ARS POETICA 2U releva do conceito de que a alquimia das palavras é parte essencial da vida, sendo esta considerada como arte total.
Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".

Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/


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POEMARIUM : recipientis poeticus

POEMARIUM : recipientis poeticus

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ARS POETICA (71): Pedra Filosofal, um poema de Natal com pinheiros altos

- «Natalis Angelorum et Lapis Philosophorum» / David Zink fecit MMIX


PEDRA FILOSOFAL


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão
(pseudónimo do prof. Rómulo de Carvalho)
In: Movimento Perpétuo, 1956

E no (en)"Canto Livre", da sublime interpretação histórica de Manuel Freire (em 1969), aqui revivida pelo próprio quatro décadas depois:

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domingo, 1 de novembro de 2009

ARS POETICA (70): Do Imperativo do Amor, na poesia de Maria João de Aviz


Saudade


És doce
Como o mel surripiado
Na infância
Onde logrei crescer
Sob a aura
De um astro solar
No meu sono de vigília
És tu quem
Me vem acordar
A cada dia
Para a urgência
Da hora que passa,
E me deixa na boca
Um travo a mosto
De vinho novo
Que se degusta
Com imperativa saudade…

Maria João Aviz
2009
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Apollo & Daphne (2009) / David Zink, after Bernini (1598-1680)

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domingo, 11 de outubro de 2009

ARS POETICA (69): Lovetime, by David Zink

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The labyrinth of love (2009) / David Zink



O TEMPO DO AMOR



-Diz o poeta lírico:


-------
Eu amarei

-------
Tu amarás!

-------
Ele!... amará…


-------Nós… amaremos (docemente),

-------
Vós!!… amareis!

-------
Eles!!!... amarão…



-Diz o povo (vox populi):


-------
Vai trabalhar malandro!

-------
Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje!


David Zink /2009


* De preferência, a interpretação ao vivo deve ser efectuada com a colaboração do público nas duas primeiras estrofes. Nestas, o imperativo deve ser colocado no sujeito, mais do que no verbo. O 1.º tempo deve ser carregado de lirismo (doçura na voz e tom evocativo acentuado por gesto de braço projectado para a frente e em elevação), e é apenas dito pelo declamador, mas os restantes são imperativos com acentuação do pronome e o indicador da mão direita apontando na direcção do público, procurando-se que este conclua a forma verbal (excepto no caso do nós, em que os braços se abrem em gesto de abrangência).
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sábado, 19 de setembro de 2009

ARS POETICA (68): Fios de eternidade de Maria João de Aviz

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4 Apparitions of M. in a pink sky (2009) : Medea revisited / by David Zink



---------------------as estátuas
---------------------fizeram-se de carne
---------------------para que lhes não aborreça
---------------------a memória
---------------------a escala infame
---------------------dos medos temíveis

---------------------desenhos de sombra e cal
---------------------que suaves contornos
---------------------prolongam em luz
---------------------fios de eternidade…
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-
Maria João de Aviz
-
--

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ARS POETICA (67): Madrigal - Yes, the art of Jorge de Sena & Monteverdi

-Madrigal a due voce (2009) / David Zink


MADRIGAL


Se vieres, poesia,
a mim ter comigo,
em mim não encontras
o teu velho amigo.

Mal onde procures,
já estive, não estou:
e mesmo que queiras
que eu parta: não vou.

Que a vida que tenho,
se o mundo a levar,
ainda é com ela
que esperas durar.


Jorge de Sena
in: Pedra Filosofal, 1950

&...


The madrigal history tour
- Italy (part 1) / The King's Singers


Madrigal / Yes (promotional video, 1978)
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sábado, 20 de junho de 2009

ARS POETICA (66): Francisco José Lampreia em coabitação poética

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Introdução e coabitação


apresentada com o pedido e a observação abalizada dum psiquiatra que por acaso também é poeta



Assunto – Apresentação pública do poema




Pedido – Faça da sua vida um poema,
e se não o conseguir, pela sua saúde faça um poema

Fazer da vida um poema?
Quem? Eu?
Pede-me que eu toque como se fosse uma orquestra?
Eu nem sei sequer se conseguirei
Fazer um poema pela minha saúde.
Nos meus tempos de juventude,
Recordo-me dumas aulas de medicina legal,
Dadas num Instituto superlotado,
Onde o único presente estático e calado
Já jazia rotulado e frio.
Assim tendo sido, confesso que pouco aprendi com mortos
E mais ainda, desaprendi com os vivos.
Mas sem desejar fugir ao desafio,
Baseando-me na minha empírica experiência
Adquirida durante esta minha precária existência,
Irei falar-vos de algo desejado, simples e natural,
Que faz bem à saúde de qualquer mortal
E que se chama equilíbrio emocional.

(Dizer em seguida: - A seguir à introdução vem a coabitação)



Observação – Se após ter lido a introdução tiver notado que alguém na sala esboçou algum sorriso mais brejeiro, quando disse que a seguir à introdução vinha a coabitação, não deve ter medo. Procure proceder como um nobre Jarreteiro que grita – Eia, Eia, espada de São Jorge, para que vos quero e para que vos quis?
E erguendo a sua espada, como a um fueiro, desfira um golpe com força contra a sua timidez, tipo descasca-pessegueiro e corte logo o mal pela raiz.
E quando na sala reinar aquela quietude necessária e sagrada, apresse-se a soltar uma gargalhada e sem mais, apresente o seu poema.



Ah, Ah, Ah, Ah, Ah, Ah!
Poema:
Coabitação



Um dia percebi que a mágoa e a alegria faziam parte de mim.
Por isso,
Uma vez que a convivência entre nós, longa se previa,
Pedi a ambas respeito e harmonia.
E também pedi,
Que as respectivas participações na minha vida
Fossem sempre dadas com conta, com peso e com medida.
Poucas vezes estes meus pedidos foram respeitados.
A mágoa, sempre quis lutar contra a alegria
E essa atitude, e a sua força desmedida,
Faziam sofrer meu coração,
Sem conta, sem peso e sem medida.
Agora, quando eu pressinto,
Que algo de mal pode acontecer,
Apresso-me a ter uma conversa com ambas,
E peço-lhes compreensão e peço-lhes entendimento,
Pois a vida deu-me a aprender que tenho de saber conviver
Com a alegria e com o sofrimento.
E a vida também me ensinou que a alegria é muito frágil,
Assim como se fosse, um bebé pequenino.
Por isso, quando sinto a alegria chegar,
Trato-a sempre com muito carinho
E fecho bem a porta da casa,
Para que o sofrimento não se tente e não entre,
Como ele gosta sempre de fazer:
Entrar, sem se anunciar, assim de repente.
Eu acho que o sofrimento é mesmo uma doença,
É uma doença que corrói, corrói
E que se espalha por toda a parte,
Até se transformar numa pandemia
A que qualquer pessoa fica atreita.
Eu temo sempre que essa maleita
Consiga entrar na minha casa, que discuta com a alegria
E que essa discussão se torne fatal.
Se a mágoa conseguir matar minha alegria,
Vai ser muito triste o funeral.


Francisco José Lampreia

sábado, 6 de junho de 2009

ARS POETICA (65): CHEWING GUM LOVE - a poem dated of present days

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Chewing gum love (2009) / David Zink



CHEWING GUM LOVE


Chewing gum, Chewing gum*
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora

Ego centrum, Ego centrum
Vamos numa “rapidinha”, já está!
Ciao bambina, Ciao bambino

Chewing gum, Chewing gum
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora

Chacun por soi, Chacun por soi
É o liberalismo, pá!
Laissez faire, laissez passer

Chewing gum, Chewing gum
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora

Chewing gum, Chewing gum
O amor é como os autobuses
Perde-se um, apanha-se outro

Chewing gum, Chewing gum
Mastiga e deita fora
Mastiga e deita fora

Chewing gum, Chewing gum
Sopra, sopra, enche
PUM!!!


David Zink /2009


* De preferência, a interpretação em público deve ser efectuada a 3 vozes: uma para a leitura/declamação; outra para mascar pastilha elástica e fazer “balões” durante a duração da leitura; e a terceira para fazer coro no Refrão, o qual é para ser dito ou cantado em ritmo de swing, pautado com estalidos de dedos dos 3 elementos, precedido da expressão imperativa “Let’s”, com melodia inspirada na canção “Spoonful” do bluesman Willie Dixon - “(Let’s) Chewing gum, (Let’s) Chewing gum
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sábado, 16 de maio de 2009

ARS POETICA (64): Jorge de Sena's Ode to Destiny and John Dowland's Tears...

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ODE AO DESTINO


Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam em bandos,
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são as vítimas.
É nesta mesma rua que eu
ouço todos os sonhos passar desfeitos.

Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.


Jorge de Sena
Pedra Filosofal, 1950
republicado em: Poesia - I, 2.ª ed., Moraes Ed., 1977


So let's...

"Flow My Tears" (John Dowland, 1563-1626)
/ by Andreas Schöll, countertenor

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

ARS POETICA (63): Correio poético (22): Carlos Pedro em Poética Cru(z)a(da)

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Circus magnum (2009) / (re)designed by David Zink


CRUZADISMO

Palavras
de vento
no parlamento
são passatempo
do sinecurista
qual artista
malabarista
negregado
alanzoeiro
que bota
lei capilota
contra-algibeira
do pobre
que nele vota

Gordo de conques
o merdelheiro
já esqueceu
o que passou
no pardieiro
aonde viveu

CÁPÊ /2009
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sábado, 4 de abril de 2009

ARS POETICA (62): Correio poético (21): Um poema da cidade-tempo nos carris, por Clotilde Moreira


Clotilde Moreira reflecte sobre "o tempo, esse grande escultor" (Marguerite Yourcenar dixit) e presta homenagem ao "amarelo da Carris" esse meio de transporte que, apesar de nascido em Inglaterra, é monumento nacional português e património da humanidade


JÁ NÃO VIAJO PELA CIDADE...

Spacial tram (2009) / (re)designed by David Zink


Já não viajo pela cidade...

Os meus planos
têm agora a dimensão do dia,
o futuro já não tem tamanho para mim.

Mas tenho saudades
quando a pressa era Amarela.
Tlim, Tlim avança
Tlim, pára!

E aos solavancos
Corríamos por ruas e ruelas
Avançávamos pelas avenidas
E tudo ficava ao nosso alcance.

Tenho saudades dos bancos corridos
de madeira e palha;
Tenho saudades dos toldos de riscas
e do calor das viagens de verão
até ao Dafundo,
Tenho saudades dos miúdos pendurados
e do pica-bilhetes.

Tenho saudades do tempo
em que a pressa era Amarela.

Clotilde Moreira

E, a pretexto, evoca-se uma das canções populares portuguesas mais inspiradas «O amarelo da Carris» (música de José Luís Tinoco, sobre poema de José Carlos Ary dos Santos), na voz de Carlos do Carmo



(ver poema em http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/carlosdocarmo_02.html)
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sexta-feira, 20 de março de 2009

ARS POETICA (61): Viva(ldi), La Primavera!



Ars Poetica 2U celebra a Primavera publicando dois poemas em concerto (um brinde de Pedro Sevylla de Juana, vindo de Espanha expressamente para os nossos leitores, e outro, oh surpresa das surpresas!, um soneto de Antonio Vivaldi), a música das palavras e não só...


PRIMAVERA


A gente da rua, a comum e corrente
a que começa o dia quando o dia começa,
essa gente magnífica que empurra o planeta,
me entusiasma e me surpreende.

Às brisas frescas
e às fragrantes flores
recém abertas
lhes chama essa gente
primavera.

Às traquinadas das crianças alegres
e às pechinchas achadas nas feiras
lhes diz essa boa gente
primavera.

Às noites serenas
e à vizinha lua
pálida e cheia
lhes chama
primavera.

A comer três vezes ao dia
um prato de lentilhas, um guisado de ovelha
ou algumas costelas de porco,
lhe diz essa gente primavera.

A enlaçar a tempo um ónibus com outro
para chegar pontual à oficina
e trabalhar quase sem repouso
onze horas ao dia,
cobrando depois de uma comprida espera
uma paga mesquinha,
lhes chama primavera.

A passar uma manhã inteira
sem lumbago, ciática
reumatismo, gastrite ou enxaqueca
lhe diz esta gente primavera.

Os homens e mulheres de carne e sangue
excedem minha capacidade de surpresa:
contagiam ilusão, derramam coragem,
arrostam a vida com a olhada aberta,
comentam em voz alta suas intimidades,
abarrotam as salas de espera
e ao menor indício de melhora
à realidade mais pequena
a qualquer coisa
lhe chamam primavera.

Pedro Sevylla de Juana


e LA PRIMAVERA, di Antonio Vivaldi (1678-1741)

Concerto no. 1, in Mi maggiore per violino, archi e clavicembalo, RV 269, "La Primavera" – movimento I : Allegro / Gidon Kremer (violino) & The English Chamber Orchestra (rec. 1992)
parte prima di Le Quattro Staggioni, in Il cimento dell'armonia e dell'inventione, opus 8 (ca. 1725)



PRIMAVERA
(soneto)

(Movimento I: Allegro)

Giunt' è la Primavera e festosetti
La Salutan gl' Augei con lieto canto,
E i fonti allo Spirar de' Zeffiretti
Con dolce mormorio Scorrono intanto:

Vengon' coprendo l'aer di nero amanto
E Lampi, e tuoni ad annuntiarla eletti
Indi tacendo questi, gl' Augelletti;
Tornan' di nuovo al lor canoro incanto:


(Movimento II : Largo)

E quindi sul fiorito ameno prato
Al caro mormorio di fronde e piante
Dorme 'l Caprar col fido can' à lato.


(Movimento III : Allegro)

Di pastoral Zampogna al suon festante
Danzan Ninfe e Pastor nel tetto amato
Di primavera all' apparir brillante.

Antonio Vivaldi
fecit circa 1725

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sábado, 14 de março de 2009

ARS POETICA (60): Correio poético (20): Místicas invenções, de Carlos Pedro



Místicas invenções


Quem quer ver a barca bela
que se vai deitar ao mar
nossa senhora vai nela
e os anjos vão a remar

Líricas invenções
de mentirosos
aldrabões
será que não
irão marrar
com a barca
num porta-aviões!?

São Vicente é o piloto
Jesus Cristo o general
que linda bandeira levam
bandeira de Portugal

Místicas invenções
não há barca
fechem as escotilhas
as comportas
será o seu destino
desfazer-se contra
um submarino do Portas
--
CÁPÊ

sábado, 7 de março de 2009

ARS POETICA (59): People are numbers (s. law, no. 1)


1, 2, 3, ... : People are numbers! (s. law no. 1/xxi) / David Zink (2009)



a visual poem + a text poem inspired by world (dis)governments
see more numbers in: http://laborsta.ilo.org/


People are numbers:
1, 2, 3, ...


Numbers have people:
Madaleine, Mary, Joseph

People have martyrizers:
Adolf, George, José

Martyrizers are blind
Can´t see people
only numbers



tradução portuguesa:

As pessoas são números!
1, 2, 3, ...

Números têm pessoas:
Madalena, Maria, José

Pessoas têm algozes:
Adolf, George, José


Os algozes são cegos
Não conseguem ver pessoas
Só números

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sábado, 21 de fevereiro de 2009

ARS POETICA (58): Poesia com História... e com Futuro!



O preço das coisas



No antigo o homem era antes de tudo a sua tribo
e a tribo representava a pátria do homem
a família, o amparo e a despensa;
a propriedade era comum e eram comuns os filhos
os projectos, o trabalho e a colheita;
compartiam-se também
a íntima dor ou a profunda alegria
e o individual não se manifestava apenas
apenas florescia.

A tribo foi-se diluindo nos costumes
a bonança permitiu ao homem mostrar sua personalidade
o homem, separado dos outros, fez-se gente
e a gente descobriu, inventou, modificou
pôs preço às coisas.

Quando tirarem à gente o preço das coisas
chorará como se lhe arrebatassem as coisas
porque não sabe separar as coisas
do preço das coisas.

Quando tirarem à gente o preço das coisas
aninhar-se-ão no seu coração a dúvida e o receio,
pois a gente aprende na primeira infância
- saber sequestrador da inocência -
que antes ou depois
tudo lhe custa;
e se, em etiqueta fixada ou aderida,
não se mostra bem visível o preço
- escrito em caracteres claros
perto do número redondo -
costuma dever-se a que é muito alto.

Quando tirarem à gente o preço das coisas
e as coisas se mostrarem desnudas à gente
a gente não reconhecerá as coisas,
porque sabe que o preço é para as coisas
como a forma, a cor, o cheiro ou a textura
que devem ter todas as coisas.

Quando tirarem à gente o preço das coisas
ignorar-se-á a ordem que seguem as coisas
equivocar-se-á a hierarquia
e tudo será um caos
para a gente que ordena as coisas
pelo preço que têm as coisas.

Mas se queremos que a gente
modifique sua maneira de ver as coisas
e avalie atributos primordiais
como a beleza de linhas
a utilidade prática
o som do vento ao abraçar sua superfície
a suavidade do tacto
a natureza da substância originária,
devemos tirar o preço
que um dia se pôs às coisas.

Quando consigamos tirar o preço às coisas
-acontecimento histórico memorável-
do indivíduo isolado, da gente, surgirá o homem
coração animado de sístoles e diástoles.

Pedro Sevylla de Juana
Money, money (2009) / David Zink
-
-

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

ARS POETICA (57) - esculpindo

em bloco duro de pedra informe e fero trato
a mão afaga
o cinzel lavra
aquele retrato
que paira só no olhar denso do artista
de forma tal que saiba ele que lá exista
um corpo
um ar
um ser
um estar
que nos evoca
o infinito de um mistério e da poesia

e quando depois se toca a aspereza atenuada
dádiva da terra-mãe por troca de nada
em parto ardente sem temor ou agonia
mas que a mãos ambas
o escultor mostra
e desvenda
e traça a golpes com o maço que deslaça
o fino enredo de uma vida
de uma lenda
queda-se esse infinito ao rés da mão em gentil acto
para melhor que o mundo o entenda
assim nascido
em bloco duro de pedra informe e fero trato.

- Jorge Castro

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

ARS POETICA (56): In hoc signo vinces!

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SINAIS


-------------------------------------Eu não sei de todos estes sinais
-------------------------------------que me bombardeiam os dias,
-------------------------------------não sei quem os desenha
-------------------------------------nesta planura onde teu gestos
-------------------------------------abrem tantos trilhos
-------------------------------------que percorro - coração em canto,
-------------------------------------guiada por tua mão.


-------------------------------------Não sei se são outras sendas
-------------------------------------a percorrer,
-------------------------------------ou apenas a memória
-------------------------------------daquelas que percorri
-------------------------------------as exaltando,
-------------------------------------como a sombra a luz.


-------------------------------------Eu não sei sequer
-------------------------------------o princípio e fim desta planura,
-------------------------------------o tempo do seu relevo.
-------------------------------------Não sei se esse relevo existe,
-------------------------------------ou se se forma e dissipa,
-------------------------------------como dunas
-------------------------------------modeladas no vento,
-------------------------------------e se nesse vento
-------------------------------------sou sopro,
-------------------------------------ou leve brisa.


-------------------------------------Eu nada sei
-------------------------------------que não de tua imensidão em mim
-------------------------------------de como meus passos aí se quedam
-------------------------------------em cada curva,
-------------------------------------cada traço,
-------------------------------------cada rasgo.


-------------------------------------Nada sei,
-------------------------------------que não de minha perenidade aí,
-------------------------------------apartada de todos teus possíveis rumos,
-------------------------------------de todos teus rostos,
-------------------------------------de todos teus fluidos
-------------------------------------e gritos.


-------------------------------------Mas
-------------------------------------em ti,
-------------------------------------onde todo o mundo antigo
-------------------------------------se faz novo,
-------------------------------------eu sei meus passos.



Kitó /Jan. 2009
-

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

ARS POETICA (55): Crisis! What crisis?


Como a minha amada sentiu o começo da crise



Uma vez, não pude deixar de desabafar:
- Quando a crise rebentou
Os poderosos pediram ajuda e resultou!
Mas aqueles que têm verdadeira precisão,
Esses, bem podem pedir, que pouco lhes dão.
- Sempre foi assim, meu tesouro,
Quem tem amigos, não morre mouro!
Desta forma me quis consolar a minha amada,
Enquanto trocava com o espelho uma nova mirada.
As suas palavras, trouxeram-me à lembrança a minha avó.
Parece-me que ainda estou a vê-la…
À saída da missa, a dar a sua esmola
E a dizer, com muito carinho:
- Tenha paciência, pobrezinho.
Inesperadamente, a minha amada acrescentou:
- Socialmente, vai ser uma tragédia
E quem mais vai sofrer é a classe média!
Mas outra surpresa ainda me estava reservada:
A minha amada,
Ela que só gosta de pensar nela e em mais nada,
Astutamente, este suspiro me lançou:
- Desde que a crise começou
Nunca mais pensaste nesta pobre moura envergonhada,
Que embora precisada, nunca te pediu nada.
Ao olhá-la nessa tarde calmosa,
Vi-a deitada, desnudada
E achei-a formosa,
Apetitosa.


Francisco José Lampreia

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

ARS POETICA (54): Correio poético (19): Natal é quando...


IllumiNatus (2008) / David Zink (after a Middle Age codex)



  • QUANDO…



    Quando o voo da ave for sonho
    - e o sorriso da criança esplendor

    Quando as árvores tiverem sempre frutos
    - e a terra minada for searas de trigo

    Quando os dias nascerem calmos
    - e as fontes tiverem sempre água

    Quando a lua e o sol deixarem de ter segredos
    - e os homens tiverem todo o tempo para amarem
a terra voltará a ser Paraíso
e todos os dias serão Natal


Clotilde Moreira


2008.Dez.19

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ARS POETICA (53): Correio poetico (18): Presente de Natal


Christmas' words IV (2008) / David Zink


Que a magia do Natal devolva os sonhos em realidade; e que em 2009 a felicidade nos olhares seja o espelho de cada um de nós.

Aos meus amigos, ofereço um…


PEQUENO POEMA

Dilua-se no universo
a couraça de orgulho!
Derreta-se no vento
a couraça de vaidade!
Dissipe-se no sol
a couraça de prepotência!
Louvemos colos
borralhos
afectos.
Busquemos a essência!


Edite Gil
2008.Dez.19

domingo, 14 de dezembro de 2008

ARS POETICA (52): Plantando o Natal...

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Christmas in Paradise - IV (2008) / David Zink


Neste Natal, brindo aos amigos, próximos ou longínquos, sedimento que alimenta a raiz da árvore da nossa vida, tentando contrariar alguma nostalgia que nos chega dos dias cinzentos com o sabor bem luminoso dos afectos…

Dos dias conturbados que vivemos, diria que se cada um de nós plantasse uma couve, uma só que fosse, talvez se atenuasse de forma substancial a crise… e, se não lhe descobríssemos melhor e mais necessitado destinatário, sempre teríamos com que acompanhar a nossa ceia natalícia.

Aparentemente, os nossos economistas e homens das altas finanças não levam estas propostas a sério. E tenho para mim que é pena!...


só de musgo faço a base do presépio
imperfeito
que ele é feito de matéria bem mais dura
e vou pondo as figuras ao meu jeito
dando o jeito de lhes dar
ar de ternura

fruta seca sobre a mesa
e a aletria
fantasias de fantasiar fartura
pela ceia o bacalhau faz companhia
preenchendo lugares vagos
e a lonjura

a bota na chaminé
em vago intento
de trazer ao Natal
quem sabe o riso
o brinde
a réstia intemporal de um outro alento
que nos dê outro Natal de mais sustento

pelo céu
cruza um corpo sideral
a apontar o corpo ao léu de uma criança
e nós todos esperando que o Natal
a conforte em agasalhos de esperança

por fim
o travo doce de um bom vinho
a brindar de novo ao sonho
e o embaraço
de não estares à minha mesa
meu amigo
para te dar neste Natal um grande abraço…

Bom Natal e Festas Felizes

- Jorge Castro
Dezembro de 2008

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sábado, 6 de dezembro de 2008

ARS POETICA (51): correio poético (17): Poema de Natal


O poeta espanhol Pedro Sevylla de Juana, quis partilhar com os leitores de Ars Poetica 2U um actualissimo poema-reflexão para a presente quadra natalíca. Aqui fica com a devida vénia e público louvor pelo cultivo de valores humanistas, de que a actual sociedade está particularmente carente.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", apontou sabiamente Camões no seu canto, mas convém não esquecer que também é preciso que as vontades ajudem a mudar os tempos. E eis como a poesia em contra-corrente se ergue como um farol de esperança susceptível de negar o triunfo da morte do amor (sim, é aí que nos conduz o individualismo).

O homem e a fome

Fome,
fome,
fome;
duas sílabas tão só
e rompem o fluir do homem.

Agente ou paciente
aprofundam a cisão do homem
apagam os caminhos do homem
dessangram o coração do homem
anulam, revogam,
invalidam, desautorizam,
negam o homem.


Pedro Sevylla de Juana
http://www.sevylla.com/

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sábado, 8 de novembro de 2008

ARS POETICA (50): Pas de Strauss, La Valse de Jorge de Sena et un cadeau à la fin



A VALSA DA DEMOCRACIA / Jorge de Sena


Instalada a justiça, distribuída equitativamente a liberdade,
um automóvel para todos?
Mas, meus amigos que imbecilidade!
As carroças serão, por largo tempo, uma necessidade social.
Serão precisos 80 milhões de carroças.
De outro modo, a que atrelar os americanos?

………….

O açúcar, o petróleo, o aço, urânio,
algumas crianças rindo, um stick de golfe,
o copo de papel, a sanduíche
esterilizada, uma mulher contraceptiva
Com as partes de celofane, um homem
De borracha sintética, com as partes de nylon,
terileno, etc. E a bênção do arcebispo,
cardeal, e o Conselho das Igrejas Metodistas
cantando o Ave Caeser, Mulher de Todos os Homens,
bananas, bananas e laranjas, Little Rock,
o governador Rockfeller não intervirá
para tirar da cadeia os parentes contrários
à segregação. Coca-cola. Cadeira eléctrica. O cancro de Foster Dulles.
A poliomielite como carreira política até à
Presidência da República. «Sempre que uma forma
de governo tende a destruir esses fins, o povo
tem o direito de reformá-la ou aboli-la.»
Para tanto: a liberdade de imprensa será garantida
pela publicidade dos «trusts», e os partidos políticos
organizados em cooperação com a Agência Central
de Informações, disputarão eleições LIVRES, segundo
a Constituição. Esta
é um pergaminho encadernado noutro
com fecho de ouro e cadeado de prata,
e dentro, ao abrir-se, uma bailarina,
à vista, e uma caixa de música, oculta,
ao som da qual a bailarina dança
a Valsa da Democracia:

Ai senador
Ai deputado
governador
rinoceronte
a barca bela
de Flagelonte
sulcando vai.
Dido infelice
ficou sem nada
porque o Eneias
vereador
não usa as pastilhas Tricotex reconhecidamente as melhores
para activar e regenerar, sem perigo de habituação,
a virilidade desinteressada. Velhice? Gerontocracia:
O governo do futuro, pelo futuro, para o futuro. Graças
ao Tricotex infalível, discreto, em drageias róseas,
que basta uma só depois do acto para preparar,
com antecedência de vinte e quatro horas, o acto
seguinte. A incineração, apenas poderá reduzir
a cinzas – e perfumadas por excipiente inofensivo –
o ardor de Eneias ou de qualquer homem de negócios
ou simples empregado, mesmo o do Governo Federal
com pensão de reforma, que, pela conformação habitual
do seu espírito, não possa, concentrar-se para além
da secretária. A secretária de vidro transparente,
sob a qual os membros inferiores são visíveis,
deve ser a preferida: hoje mesmo, em três modelos
de dimensões diversas, você poderá comprar,
por um dólar, a secretária que lhe convém.
Sentada na cadeira giratória – gratuitamente
entregue também na primeira prestação – o cavalheiro pode
aguardar confiadamente o efeito do Tricotex.
As secretárias Panfília – Erótia Incorporated
são, com décadas de experiência, associadas
da Bryll Massachusssets Company, cujos técnicos
especializados inventaram o TRI-CO-TEX
que se vende em caixas de pastilhas para
– o nome e a utilização a combinar no drug-store,
para não suscitar a suspeita do seu (ou sua) partner.

…………………….

Instalada a justiça, distribuída equitativamente a
liberdade – um automóvel para todos? Ou a morte sobre
a terra vista azul, se do céu negro?


Jorge de Sena
provavelmente em 1961
In: Sequências. Lisboa : Moraes Editores, 1980, pp. 87-89


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domingo, 26 de outubro de 2008

ARS POETICA (49): Revisitação do "Cântico Negro", por Jorge Casimiro


Jorge Casimiro, poeta que é também físico, investigador, ensaísta, e homem de mil e uma actividades, dá-nos em acto de homenagem e para que não caia no esquecimento ("porque de silêncio também se morre", diz-nos o autor), no seu último livro, uma visão poética diferente de um tema que inspirou José Régio e se tornou, pela voz de João Vilaret, um dos mais célebres da poesia portuguesa.


CÂNTICO NEGRO


neste labirinto de silêncios palpáveis
desenho com o dedo a suspeita de estar só
e um bando de canetas voa espavorido do ninho
solto aos quatro ventos
em jorros de tinta negra
negra como o mais negro dos cânticos
que aqui onde vou não arrasto pés sangrentos
nem desbravo florestas inexploradas
nem terras-de-ninguém devassadas
nem pântanos secos
sem troncos ocos
sem areias movediças
sem água
sem lodo
sem cais
sem sereias de caudas postiças
sem lamas
nem dalai lama
nem pecados originais
não! mais gente não!
que eu não vivo para infectar amores antagónicos entre deuses e demónios
se vivo é só p’ra proclamar a morte da última ave do paraíso
atacada de taquicardia voluptuosa
p’ra declarar louca toda a bússola que me aponte o norte
p’ra caminhar na berma bamba do abismo sem rede
e engolir em seco todo
de chofre
ou em silêncio assina a sua sentença de morte
sempre em silêncio
porque de silêncio
também se morre


Jorge Casimiro
in: Murmúrios ventos. [S.l.] : Pássaro de Fogo, 2006
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

ARS POETICA (48): correio poético (16): Edite Gil, do real ao imaginário



RAZÃO SONHO REAL IMAGINÁRIO


Na caverna de um ser
o respirar da alma…
o respingar da alma…
Esbarrar no vazio, no silêncio, na indiferença
instintivamente, por dor ou saudade
é não compreender a música nómada
é não compreender a infusão, a fusão e a efusão…
Refulgindo, o ébano do espírito mascara-se com a candura…
Que regresse a condescendência da fantasia!
O refrão invade o rifão!...
Grite-se a mágoa infinda do coração clandestino
que caminha ilícito e descalço…
o frio das pedras na vereda cortante que ruma ao abismo…
Quem ousou cortar as asas da imaginação?
Cada um ruma a si, e não se encontra…
E o zimbório da vida em astuta zombaria…
O refrão invade o rifão!...
Para quê as palavras?
Para quê os sonhos?
Para quando, o momento memorável da libertação?


Edite Gil
2008.Ago.26

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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

terça-feira, 7 de outubro de 2008

ARS POETICA (46): correio poético (15): Em busca das palavras perdidas



PALAVRAS PERDIDAS



Há palavras que nunca foram ditas
E deviam...
Há palavras que ficaram guardadas
Para serem ditas um dia...

Mas o dia não chegou
Porque
antes de tempo
Chegou outro dia
que tudo acabou

E o dia das palavras guardadas
Guardou as palavras que deviam ser ditas.


Clotilde Moreira
22 Set. 2008

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

ARS POETICA (45): Frátria, de Carlos Carranca


FRÁTRIA , OU A POESIA COM SENTIDO DE ALMA LUSA


Carlos Carranca, é uma voz de excepção das Baladas e do Fado de Coimbra, de que tivémos o privilégio de voltar a ouvir há poucos dias na última sessão das "Noites com Poemas". É também uma personalidade indomável que não se cansa de proclamar valores éticos em contra-corrente com a "moda" actual, contrapondo a um Portugal corrupto que se autodestrói a alma de um Portugal fraternal.
Na sua grande generosidade, autorizou-nos a mostrar-vos um pouco do seu último livro de poemas: "Frátria". Dele extraímos dois poemas (do seu ciclo "Mar do Inferno"), mas também vos mostramos excertos da importante introdução - intitulada "Pré-face" - em que o poeta (se) reflecte em torno de uma teoria e de uma praxis poética alimentadas pelo inconformismo que o caracteriza.
«

Pré-face

(…)
Mas nós somos sempre mais do que conhecemos e os nossos versos vão para além daquilo que sabemos, daquilo que escrevemos.
(…)
Toda a palavra sobre a Morte é do domínio do imaginário mas, como todo o imaginário, está cheia de conteúdo da Vida, sobretudo do que da Vida nos escapa. Ela procura uma resposta para a solidão ontológica radical, singular, condenada a sonhar o sonho, que é como quem diz, condenada à inconsistência do sonho.
(…)
É, pois, trágico para quem vive em constante procura da essência das coisas, assistir, impotente, à dura realidade de uma Pátria a afastar-se da essência e a perder-se na imitação e na vulgaridade utilitárias. Porque não há nada que mais nos degrade do que esta entrega à idolatria da técnica e do consumismo de massas, onde a preocupação dominante do negócio e a intensidade frenética da Vida aniquilam toda a inquietação espiritual.
Agitar, inquietar, libertar, essa foi, é e será a eterna missão da Poesia.
Interrogo-me, frequentes vezes se não estará a poesia mais próxima da magia do que da literatura. Ora, o Poeta não é um literato, é um mágico, sendo na missão transfiguradora da realidade que o poeta se cumpre, e não no acervo de obras consultadas ou na profusão de autores citados. Não é citando os criadores que o Poeta existe, é existindo que o Poeta é.
(…)»

In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, pp. 7-8
(excertos do ciclo)

*


A batida cardíaca
é o mar – este mar – a bater na minha vida.

Mar de cadência dorida
solidão líquida de sal.

Esta batida é o mal
da angústia demoníaca
a desfazer-se em poemas

princípio da própria vida
que a morte dá de saída.

In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, p. 19



*


Há tantos anos que passo pela vida
e nunca parei a olhá-la.
Aonde ia eu?

Corremos fugimos de nós
de nós

e o mar ali à minha espera
a arfar em harmonia.

A vida a respirar a vida.


In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, p. 23

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sexta-feira, 27 de junho de 2008

ARS POETICA (44): "Veritas vincit", ou a Poesia do não-fingimento


Um heterónimo de Fernando Pessoa disse algures que "o poeta é um fingindor" (cf. Autopsicografia / Bernardo Soares, in: Presença, n.º 36, Novembro de 1932), ainda que invocando "a dor que deveras sente", mas o poeta Francisco José Lampreia vem contrapor a necessidade de afirmar a "verdade" imanente (qualquer que ela signifique, e a que nos seja possível alcançar, sendo que os poetas voam sempre mais longe que o comum dos mortais...). E, há que dizê-lo, ainda bem que a poesia não se esgota nos "fingidores", lugar hoje ocupado não por poetas mas por predadores (anti-)sociais.

Poetas "veristas", ou melhor dizendo, poetas d(e)(a) coragem (já que a "verdade" exige coragem, atitude rara nos tempos que correm) são hoje tão necessários como o ar puro que queremos respirar. É certo que a "verdade" por si só não é poesia, mas cabe aos poetas dotá-la de sentido(s) poético(s) "carregado(s) de futuro". Tal como no axioma poético de Gabriel Celaya (1911-1991), Premio Nacional de las Letras Españolas em 1986, trata-se de "(...) poesía necesária, como el pan de cada día (...)".

FJL é uma dessas significantes vozes que se erguem em contra-corrente, e dá-nos um precioso contributo no seu estilo pessoal, em que a intenção “verista” é sabiamente condimentada com a difícil arte da fina ironia.

David Zink


Veritas vincit


- As verdades têm de ser ditas!
- Meu amigo, isso não é chic!
Desconheces a “Realpolitik”?
O dizer deve ser… uma arte,
Agora… é assim em toda a parte.
Cuidado também com a escrita!
A escrita… é perigosa!
E causa melindres,
Pode mesmo ser considerada… melindrosa!
Em vez de verdades,
Falemos e escrevamos antes…
Sobre assuntos de diversão.
Sobre assuntos sérios, Não!
Coisas de diversão… é o que está a dar,
Corre-lhes o vento de feição!
Por isso, coisas sérias não;
Os outros estão-se nas tintas!
- As verdades têm de ser ditas!
- Porque gritas?
- Também não posso gritar?

Francisco José Lampreia / Junho de 2008
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quarta-feira, 11 de junho de 2008

ARS POETICA (43): Poesia & Desporto (I): Fernando Grade no Autódromo do Estoril


AUTÓPSIA DE UMA CORRIDA DE AUTOMÓVEIS

Não queiras ser mais vivo do que és morto” (Augusto de Campos)


Gosto muito de cães que gostem de água.
Fui com um cão bom e branco ver os carros velozes.
Bicho das sementes, o cão ladrava aos motores e
fez os seus grandes inimigos entre os vermes.
As pessoas olhavam para o cão grande vindo da neve
e tinham medo que ele se transformasse num objecto violento;
depois, vendo-o manso,
queriam discutir pneus com o cão branco.
Penso que
o animal é fã de Galileu Galilei:
4 motores + 2 motores + 3 estupores = Sol ao cubo com morangos,
a Terra parece boa e, muitas vezes, marreta.
Não chove, ainda bem para as travagens
– e ganha menos quem trava.
Saio,
creio que o cão desconfia:
a morte andou a cheirar por dentro da água
das chuvas que, afinal, não ganhou rosto algum.
Com Tales de Mileto e
com o meu cão branco fujo das águas
para uma mesa poligonal de cervejas,
misteriosamente como quem sabe e não esquece
que, ao sol ou à chuva, podiam ter morrido,
hoje, sete ou oito mestres do som em fúria
(chamam-lhes, também, pilotos)
naquele vento de armas, dólares e pneus.

Falta-me agradecer a excepção
de me terem deixado entrar para junto dos motores,
armado com o meu cão. Bicho longo,
com alma de bombeiro ; a beber cerveja
ao pé dele – conquista-se o paraíso!


Fernando Grade / Alcabideche, 20 de Setembro de 1987
In: Viola Delta : vol. XXXV : poemas sobre o desporto e outros / Abel Sabaoth, [et al.]. Estoril: Edições Mic, 2003, pp. 18-19.
Anteriormente publicado em: Compra-me um doido / Fernando Grade. Estoril: Ed. Mic, 1988 (esgotado)

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sexta-feira, 16 de maio de 2008

ARS POETICA (42): Correio Poético (14): Metamorfoses do «mito do eterno retorno»


Ciclo de vida? Ou Morte?


Só o nascimento tem uma vinda
Só a morte tem uma ida
Tudo o resto vem e vai.

Uns têm um momento breve
como a flor
como o sorriso,

Outros parece que são sempre
como a pedra.

Mas mesmo a pedra se parte
se quebra
se desfaz em areia

E acaba por ir no sopro do vento
ou no rolar da água do mar.


Clotilde Moreira
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segunda-feira, 12 de maio de 2008

ARS POETICA (41): Fernando Grade, um poeta para quem...


Ao menos, hoje, o mundo não morreu

«Nihil esse tam sanctum, quod nom
aliquando violaret audácia
»
Cicero


A rosa em concha
sedoso bicho de águas ruivas
floresta velha de medos e marés
sal de muito viajar
pedra fechada por unhas ardidas
sangue seco batido pelo grato vento
da família:
flor guardada por facas brancas
palavras austeras sibilinas de trevo
(«o corpo nunca dança!»)
beco de carne minúsculo e
cheiroso de outras armas, cada vez mais cerrado
sobre a pele, hirto de tantos retratos
em cólera que jamais lambeu,

a rosa em concha de ervas
vai ser metralhada por uma audácia
violeta de pregos, sémen
e duas maçãs, violento modo
com crinas soltas e suor
de ser barco púrpura
que rói e fornica.

Ao menos, hoje, o mundo não morreu.


In: Philosophus per ignem : poemas / Fernando Grade. – S. João do Estoril : Edições Mic, 1996, p. 28

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quarta-feira, 7 de maio de 2008

quarta-feira, 30 de abril de 2008

ARS POETICA (39): Haiku(s) V57 a V59, de Isabel Cristina


3 HAIKAI


V57

No fundo da noite
o ar é lento e doce
ritmam-se os gestos



V58

Na escuridão
ateiam-se as estrelas
de ternos abismos




V59


Em rubras auroras
enlaçam-se vagarosas
as cálidas sombras


Isabel Cristina /04.08

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segunda-feira, 28 de abril de 2008

ARS POETICA (38): Correio Poético (13): Memorabilia de Edite Gil


ÉTIMO DA MEMÓRIA



No étimo da memória
a reminiscência de sorrisos…
Declaro pobreza assumida na demência das mentes!
Traço traços, faço rabiscos, arrisco uns riscos paradoxos!
Finco os pés finos e fico
mirando o trote das árvores.
Visto-me de paisagem…
No alfobre,
nem botão nem flor seca…
Esqueci as cores da juventude
e a gravidez das estrelas…
As andorinhas engripadas não rumam para Sul!
Submirjo de beijos rubros de doçura
na cor travessa do sentimento!
Na agonia da ira do amor
quero a embriaguez de verdade!
Ordeno ao odor do crepúsculo coruscante, reluzente
a insânia insónia!
Estou tão perto de nada no dorso da calçada
presencio a canção das águas…
Afinal
só quero de volta a minha alma
e desenhar nostalgias desertas distraidamente excêntricas…


Edite Gil
2008.Abr.27

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quinta-feira, 24 de abril de 2008

ARS POETICA (37): Infusões (politicamente incorrectas) de Carlos Pedro


Ars poetica 2U revela em ante-estreia mundial um poema do novo livro de Carlos Pedro ("Capê") - Ó simpático, vai um tirinho? - que será simbolicamente lançado amanhã, dia 25 de Abril de 2008, pelas 18h30m, na histórica Biblioteca Operária Oeirense (na Rua Cândido dos Reis, junto ao edifício-sede da Câmara Municipal de Oeiras), com apresentação do Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor António Nóvoa.
A data escolhida para o evento não foi por acaso, já que na verdade trata-se de uma obra que certamente seria apreendida pela PIDE/DGS, se não tivesse havido a "Revolução dos Cravos", hoje extinta, excepto (por enquanto) no que à liberdade diz respeito. Mas se a hora não está para efusões, atentemos nestas...


INFUSÕES

Dizem que
do pó vim
dizem que
em pó
me tornarei
espero que
isso aconteça
que a boca
me arrefeça
já com muita
longa idade
numa cidade
longínqua
e que mãos
mui piedosas
me enviarão
para cá
com cuidado
cremado
numa lata de
chá ah! ah! ah!
ou de café
eh! eh! eh!
e numas
confusões
"alzheirmais"
me tomarão
regularmente
em infusões
só depois de
muito mijado
por fim
dormirei
descansado


in: Ó simpático, vai um tirinho? / Carlos Pedro. 2008

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segunda-feira, 21 de abril de 2008

ARS POETICA (36): A música das pedras


COISAS REVOLTAS / por Carlos Peres Feio


algumas coisas revoltam-se ao serem tocadas
e poucos saberão porquê.
revelam na atitude invisível
a agonia em que têm existido
obrigadas ao espectáculo dos humanos
face ao auditório dos inertes,
das pedras semipreciosas, preciosas e simples pedras,
as que amo.
como as compreendo,
incrédulas com este fim de século,
a lembrarem,
a desejarem
voltar aos tempos
antes de a história ser feita,
em que a ordem universal
a gravidade e o silêncio,
só eram vagamente acordados
pelo passar onírico
de um meteoro


In: Podiam ser mais / Carlos Peres Feio. – Carcavelos: Junta de Freguesia ; Cascais: Associação Cultural de Cascais, D.L. 2007


quinta-feira, 17 de abril de 2008

ARS POETICA (35): Requiem por Pedro Bandeira Freire

Na morte de um poeta...


Pedro Bandeira Freire, um poeta que andou nas bocas da canção popular (entre fados, guitarradas, e o vulgar cançonetismo...), mas que era e merecia mais do que isso (embora se compreenda que um poeta não possa viver só do ar...), libertou-se ontem das amarras que o prendiam ao corpo e partiu ontem para o convívio dos poetas que habitam os homéricos Campos Elísios.

Por acaso ou talvez não, foi também dono de um cinema (aliás 4 em 1, e daí a sua designação: o Quarteto) que marcou a minha geração e outras que vieram não apenas porque passou muitos dos melhores filmes projectados em Portugal, mas por se ter tornado quase um lugar de culto e de destino obrigatório de cinéfilos durante as três últimas décadas do século XX. Antes disso, fora co-fundador da Livraria Opinião, outro grande marco de gerações, local de passagem e permanência (para muitos, como eu, era quase uma segunda casa), espaço de tertúlia multidisciplinar e muito mais, que tendo resistido ao fascismo anquilosante não sobreviveu ao pós-25 de Abril de 1974 (para o qual tanto contribuiu), pois nessa altura "a poesia esta(va) na rua"!



Pedro, a musa que te inspirou por forma duradoura, quis nesta ocasião em que partes para outras paragens oferecer-te um Requiem que te rende pública homenagem e juntar-lhe um "rumor" da inspiração que transmitias. Ars Poetica 2U orgulha-se de ter sido escolhido como porta-voz.

David Zink



Requiem para Pedro Bandeira Freire



Na manhã da tua despedida o sol brilhou nas campaínhas e margaridas das escarpas citadinas. Depois foi-se retraindo até as nuvens emprenharem da dimensão da tua perda. Enquanto estavas em coma eu gostaria de ter tido um segundo a teu lado e pegar-te na mão e levar-te uma parcela do sol e perfumes do verão que a primavera cozinha. Aquele verão pelo qual aguardavas encerrado na tua casa sombria. Sombrio imagino o quarto do hospital onde teu coração exausto, na madrugada, se entregou. Mas eu sei, eu sei, que por dentro do azul de teus olhos reinava nesse momento todo o mar do mundo. E é por isso que aqui te deixo, pedro, estas palavras antigas.
____

19 Agosto – 03 Setembro 1990

Fuzeta. O estender dúctil dos pantanos arenosos no voo picado das pequenas aves brancas como pedras lácteas em queda. Tojo, canas, detritos, tornozelos fulgindo conchas, constelações de mil patas delicadas na areia fina, luras, refúgios. Linguagens. Apreender as suas infinitas cambiantes..... Tu vens lá de fora do mundo com a tua linguagem dentro do idioma dele. E súbito sou assim tão nua e tensa a esses gritos, a esses sons que a mim chegam. Uma palavra é então um enorme polvo de mil tentáculos que se me enrodilha nas pernas. Tropeço, levanto-me, tropeço de novo e então estou assim tão cansada. Cansada da minha surdez, da minha inépcia diante da tua linguagem. Tu dizes lua, dizes árvore, dizes pedra. Tu dizes. Eu sei o que é uma lua, uma árvore, uma pedra. Não sei porém de que lua, árvore, pedra me falas tu. Fica então apenas o risco abstracto desses signos, sem substância, volume, cheiro. Fica apenas na grande folha branca de nossas vidas a palavra lua, árvore, pedra. Porém eu sei que a lua mesma pode ser árvore e a pedra que me falas lua. Mas como saber isso de ti, como arrancar-te desse teu hermético linguarejar? Pedro, diz-me que lua, que pedra é essa de que me contas. Não me abandones neste deserto de letras mudas. Pedro, eu não sei nada e não entro no teu universo que é o mundo. Há uma mata densa e escura e branca que me impede o caminho. Eu estou de mãos vazias e esgotada de investidas cegas e vãs no denso bosque. Do outro lado ouço o rumor do teu corpo. Tu gritas “ouves-me?” e eu respondo. Mas em verdade não te ouço, mas em verdade não te vejo e o rumor que me chega é apenas o som de meu respirar sufocado. Pedro, lá do local onde te encontras atira-me uma mão. Dá-me machados, cutelos, fogos, navalhas, roupas, risos. Faz com que eu seja tractor, ceifeira, debulhadora, serra eléctrica. Ajuda-me a ceifar este milheiral bravio de palavras. Faz com que eu abra caminhos até ao teu fresco solar pomar e diz-me depois o nome de cada fruto, cada folha, cada pedra. Pedro dá-me a comer as laranjas sumarentas do teu mundo

Kitó

terça-feira, 15 de abril de 2008

quarta-feira, 9 de abril de 2008

ARS POETICA (33): Haiku V56, de Isabel Cristina



Haiku


V56


Derretem em alvas
bocas, molhados p’la chuva
frutos d’alvoradas


Isabel Cristina
04.08

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segunda-feira, 7 de abril de 2008

ARS POETICA (32): Rossinianos gatos de Júlia Lello



A Dona


Ela cuida de ti como cuida dos gatos:
Entre duas espinhas, passa-te a mão pelo p’lo,
Vigiando-te os cios, previne os desacatos
E vai servindo os restos, com lúcido desvelo.

P´ra que a tua alforria todo o mundo constate
Deixa que mies alto, à noite, nos telhados
(contando que seja o tempo do repouso das gatas
E o gang dos caixotes actue noutros lados).

E, porque não há nada que tanto te deleite,
Consente que persigas os ratos nos esgotos.
Mas à porta, de sonsa, deixa-te o pires de leite,
E uma fôfa almofada onde enterres os osssos

Júlia Lello, 93

* Poema dito por Júlia Lello (extra-programa) com música original de David Zink, no espectáculo do Ars Integrata Ensemble - "Prima la musica, poi le parole?"- levado realizado no Palácio Foz em 6 de Abril de 2008 (v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )


quinta-feira, 3 de abril de 2008

ARS POETICA (31): A ciência e a arte de Jorge Castro



Da Ciência e da Arte*



Grilhetas são as sombras nas paredes das grutas
E os medos fundem no meu corpo os rochedos e o chão

Esquecido de voar
Tenho de inventar asas para descobrir o Sol
E desfraldar as velas dos caminhos não cumpridos
Aí aperceberei o som único da minha voz
Encruzilhada de encontros feitos da ciência dos dias e da arte dos homens
Estarão aí os cumes das montanhas
Ou mesmo só as verdes planícies iluminadas
Onde te encontre

Porque só disso se trata
Por fim
O encontrar-te

Depois a arte fluirá
Nesse espaço todo feito de magias e imponderáveis
Em fugaz ou efémera eternidade
E a ciência dos dias encontrará o homem
E tudo estará no sítio certo
Nesse mar desesperadamente azul e imenso
Intranquilamente constante

E esses seremos nós

E nunca se terá visto alguma vez um mar tão grande.


- Jorge Castro
01 de Maio de 2003


* Poema inédito de Jorge Castro, musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )

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quarta-feira, 2 de abril de 2008

ARS POETICA (30): Da poesia concertante de Júlia Lello



Acerca da essencial e discreta diferença*



Sur-presa das manhãs em que ‘inda me visitas
Acordo-as pressurosa. Solicita, penteio-as
Preparo-as para as galas.
Sentamo-nos então para melhor olhar-te,
Enquanto o tempo pára
E com simplicidade teu trono ocupas.
Diante a ti tecemos
Bordamos, recamando nossas preciosas telas
Perante o teu olhar longuínquo, intenso
O teu olhar perdido acutilante.
Desenleamos as meadas, dobamos
Com júbilo, celebrando a efeméride.
Porém, fugaz e lento, o tempo escoa-se:
Dás sinais de agitado.
E antes de ver-te ansioso
Despeço, lesta as companheiras
E acompanho-te à porta eu própria.
Sóbria, compondo os cabelos
Lançando fora os restos, esconjurando as memórias.
Sossego então. E pronta,
Dirijo-me, eficaz, ao dia que começa.

in: O Concerto ou: o triunfo da música (peça de teatro): seguido de nove poemas inéditos / Júlia Lello. Lisboa : Tema, 1999


* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )

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terça-feira, 1 de abril de 2008

ARS POETICA (29): Voando com Jorge Castro



Canção de embalar*



Vês?
Se tu quiseres eu sou capaz de voar
Depois peço que me dês a tua mão
E virás comigo a todos os céus dos jardins por inventar
Veremos tudo o que fica para aquém dos nossos sonhos
E as pétalas das flores que nunca serão espezinhadas

Porque nós os dois sabemos bem desse mundo sem tempo e sem lugar
Desse espaço apenas apercebido na hora indecisa da madrugada
Em que os ogres adormecem e voltam a ser meninos
E as fadas cansadas demais para existirem
Se recolhem confundidas com as árvores da floresta

Haveremos de percorrer uma a uma cada estrela
Principalmente aquelas que ainda nunca vimos
E que guardam em si a luz que trazes no olhar

Estaremos na fúria dos mares e dos ventos
Seremos tão pequenos que ninguém saberá de nós
Tão imensos que caberá em nós todo o universo
E o nosso riso perturbará no firmamento a Via Láctea

Vês, filho
Como é tão grande e cheio de tudo este espaço em que podemos voar?

Voemos
Voemos agora que já vestiste o teu fato espacial da nave do sono
E eu me retiro devagarinho para não te acordar...



Jorge Castro
21 de Novembro de 2004


* Poema musicado por David Zink e coreografadJustificar completamenteo por Sofia Sylva, para os espectáculos do Ars Integrata Ensemble na Culturgest (31 Jan. 2007) e com nova coreografia da mesma bailarina no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata ao vivo no Palácio Foz )

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segunda-feira, 31 de março de 2008

ARS POETICA (28): Textos pretextuais de Júlia Lello (II)



Ad Præsente Deo*



Tudo parece agora inteiro e claro
Confiante e imutável
Cada olhar é legível e liberto
E em tua mão honesta a minha pousa

Partir-se de uma base quanto isso tranquiliza
Não mais equívocos A má fé repousa
Banida E a luz envolve as formas

E no entanto uma palavra
Às vezes um silêncio ou uma
Imperceptível indomável onda
Desorganiza Abala Instaura o caos

Partido este porém já outra vez de novo
Se pode degustar a paz quando ela volta
Já outra vez não-podre
Mas fresca depurada

E este ciclo de vida é a ti que devo.


in: Textos pretextuais / Júlia Lello. Odivelas: Europress, D.L. 1991

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* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )

sexta-feira, 28 de março de 2008

ARS POETICA (27): Haiku V55, de Isabel Cristina


Haiku


V55

Sons crepusculares
acordam doces manhãs
em bocas de luz
Isabel Cristina / 03.08



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segunda-feira, 24 de março de 2008

ARS POETICA (26): A poética do amor em Jorge Castro


Falas de amor
*


o amor é essa coisa improvável
quase ao rés do impossível
lugar tardoz
escondido
ao recato da família
que tantas vezes perpassa
sinuoso – aventureiro
- ia dizer indizível… -
brilhante qual candeeiro
de luz dada ao mundo inteiro
cheio de graça e desgraça
diamante que retraça um coração distraído
e que por vezes se esquece num recanto da mobília

mas um dia abro a gaveta
dos olhos
das mãos
da boca
de cada um dos sentidos
lá vem ele feito uma seta
essa coisa sem sentido
correndo como uma louca numa corrida sem meta

se consente
consciente
vai da paixão ao ocaso
então faz-se inconsciente
não sendo assim por acaso
que ver com olhos de amar
só se vê o que se quer
… ao resto não se faz caso

ah o amor – o amor
o amor não consentido
há lá coisa tão melhor do que um amor distraído?


Jorge Castro
2006

* Poema musicado por David Zink para os espectáculos do Ars Integrata Ensemble na Culturgest (31 Jan. 2007) e no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata ao vivo no Palácio Foz )


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quinta-feira, 20 de março de 2008

ARS POETICA (25): Correio poético (12): Poesia em Dia de...


PRIMAVERA


Gravita a vitalidade…
Germinam as sementes…
Um decote em forma de uva
cingindo um corpo só…
As magnólias espreguiçam
suas pétalas amarrotadas…
Uns olhos cor de avelã
num rosto de tez perfumada…
As rosas embalam-nos
com seu dulcíssimo perfume…
Um sorriso franco
diamante dos olhos da alma…
Pelos campos as papoulas
abrem, descaradas, seus negros corações de ouro…
Na boca um cântaro de mel,
um movimento preguiçoso,
um coração cavalgante,
as abelhas zumbindo o néctar dos Deuses…
Uma perna bem torneada
o desejo cintilante
num umbigo sem pudor…
Um chilreio de tenor, um bramido, um gorjeio de barítono,
um alento…
O sonho
que pairou silencioso na brisa inquieta
espreguiça então o desejo
de uma intimidade descomposta…
Edite Gil
2006.Abr.15

quarta-feira, 19 de março de 2008

ARS POETICA (24): Poemas mínimos (II): Rien de rien, c'est tout!


II - O Nada... (poema em poucas palavras)



David Zink / 19 Mar. 2008

domingo, 16 de março de 2008

ARS POETICA (23): Correio Poético (11): To be or not to be...


De Francisco José Lampreia, que com a Estefânia Estevens forma um "duo poético" - ela divulgando com o (en)canto da sua voz os poemas dele, e este entrecruzando a sua "fala" tranquila numa toada ritmada, não raro com simbólica ironia - que tem vindo a recolher largo aplauso nas "Noites com poemas", recebemos um...


Poema de sense ou de nonsense?

Estou cansado de ouvir a felicidade comercial nas canções.
Gosto de ti, porque não cantas.
Mas continuo a ouvir as mesmas canções.
Algum dia, deixarei de gostar de ti,
Porque não cantas.
- Mas devo começar a cantar? Perguntas meigamente.
- Meu amor, não me faças perguntas difíceis.
Eu digo o mesmo que diz o povo na sua cultura:
“Mostrar inteligência em terra de loucos, é loucura!”

Francisco José Lampreia


Da Ciência e da Arte / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Acerca da essencial e discreta diferença / Júlia Lello (poema) & David Zink (música)

Canção de embalar / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Falas de amor / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)