mas não pode
digitalizar
porque ama mas não é
lógico
então espero espero
que a carta vá e volte
outra
perfumada amorosa
em papel seda
este processo da
produção
da carta de amor
não me sai da mente
por isso chamo a este
poema
cartas * do amor * urgente
c peres feio 2012 01 31 carcavelos
sábado, 24 de dezembro de 2011
ARS POETICA (86): A árvore de Natal, de Rui Zink e Wynton Marsalis
Neste Natal
Não dê dinheiro a um pobre
Habitua-o mal
Não dê comida a um pobre
Habitua-o mal
Não dê de beber a um pore
Ele vai gastar tudo em vinho
Não dê guarida a um pobre
Ele gosta é mesmo de chão
Não dê livros a um pobre
Ele queima-os para se aquecer
Não dê carinho a um pobre
Ele estranha e fica nervoso
Não diga bom dia a um pobre
Dá-lhe falsas esperanças
Não dê saúde a um pobre
É uma despesa inútil
Se quer mesmo dar-lhe alguma coisa
[porque enfim está no espírito de natal
e você é uma alma piedosa]
Dê-lhe porrada.
Vai ver que ele gosta
É ao que ele está habituado
E os pobres já sabemos como é
os pobres (coitados) não são muito de mudança não.
Rui Zink
In: JL : jornal de letras, artes e ideias, Ano XXI, n.º 1075 (2011-12-14 a 27), “Contos de Natal”, 11
Oops! Mu.. dança não, mas talvez com o swing de Wynton Marsalis possa haver uma mudança de paradigma...
Christmas Jazz Jam / Wynton Marsalis
Ars Poetica 2U wishes you a merry and fun Christmas!
domingo, 16 de outubro de 2011
ARS POETICA (85): "Há sempre uma nódoa no fato engomado da Democracia", um poema irónico de Júlia Lello

domingo, 4 de setembro de 2011
ARS POETICA (84): No país dos sacanas - a radiografia de Jorge de Sena
Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas,
Não há mesmo melhor que uma sacanice
para fazer funcionar fraternamente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já o é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país?
Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
10/10/73
In: Sena, Jorge de – 40 anos de servidão, 2.ª ed. revista, Lisboa : Moraes Editores, 1982
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domingo, 13 de março de 2011
ARS POETICA (83): "Que parva que eu sou", um poema-hino para uma "geração à rasca"
Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Pedro da Silva Martins / "Deolinda"
E a interpretação dos DEOLINDA...
domingo, 30 de janeiro de 2011
ARS POETICA (82): A paixão nua de Sophia de Mello Breyner Andresen
Apollo & Daphne's nude passion [2011] / (re)designed by David Zink
A semana que findou, ficou marcada pela entrega do espólio literário de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) à Biblioteca Nacional de Portugal. Foi um acto que honra os seus herdeiros, pois ao contrário do que muitas vezes sucede, tratou-se de uma doação não de uma venda, visando justamente a salvaguarda de um património inestimável à instituição oficial mais habilitada para o fazer e, simultaneamente, a sua disponibilização a todos os investigadores que se interessem pela sua obra.
A par deste acontecimento a 26 de Janeiro, assinalado com a pompa e circuntância elgarianas (ainda que sem a grandiloquente música do famoso compositor inglês), foi inaugurada na BNP uma exposição ilustrativa deste espólio, comissariada por Paula Morão e Teresa Amado, e realizou-se em boa-hora nos dois dias seguintes na Fundação Calouste Gulbenkian, um Colóquio Internacional sobre a poetisa e a sua obra.
Ars Poetica 2U aplaude tais iniciativas e, para estimular o apetite pela leitura da sua obra, transcreve um dos seus poemas menos conhecidos, talvez o mais curto em número de palavras (como um Haiku japonês) mas carregado do sentido que norteou a sua vida poética.
____________Atravessou a minha vida como rios
in: Antologia. Lisboa : Moraes Editores, 1875, p. 267
domingo, 26 de dezembro de 2010
ARS POETICA (81): Correio Poético (24): Edite Gil escreve ao Pai Natal
Querido Pai Natal,
este ano peço-te dois presentes,
dois presentes especiais.
Como sei que para ti tudo é possível
peço-te uma borracha e um lápis especiais
Uma borracha muito especial
uma borracha que apague ódios e guerras
que apague a fome e as doenças
que apague mentiras e desejos de vingança…
E um lápis especial
para corporizar abrigos e agasalhos
um lápis
para desenhar um sorriso em cada rosto
escrever a felicidade em cada coração
e a esperança em cada homem.
2010.Dez.05
"Daria tudo que sei, em troca da metade do que ignoro."
Descartes
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
ARS POETICA (80): Os Vampiros, de ontem e de hoje, na poesia de José Afonso
OS VAMPIROS
Hoje como Ontem, os Vampiros aí estão atacando de novo (de dentes mais afilados e sequiosos que nunca)… permanece pois, com pleno sentido, o poema do saudoso José Afonso (“Zeca” para os amigos), uma das melhores vozes que Portugal conheceu, mas também uma voz incómoda para os “podres poderes” (da canção de Caetano Veloso), poeta de grande sensibilidade e lutador de causas justas, aqui fica o poema como homenagem ao seu autor e para todos vós, para que não se deixem vampirizar a pretexto da actual "crise", porque «quem te avisa teu amigo é» (provérbio popular) e como disse essa outra voz do «Canto Livre», P.e Francisco Fanhais: «É preciso avisar toda a gente!»...
Os Vampiros
No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com o seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
As vidas acabadas
São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada
(poema transcrito de um exemplar autografado do livro "Cantares")
In: AFONSO, José – Cantares, 3.ª ed. aum., [Lisboa] : AAEE, [s.d.] (Offset da AEIST), pp. 77-78
Aqui deixamos também a interpretação do “Zeca”, na sua última actuação pública - no Coliseu dos Recreios em Lisboa, em 29 de Janeiro de 1983 - quando este já se encontrava muito afectado pela doença que lhe viria a ser fatal. O registo fílmico do concerto integral foi agora editado, pela primeira vez, em DVD (documento precioso para recordar o momento àqueles que como nós lá estiveram, mas também para o dar a conhecer aos que por qualquer motivo não puderam estar presentes (incluindo, claro está, os que estiveram ausentes por força da razão de ainda não terem nascido).
domingo, 14 de novembro de 2010
ARS POETICA (79): O Outono, de Vivaldi

L' AUTUNNO
Allegro
Celebra il Vilanel con balli e Canti
Del felice raccolto il bel piacere
E del liquor de Bacco accesi tanti
Finiscono col Sonno il lor godere
Adagio molto
Fà ch' ogn' uno tralasci e balli e canti
L'aria che temperata dà piacere,
E la Stagion ch' invita tanti e tanti
D' un dolcissimo Sonno al bel godere.
Allegro
I cacciator alla nov'alba a caccia
Con corni, Schioppi, e canni escono fuore
Fugge la belva, e Seguono la traccia;
Già Sbigottita, e lassa al gran rumore
De' Schioppi e cani, ferita minaccia
Languida di fuggir, ma oppressa muore.
Antonio Vivaldi
fecit circa 1752
«L'AUTUNNO» (de "Le Quattro Stagioni")
I Movimento - Allegro / Schlomo Mintz (violino) & The Israel Philharmonic Orchestra, dir. Zubin Mehta
II Movimento - Adagio molto / Gidon Kremer (violino & dir.) & The English Chamber Orchestra
III Movimento - Adagio / Schlomo Mintz (violino) & The Israel Philharmonic Orchestra, dir. Zubin Mehta
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terça-feira, 5 de outubro de 2010
ARS POETICA (78): Res Poesis para o Centenário «5 de Outubro de 1910-2010»
RES POESIS : Poesia pela República!
No dia em que se comemora o I Centenário da I República Portuguesa, Ars Poetica 2U divulga poemas coevos que ilustram a forma como a poesia foi também um meio de expressão do combate pelos ideiais republicanos. Tal transcrição aqui e agora é feita por deferência de Isabel Lousada e David Zink, que no âmbito da sua investigação sobre a I República têm estado a preparar a publicação de um livro dedicado à poesia republicana, que se intitulará RES POESIS : a poesia pela República.
Venho em nome do povo, o único poeta
Que nesta hora d’amor tem de ser escutado,
Dizer-vos que ele quer a sua obra completa
E que ela o não será com nada do passado.
A bandeira qu’impôs e consagrou no dia
Mais heróico que teve a terra portuguesa,
Se a defendeu com fé, não lhe falta a harmonia,
Se a saudou com paixão, é cheia de beleza.
Cor do mar, é do mar que nos veio a centelha
Que tudo iluminou: pois que fique essa cor!
E derramou-se sangue e por isso é vermelha…
E assim vermelha e vede ela é toda amor.
Singela como nós, como uma espada nua,
Que o mundo inteiro a veja assim como ela está;
Os castelos que tem é onde ela flutua,
E as velhas chagas, sim! Cicatrizaram já.
Foi ontem que se deu a batalha d’Ourique,
Que um portentoso herói justificou com gloria:
O que agora está para trás nós não queremos que fique
Agora é que p’ra nós começa a nossa história.
Essa bandeira celta, árabe ou muçulmana
Derrubada de vez, arrasta-se no chão….
O que ela nos traduz em nada nos irmana;
E o trapo azul e branco é um livro ao menos? Não!
É preciso que tu, ó Pátria, te emancipes
Dos preconceitos vãos a que te tem presa;
Na bandeira não vejo um traço dos Felipes
Nem tão pouco também da invasão francesa.
Tudo o que é mau cortou-o a raça de que veio
A nossa e é assim que a gente tem de vê-la?
Hoje ninguém a ama, achamos tudo feio,
E é preciso queimá-la, inteiramente, a ela!
Não me venham dizer que na África inteira
O preto, antigo escrevo e hoje nosso irmão,
Não reconhecerá a sagrada bandeira
Que é símbolo viril da sua redenção.
Essa raça que vem calcando, há tanto, abrolhos
E entre lutas cruéis, sem uma hora calma,
Há-de a ver içar menos com os seus olhos
Que com a luz que tem dentro da sua alma!
É pois verde e vermelho o estandarte novo
Desta terra d’heróis, que beija as duas cores…
E, se alguém a trocar, é uma traição ao povo,
mas ela ficará, porque não há traidores.
Fausto Guedes Teixeira (1871-1940)
A BANDEIRA DA REVOLUÇÃO
Verde, verde, cor dos campos,
E das ondas a bramar…
Pátria de heróis pescadores
E de aldeãos a cavar…
Verde, cor das ânsias loucas
E da raiva a batalhar,
Depois calma, cor dos louros
Para as frontes coroar.
Verde vivo de esmeraldas,
Verde esperança, verde mar…
Esperanças de marinheiros
Não podiam naufragar
Cor virente das palmeiras
Das regiões de além-mar
Por onde andámos pionando,
Com rubra cruz a brilhar…
Cor vermelha: cor do fogo
Dos canhões a metralhar…
Cor vermelha: cor de sangue
Dos que morrem a lutar.
Escarlate dos crepúsculos
Mar e serra a iluminar,
Cor ardente que é saúde,
Que é a Vida a trabalhar.
Cor violenta dos incêndios,
Dos cravos a perfumar,
E da cruz dos enfermeiros
Os feridos a sarar…
Bicolor: verde e vermelha,
Bandeira ovante a ondular,
sagrou-te, a beijos de fogo,
a revolta a fumegar!
Paulino de Oliveira (1864-1914)
domingo, 20 de junho de 2010
ARS POETICA (77): The Nobel Poetry, in Memoriam José Saramago

A ARTE DE AMAR
Metidos nesta pele que nos refuta,
Grande coisa, afinal, é o suor
Dois somos, o mesmo que inimigos.
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
José Saramago
domingo, 9 de maio de 2010
ARS POETICA (76): E tudo era possível em Maio, segundo Ruy Belo...
E TUDO ERA POSSÍVEL
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo, Homem de Palavra[s]
5ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1999
sábado, 17 de abril de 2010
ARS POETICA (75): correio poético (23): Sonhar ao vento, de Clotilde Moreira
Windance (2010) / David Zink
SONHAR AO VENTO*
Não guardes os Sonhos só para ti.
Atira-os ao ar
e deixa que o vento os leve.
E que lá longe,
muito longe
alguém os apanhe
e possa também Sonhar
Clotilde Moreira
sábado, 3 de abril de 2010
ARS POETICA (74): Me queda la palabra, de Blas de Otero, y el Canto Libre de Paco Ibañez
Ars Poetica 2U
EN EL PRINCIPIO
Si he perdido la vida, el tiempo, todo
lo que tiré, como un anillo, al agua,
si he perdido la voz en la maleza,
me queda la palabra.
Si he sufrido la sed, el hambre, todo
lo que era mío y resultó ser nada,
si he segado las sombras en silencio,
me queda la palabra.
Si abrí los labios para ver el rostro
puro y terrible de mi patria,
si abrí los labios hasta desgarrármelos,
me queda la palabra.
Blas de Otero
biografia in: http://es.wikipedia.org/wiki/Blas_de_otero
- e o seu maior intérprete vivo - Paco Ibañez (1934-):
e outro memorável, dos Aguaviva:
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sábado, 13 de fevereiro de 2010
ARS POETICA (73): A Terra Fria, de David José Silva
A TERRA FRIA : 1.ª edição
Na próxima 5.ª feira, dia 18 de Fevereiro, pelas 21 horas no Espaço «Memória dos Exílios», no Estoril (sito na Avenida Marginal, a escassos 100 metros da estação de comboios do Estoril, no espaço da antiga estação dos Correios), pertencente à Câmara Municipal de Cascais, terá lugar o lançamento do livro A Terra Fria, de David José Silva, um jovem poeta promissor que ora se revela ao grande público. O evento será também uma Festa da Poesia, um Florilégio poético-musical (incluindo prelúdio, interlúdio e postludio instrumentais, leitura e "desgarradas"), a que Ars Poetica 2U se associa e estende o convite que lhe foi feito a todos os seus leitores. A entrada é livre.
Por deferência da editora, do autor e do prefaciador do livro, e para aguçar o apetite para a sessão que terá o contributo de diversos músicos, poetas e declamadores e se prevê animada, aqui transcrevemos com a devida vénia, em primeira mão, o prefácio e um dos poemas deste livro que supomos venha a esgotar num apíce a sua 1.ª edição.

Prefácio
Nas sessões das Noites com Poemas, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, de súbito, um moço ergue a voz e surpreende. E insiste em surpreender, sessão após sessão, com algo de imaterial a que apenas me ocorre chamar maturidade e consistência, características que – convenhamos, a bem da verdade –, nenhum dos «decanos», em que me incluo, esperaria.
O que se me depara, verdadeiramente, como extraordinário é a sua ousadia, mesmo perante a dúvida. Ainda o seu olhar introspectivo perscruta a direcção a seguir e já a primeira passada está, afoita, em curso. Poderá parecer aventura. Eu prefiro chamar-lhe determinação.
Há um olhar irónico inusitado, um aconselhamento sobre as coisas do mundo que a nossa presunção de experiência da vida, assim chamada, levaria a considerar prematura. E, no entanto, sabemos que uma absoluta experiência de vida pode decorrer entre as quatro paredes de um quarto, sem ter de se sujeitar a paradigmas temporais. Interessa apenas a capacidade, depois, para a traduzir em obra de arte que busque interlocutor.
É o caso. Um primeiro livro não tem idade para nascer, como fica aqui, uma vez mais, provado. Mas só nascerá ou fará sentido o seu nascimento se um olhar criativo souber parar nos momentos dos dias e reflectir cristalinamente dimensões para além do manto superficial.
Assim vou calcorreando esta Terra Fria, primeira obra de David José Silva. Ouvindo-o, alto e bom som, e parecendo-me bem claras as suas inquietações:
Fora isso, como animal que sou,
sirvo apenas para ser
e não só para acompanhar.
Se a «poesia é o mistério de todas as coisas» (Lorca), então David José Silva já descobriu como nela assentar o pó de estrelas de que intui ser feito. Congratulemo-nos, pois. Nasceu um poeta!
Jorge Castro
Janeiro de 2010
In: A Terra Fria. Lisboa : Apenas Livros, 2010, pp. 3-4
Rapsódia de Dag
I
O Gigante é dourado,
mas os aglomerados brancos fazem-no prateado.
Montanhas de fumo que tocam Apolo,
e ele sente cócegas (esconde-se).
Tal Narciso olha-se ao espelho cá em baixo.
Inferno Verde a fazer de moldura
quando o monstro de rocha
engole o Húmido Elemento.
Gigante de ferro e aço
tapa parte do quadro.
Grupos de carneiros pastam no pasto azul
e esses carneiros plúmbeos
ameaçam chorar nos telhados da existência.
Também eu
sou apenas pedaços do Homem que costumava ser:
quando olho os carneiros,
vejo sempre rostos de outrem
que outrora não eram de ninguém
e que hoje, estranhamente, me parecem alguém.
II
Ainda mal saiu do berço e já fuma cachimbo:
baforadas de fumo saem lentamente
deixando-lhe a face indistinta.
E eu só queria acordar para voltar a
ver o Gigante dourado.
Quando os vários braços do Disco
embatem no espelho de ondas,
forma-se um caminho, longe, áureo
que ilumina as perdidas gaivotas.
Os faróis ligam-se e os monstros aparecem.
Escadaria rosa leva-nos ao limite do Mundo
enquanto pequenas figuras-alvos o fazem a voar.
À medida que se desce, as tonalidades de azul
são mais obscuras.
De vez em quando uma figura de velas
cruza a Monotonia.
Língua arenosa, sequiosa por escurecer.
Melhor que um painel de azulejos
onde a tinta escorre devagarinho,
foi a experiência de vida daquele dia.
Se eu tivesse vivido nesses nichos,
diria que não éramos mais Homens,
que seríamos da terra das ordens
onde os bichos são mais bichos
e por não poder mais, então,
não queria ver para além da realidade.
Mesmo por mais sofrer e saudade,
seria sempre um boneco de latão.
Assim, não vejo para além do que varia.
Mas por toda a escuridão, sem verem
nada naquela calma melodia
nada fazem, apesar de poderem.
Mas que ilustre tarefa seria
livrar os bichos de o serem!
David José Silva
In: A Terra Fria. Lisboa : Apenas Livros, 2010, pp. 9-11
-
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
ARS POETICA (72): Correio poetico (22): O Inverno, na voz de Clotilde Moreira e em Vivaldi

O vento soprou
com força guinchou,
como nota desavinda
que se soltou
e sozinha cantou.
O vento soprou
e com força arrancou
o chapéu
que voou
e lá longe aterrou.
O vento soprou
e com força gritou:
o INVERNO chegou...
Maria Clotilde Moreira
The return of Mr. Winter
& L’ HIVERNO, di Antonio Vivaldi (1678-1741)
Concerto no. 4, in Fa minore per archi, RV 297, "L’ Inverno" – movimento I : Allegro non molto / Gidon Kremer (violino) & The English Chamber Orchestra (rec. 1992)
parte quarta di Le Quattro Staggioni, in Il cimento dell'armonia e dell'inventione, opus 8 (ca. 1725)
INVERNO
(soneto)
(Movimento I: Allegro non molto)
Aggiacciato tremar trà nevi algenti
Al Severo Spirar d' orrido Vento,
Correr battendo i piedi ogni momento;
E pel Soverchio gel batter i denti;
(Movimento II : Largo)
Passar al foco i di quieti e contenti
Mentre la pioggia fuor bagna ben cento
(Movimento III : Allegro)
Caminar Sopra il giaccio, e à passo lento
Per timor di cader gersene intenti;
Gir forte Sdruzziolar, cader à terra
Di nuove ir Sopra 'l giaccio e correr forte
Sin ch' il giaccio si rompe, e si disserra;
Sentir uscir dalle ferrate porte
Sirocco Borea, e tutti i Venti in guerra
Quest' é 'l verno, mà tal, che gioia apporte.
Antonio Vivaldi
fecit circa 1725
-
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
ARS POETICA (71): Pedra Filosofal, um poema de Natal com pinheiros altos
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«Natalis Angelorum et Lapis Philosophorum» / David Zink fecit MMIX
PEDRA FILOSOFAL
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
In: Movimento Perpétuo, 1956
E no (en)"Canto Livre", da sublime interpretação histórica de Manuel Freire (em 1969), aqui revivida pelo próprio quatro décadas depois:
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domingo, 1 de novembro de 2009
ARS POETICA (70): Do Imperativo do Amor, na poesia de Maria João de Aviz
Saudade
És doceComo o mel surripiado
Na infância
Onde logrei crescer
Sob a aura
De um astro solar
No meu sono de vigília
És tu quem
Me vem acordar
A cada dia
Para a urgência
Da hora que passa,
E me deixa na boca
Um travo a mosto
De vinho novo
Que se degusta
Com imperativa saudade…
Maria João Aviz
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domingo, 11 de outubro de 2009
ARS POETICA (69): Lovetime, by David Zink
The labyrinth of love (2009) / David ZinkO TEMPO DO AMOR
-Diz o poeta lírico:
-------Eu amarei
-------Tu amarás!
-------Ele!... amará…
-------Nós… amaremos (docemente),
-------Vós!!… amareis!
-------Eles!!!... amarão…
-Diz o povo (vox populi):
-------Vai trabalhar malandro!
-------Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje!
David Zink /2009
* De preferência, a interpretação ao vivo deve ser efectuada com a colaboração do público nas duas primeiras estrofes. Nestas, o imperativo deve ser colocado no sujeito, mais do que no verbo. O 1.º tempo deve ser carregado de lirismo (doçura na voz e tom evocativo acentuado por gesto de braço projectado para a frente e em elevação), e é apenas dito pelo declamador, mas os restantes são imperativos com acentuação do pronome e o indicador da mão direita apontando na direcção do público, procurando-se que este conclua a forma verbal (excepto no caso do nós, em que os braços se abrem em gesto de abrangência).
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sábado, 19 de setembro de 2009
ARS POETICA (68): Fios de eternidade de Maria João de Aviz
4 Apparitions of M. in a pink sky (2009) : Medea revisited / by David Zink
---------------------as estátuas
---------------------fizeram-se de carne
---------------------para que lhes não aborreça
---------------------a memória
---------------------a escala infame
---------------------dos medos temíveis
---------------------desenhos de sombra e cal
---------------------que suaves contornos
---------------------prolongam em luz
---------------------fios de eternidade…
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
ARS POETICA (67): Madrigal - Yes, the art of Jorge de Sena & Monteverdi
Madrigal a due voce (2009) / David ZinkMADRIGAL
Se vieres, poesia,
a mim ter comigo,
em mim não encontras
o teu velho amigo.
Mal onde procures,
já estive, não estou:
e mesmo que queiras
que eu parta: não vou.
Que a vida que tenho,
se o mundo a levar,
ainda é com ela
que esperas durar.
Jorge de Sena
&...
The madrigal history tour - Italy (part 1) / The King's Singers
Madrigal / Yes (promotional video, 1978)
sábado, 20 de junho de 2009
ARS POETICA (66): Francisco José Lampreia em coabitação poética
Assunto – Apresentação pública do poema
Pedido – Faça da sua vida um poema,
e se não o conseguir, pela sua saúde faça um poema
Fazer da vida um poema?
Quem? Eu?
Pede-me que eu toque como se fosse uma orquestra?
Eu nem sei sequer se conseguirei
Fazer um poema pela minha saúde.
Nos meus tempos de juventude,
Recordo-me dumas aulas de medicina legal,
Dadas num Instituto superlotado,
Onde o único presente estático e calado
Já jazia rotulado e frio.
Assim tendo sido, confesso que pouco aprendi com mortos
E mais ainda, desaprendi com os vivos.
Mas sem desejar fugir ao desafio,
Baseando-me na minha empírica experiência
Adquirida durante esta minha precária existência,
Irei falar-vos de algo desejado, simples e natural,
Que faz bem à saúde de qualquer mortal
E que se chama equilíbrio emocional.
(Dizer em seguida: - A seguir à introdução vem a coabitação)
Observação – Se após ter lido a introdução tiver notado que alguém na sala esboçou algum sorriso mais brejeiro, quando disse que a seguir à introdução vinha a coabitação, não deve ter medo. Procure proceder como um nobre Jarreteiro que grita – Eia, Eia, espada de São Jorge, para que vos quero e para que vos quis?
E erguendo a sua espada, como a um fueiro, desfira um golpe com força contra a sua timidez, tipo descasca-pessegueiro e corte logo o mal pela raiz.
E quando na sala reinar aquela quietude necessária e sagrada, apresse-se a soltar uma gargalhada e sem mais, apresente o seu poema.
Ah, Ah, Ah, Ah, Ah, Ah!
Poema:
Coabitação
Um dia percebi que a mágoa e a alegria faziam parte de mim.
Por isso,
Uma vez que a convivência entre nós, longa se previa,
Pedi a ambas respeito e harmonia.
E também pedi,
Que as respectivas participações na minha vida
Fossem sempre dadas com conta, com peso e com medida.
Poucas vezes estes meus pedidos foram respeitados.
A mágoa, sempre quis lutar contra a alegria
E essa atitude, e a sua força desmedida,
Faziam sofrer meu coração,
Sem conta, sem peso e sem medida.
Agora, quando eu pressinto,
Que algo de mal pode acontecer,
Apresso-me a ter uma conversa com ambas,
E peço-lhes compreensão e peço-lhes entendimento,
Pois a vida deu-me a aprender que tenho de saber conviver
Com a alegria e com o sofrimento.
E a vida também me ensinou que a alegria é muito frágil,
Assim como se fosse, um bebé pequenino.
Por isso, quando sinto a alegria chegar,
Trato-a sempre com muito carinho
E fecho bem a porta da casa,
Para que o sofrimento não se tente e não entre,
Como ele gosta sempre de fazer:
Entrar, sem se anunciar, assim de repente.
Eu acho que o sofrimento é mesmo uma doença,
É uma doença que corrói, corrói
E que se espalha por toda a parte,
Até se transformar numa pandemia
A que qualquer pessoa fica atreita.
Eu temo sempre que essa maleita
Consiga entrar na minha casa, que discuta com a alegria
E que essa discussão se torne fatal.
Se a mágoa conseguir matar minha alegria,
Vai ser muito triste o funeral.
Francisco José Lampreia
sábado, 6 de junho de 2009
ARS POETICA (65): CHEWING GUM LOVE - a poem dated of present days
Chewing gum love (2009) / David Zink
CHEWING GUM LOVE
Chewing gum, Chewing gum*
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora
Ego centrum, Ego centrum
Vamos numa “rapidinha”, já está!
Ciao bambina, Ciao bambino
Chewing gum, Chewing gum
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora
Chacun por soi, Chacun por soi
É o liberalismo, pá!
Laissez faire, laissez passer
Chewing gum, Chewing gum
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora
Chewing gum, Chewing gum
O amor é como os autobuses
Perde-se um, apanha-se outro
Chewing gum, Chewing gum
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora
Chewing gum, Chewing gum
Sopra, sopra, enche
PUM!!!
David Zink /2009
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sábado, 16 de maio de 2009
ARS POETICA (64): Jorge de Sena's Ode to Destiny and John Dowland's Tears...
ODE AO DESTINO
Destino: desisti, regresso, aqui me tens.
Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.
Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam em bandos,
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.
Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.
Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.
A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são as vítimas.
É nesta mesma rua que eu
ouço todos os sonhos passar desfeitos.
Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.
Jorge de Sena
Pedra Filosofal, 1950
So let's...
"Flow My Tears" (John Dowland, 1563-1626)
quarta-feira, 29 de abril de 2009
ARS POETICA (63): Correio poético (22): Carlos Pedro em Poética Cru(z)a(da)
CRUZADISMO
Palavras
de vento
no parlamento
são passatempo
do sinecurista
qual artista
malabarista
negregado
alanzoeiro
que bota
lei capilota
contra-algibeira
do pobre
que nele vota
Gordo de conques
o merdelheiro
já esqueceu
o que passou
no pardieiro
aonde viveu
CÁPÊ /2009
sábado, 4 de abril de 2009
ARS POETICA (62): Correio poético (21): Um poema da cidade-tempo nos carris, por Clotilde Moreira
Clotilde Moreira reflecte sobre "o tempo, esse grande escultor" (Marguerite Yourcenar dixit) e presta homenagem ao "amarelo da Carris" esse meio de transporte que, apesar de nascido em Inglaterra, é monumento nacional português e património da humanidade
JÁ NÃO VIAJO PELA CIDADE...
Spacial tram (2009) / (re)designed by David ZinkJá não viajo pela cidade...
Os meus planos
têm agora a dimensão do dia,
o futuro já não tem tamanho para mim.
Mas tenho saudades
quando a pressa era Amarela.
Tlim, Tlim avança
Tlim, pára!
E aos solavancos
Corríamos por ruas e ruelas
Avançávamos pelas avenidas
E tudo ficava ao nosso alcance.
Tenho saudades dos bancos corridos
de madeira e palha;
Tenho saudades dos toldos de riscas
e do calor das viagens de verão
até ao Dafundo,
Tenho saudades dos miúdos pendurados
e do pica-bilhetes.
Tenho saudades do tempo
em que a pressa era Amarela.
Clotilde Moreira
E, a pretexto, evoca-se uma das canções populares portuguesas mais inspiradas «O amarelo da Carris» (música de José Luís Tinoco, sobre poema de José Carlos Ary dos Santos), na voz de Carlos do Carmo
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sexta-feira, 20 de março de 2009
ARS POETICA (61): Viva(ldi), La Primavera!
Ars Poetica 2U celebra a Primavera publicando dois poemas em concerto (um brinde de Pedro Sevylla de Juana, vindo de Espanha expressamente para os nossos leitores, e outro, oh surpresa das surpresas!, um soneto de Antonio Vivaldi), a música das palavras e não só...
PRIMAVERA
A gente da rua, a comum e corrente
essa gente magnífica que empurra o planeta,
Às brisas frescas
Às traquinadas das crianças alegres
Às noites serenas
pálida e cheia
A comer três vezes ao dia
A enlaçar a tempo um ónibus com outro
A passar uma manhã inteira
Os homens e mulheres de carne e sangue
Pedro Sevylla de Juana
e LA PRIMAVERA, di Antonio Vivaldi (1678-1741)
Concerto no. 1, in Mi maggiore per violino, archi e clavicembalo, RV 269, "La Primavera" – movimento I : Allegro / Gidon Kremer (violino) & The English Chamber Orchestra (rec. 1992)
parte prima di Le Quattro Staggioni, in Il cimento dell'armonia e dell'inventione, opus 8 (ca. 1725)
PRIMAVERA
(Movimento I: Allegro)
Giunt' è la Primavera e festosetti
Vengon' coprendo l'aer di nero amanto
(Movimento II : Largo)
E quindi sul fiorito ameno prato
(Movimento III : Allegro)
Di pastoral Zampogna al suon festante
Danzan Ninfe e Pastor nel tetto amato
Di primavera all' apparir brillante.
Antonio Vivaldi
fecit circa 1725
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