Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".
Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
ARS POETICA (55): Crisis! What crisis?
Como a minha amada sentiu o começo da crise
Uma vez, não pude deixar de desabafar:
- Quando a crise rebentou
Os poderosos pediram ajuda e resultou!
Mas aqueles que têm verdadeira precisão,
Esses, bem podem pedir, que pouco lhes dão.
- Sempre foi assim, meu tesouro,
Quem tem amigos, não morre mouro!
Desta forma me quis consolar a minha amada,
Enquanto trocava com o espelho uma nova mirada.
As suas palavras, trouxeram-me à lembrança a minha avó.
Parece-me que ainda estou a vê-la…
À saída da missa, a dar a sua esmola
E a dizer, com muito carinho:
- Tenha paciência, pobrezinho.
Inesperadamente, a minha amada acrescentou:
- Socialmente, vai ser uma tragédia
E quem mais vai sofrer é a classe média!
Mas outra surpresa ainda me estava reservada:
A minha amada,
Ela que só gosta de pensar nela e em mais nada,
Astutamente, este suspiro me lançou:
- Desde que a crise começou
Nunca mais pensaste nesta pobre moura envergonhada,
Que embora precisada, nunca te pediu nada.
Ao olhá-la nessa tarde calmosa,
Vi-a deitada, desnudada
E achei-a formosa,
Apetitosa.
Francisco José Lampreia
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
ARS POETICA (54): Correio poético (19): Natal é quando...
QUANDO…
Quando o voo da ave for sonho
- e o sorriso da criança esplendor
Quando as árvores tiverem sempre frutos
- e a terra minada for searas de trigo
Quando os dias nascerem calmos
- e as fontes tiverem sempre água
Quando a lua e o sol deixarem de ter segredos
- e os homens tiverem todo o tempo para amarem
e todos os dias serão Natal
Clotilde Moreira
2008.Dez.19
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
ARS POETICA (53): Correio poetico (18): Presente de Natal
Que a magia do Natal devolva os sonhos em realidade; e que em 2009 a felicidade nos olhares seja o espelho de cada um de nós.
Aos meus amigos, ofereço um…
PEQUENO POEMA
Dilua-se no universo
a couraça de orgulho!
Derreta-se no vento
a couraça de vaidade!
Dissipe-se no sol
a couraça de prepotência!
Louvemos colos
borralhos
afectos.
Busquemos a essência!
Edite Gil
2008.Dez.19
domingo, 14 de dezembro de 2008
ARS POETICA (52): Plantando o Natal...
Christmas in Paradise - IV (2008) / David Zink
Neste Natal, brindo aos amigos, próximos ou longínquos, sedimento que alimenta a raiz da árvore da nossa vida, tentando contrariar alguma nostalgia que nos chega dos dias cinzentos com o sabor bem luminoso dos afectos…
Dos dias conturbados que vivemos, diria que se cada um de nós plantasse uma couve, uma só que fosse, talvez se atenuasse de forma substancial a crise… e, se não lhe descobríssemos melhor e mais necessitado destinatário, sempre teríamos com que acompanhar a nossa ceia natalícia.
Aparentemente, os nossos economistas e homens das altas finanças não levam estas propostas a sério. E tenho para mim que é pena!...
só de musgo faço a base do presépio
imperfeito
que ele é feito de matéria bem mais dura
e vou pondo as figuras ao meu jeito
dando o jeito de lhes dar
ar de ternura
fruta seca sobre a mesa
e a aletria
fantasias de fantasiar fartura
pela ceia o bacalhau faz companhia
preenchendo lugares vagos
e a lonjura
a bota na chaminé
em vago intento
de trazer ao Natal
quem sabe o riso
o brinde
a réstia intemporal de um outro alento
que nos dê outro Natal de mais sustento
pelo céu
cruza um corpo sideral
a apontar o corpo ao léu de uma criança
e nós todos esperando que o Natal
a conforte em agasalhos de esperança
por fim
o travo doce de um bom vinho
a brindar de novo ao sonho
e o embaraço
de não estares à minha mesa
meu amigo
para te dar neste Natal um grande abraço…
Bom Natal e Festas Felizes
- Jorge Castro
Dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
ARS POETICA (51): correio poético (17): Poema de Natal
O poeta espanhol Pedro Sevylla de Juana, quis partilhar com os leitores de Ars Poetica 2U um actualissimo poema-reflexão para a presente quadra natalíca. Aqui fica com a devida vénia e público louvor pelo cultivo de valores humanistas, de que a actual sociedade está particularmente carente.
O homem e a fome
Fome,
fome,
fome;
duas sílabas tão só
e rompem o fluir do homem.
Agente ou paciente
aprofundam a cisão do homem
apagam os caminhos do homem
dessangram o coração do homem
anulam, revogam,
invalidam, desautorizam,
negam o homem.
Pedro Sevylla de Juana
http://www.sevylla.com/
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sábado, 8 de novembro de 2008
ARS POETICA (50): Pas de Strauss, La Valse de Jorge de Sena et un cadeau à la fin
A VALSA DA DEMOCRACIA / Jorge de Sena
Instalada a justiça, distribuída equitativamente a liberdade,
um automóvel para todos?
Mas, meus amigos que imbecilidade!
As carroças serão, por largo tempo, uma necessidade social.
Serão precisos 80 milhões de carroças.
De outro modo, a que atrelar os americanos?
………….
O açúcar, o petróleo, o aço, urânio,
algumas crianças rindo, um stick de golfe,
o copo de papel, a sanduíche
esterilizada, uma mulher contraceptiva
Com as partes de celofane, um homem
De borracha sintética, com as partes de nylon,
terileno, etc. E a bênção do arcebispo,
cardeal, e o Conselho das Igrejas Metodistas
cantando o Ave Caeser, Mulher de Todos os Homens,
bananas, bananas e laranjas, Little Rock,
o governador Rockfeller não intervirá
para tirar da cadeia os parentes contrários
à segregação. Coca-cola. Cadeira eléctrica. O cancro de Foster Dulles.
A poliomielite como carreira política até à
Presidência da República. «Sempre que uma forma
de governo tende a destruir esses fins, o povo
tem o direito de reformá-la ou aboli-la.»
Para tanto: a liberdade de imprensa será garantida
pela publicidade dos «trusts», e os partidos políticos
organizados em cooperação com a Agência Central
de Informações, disputarão eleições LIVRES, segundo
a Constituição. Esta
é um pergaminho encadernado noutro
com fecho de ouro e cadeado de prata,
e dentro, ao abrir-se, uma bailarina,
à vista, e uma caixa de música, oculta,
ao som da qual a bailarina dança
a Valsa da Democracia:
Ai senador
Ai deputado
governador
rinoceronte
a barca bela
de Flagelonte
sulcando vai.
Dido infelice
ficou sem nada
porque o Eneias
vereador
não usa as pastilhas Tricotex reconhecidamente as melhores
para activar e regenerar, sem perigo de habituação,
a virilidade desinteressada. Velhice? Gerontocracia:
O governo do futuro, pelo futuro, para o futuro. Graças
ao Tricotex infalível, discreto, em drageias róseas,
que basta uma só depois do acto para preparar,
com antecedência de vinte e quatro horas, o acto
seguinte. A incineração, apenas poderá reduzir
a cinzas – e perfumadas por excipiente inofensivo –
o ardor de Eneias ou de qualquer homem de negócios
ou simples empregado, mesmo o do Governo Federal
com pensão de reforma, que, pela conformação habitual
do seu espírito, não possa, concentrar-se para além
da secretária. A secretária de vidro transparente,
sob a qual os membros inferiores são visíveis,
deve ser a preferida: hoje mesmo, em três modelos
de dimensões diversas, você poderá comprar,
por um dólar, a secretária que lhe convém.
Sentada na cadeira giratória – gratuitamente
entregue também na primeira prestação – o cavalheiro pode
aguardar confiadamente o efeito do Tricotex.
As secretárias Panfília – Erótia Incorporated
são, com décadas de experiência, associadas
da Bryll Massachusssets Company, cujos técnicos
especializados inventaram o TRI-CO-TEX
que se vende em caixas de pastilhas para
– o nome e a utilização a combinar no drug-store,
para não suscitar a suspeita do seu (ou sua) partner.
…………………….
Instalada a justiça, distribuída equitativamente a
liberdade – um automóvel para todos? Ou a morte sobre
a terra vista azul, se do céu negro?
Jorge de Sena
provavelmente em 1961
domingo, 26 de outubro de 2008
ARS POETICA (49): Revisitação do "Cântico Negro", por Jorge Casimiro
Jorge Casimiro, poeta que é também físico, investigador, ensaísta, e homem de mil e uma actividades, dá-nos em acto de homenagem e para que não caia no esquecimento ("porque de silêncio também se morre", diz-nos o autor), no seu último livro, uma visão poética diferente de um tema que inspirou José Régio e se tornou, pela voz de João Vilaret, um dos mais célebres da poesia portuguesa.
CÂNTICO NEGRO
neste labirinto de silêncios palpáveis
desenho com o dedo a suspeita de estar só
e um bando de canetas voa espavorido do ninho
solto aos quatro ventos
em jorros de tinta negra
negra como o mais negro dos cânticos
que aqui onde vou não arrasto pés sangrentos
nem desbravo florestas inexploradas
nem terras-de-ninguém devassadas
nem pântanos secos
sem troncos ocos
sem areias movediças
sem água
sem lodo
sem cais
sem sereias de caudas postiças
sem lamas
nem dalai lama
nem pecados originais
não! mais gente não!
que eu não vivo para infectar amores antagónicos entre deuses e demónios
se vivo é só p’ra proclamar a morte da última ave do paraíso
atacada de taquicardia voluptuosa
p’ra declarar louca toda a bússola que me aponte o norte
p’ra caminhar na berma bamba do abismo sem rede
e engolir em seco todo
de chofre
ou em silêncio assina a sua sentença de morte
sempre em silêncio
porque de silêncio
também se morre
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
ARS POETICA (48): correio poético (16): Edite Gil, do real ao imaginário
RAZÃO – SONHO – REAL – IMAGINÁRIO
Na caverna de um ser
o respirar da alma…
o respingar da alma…
Esbarrar no vazio, no silêncio, na indiferença
instintivamente, por dor ou saudade
é não compreender a música nómada
é não compreender a infusão, a fusão e a efusão…
Refulgindo, o ébano do espírito mascara-se com a candura…
Que regresse a condescendência da fantasia!
O refrão invade o rifão!...
Grite-se a mágoa infinda do coração clandestino
que caminha ilícito e descalço…
o frio das pedras na vereda cortante que ruma ao abismo…
Quem ousou cortar as asas da imaginação?
Cada um ruma a si, e não se encontra…
E o zimbório da vida em astuta zombaria…
O refrão invade o rifão!...
Para quê as palavras?
Para quê os sonhos?
Para quando, o momento memorável da libertação?
Edite Gil
2008.Ago.26
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
ARS POETICA (47): Poemas mínimos (V): Archeological Steps of a Poem
v - Os P _ _ _ _ _ do poema (arqueologia)

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terça-feira, 7 de outubro de 2008
ARS POETICA (46): correio poético (15): Em busca das palavras perdidas
PALAVRAS PERDIDAS
Há palavras que nunca foram ditas
E deviam...
Há palavras que ficaram guardadas
Para serem ditas um dia...
Mas o dia não chegou
Porque
antes de tempo
Chegou outro dia
que tudo acabou
E o dia das palavras guardadas
Guardou as palavras que deviam ser ditas.
Clotilde Moreira
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terça-feira, 23 de setembro de 2008
ARS POETICA (45): Frátria, de Carlos Carranca
FRÁTRIA , OU A POESIA COM SENTIDO DE ALMA LUSA
Carlos Carranca, é uma voz de excepção das Baladas e do Fado de Coimbra, de que tivémos o privilégio de voltar a ouvir há poucos dias na última sessão das "Noites com Poemas". É também uma personalidade indomável que não se cansa de proclamar valores éticos em contra-corrente com a "moda" actual, contrapondo a um Portugal corrupto que se autodestrói a alma de um Portugal fraternal.
Pré-face
(…)
Mas nós somos sempre mais do que conhecemos e os nossos versos vão para além daquilo que sabemos, daquilo que escrevemos.
(…)
Toda a palavra sobre a Morte é do domínio do imaginário mas, como todo o imaginário, está cheia de conteúdo da Vida, sobretudo do que da Vida nos escapa. Ela procura uma resposta para a solidão ontológica radical, singular, condenada a sonhar o sonho, que é como quem diz, condenada à inconsistência do sonho.
(…)
É, pois, trágico para quem vive em constante procura da essência das coisas, assistir, impotente, à dura realidade de uma Pátria a afastar-se da essência e a perder-se na imitação e na vulgaridade utilitárias. Porque não há nada que mais nos degrade do que esta entrega à idolatria da técnica e do consumismo de massas, onde a preocupação dominante do negócio e a intensidade frenética da Vida aniquilam toda a inquietação espiritual.
Agitar, inquietar, libertar, essa foi, é e será a eterna missão da Poesia.
Interrogo-me, frequentes vezes se não estará a poesia mais próxima da magia do que da literatura. Ora, o Poeta não é um literato, é um mágico, sendo na missão transfiguradora da realidade que o poeta se cumpre, e não no acervo de obras consultadas ou na profusão de autores citados. Não é citando os criadores que o Poeta existe, é existindo que o Poeta é.
(…)»
In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, pp. 7-8
A batida cardíaca
é o mar – este mar – a bater na minha vida.
Mar de cadência dorida
solidão líquida de sal.
Esta batida é o mal
da angústia demoníaca
a desfazer-se em poemas
princípio da própria vida
que a morte dá de saída.
In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, p. 19
Há tantos anos que passo pela vida
e nunca parei a olhá-la.
Aonde ia eu?
Corremos fugimos de nós
de nós
e o mar ali à minha espera
a arfar em harmonia.
A vida a respirar a vida.
In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, p. 23
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sexta-feira, 27 de junho de 2008
ARS POETICA (44): "Veritas vincit", ou a Poesia do não-fingimento
Um heterónimo de Fernando Pessoa disse algures que "o poeta é um fingindor" (cf. Autopsicografia / Bernardo Soares, in: Presença, n.º 36, Novembro de 1932), ainda que invocando "a dor que deveras sente", mas o poeta Francisco José Lampreia vem contrapor a necessidade de afirmar a "verdade" imanente (qualquer que ela signifique, e a que nos seja possível alcançar, sendo que os poetas voam sempre mais longe que o comum dos mortais...). E, há que dizê-lo, ainda bem que a poesia não se esgota nos "fingidores", lugar hoje ocupado não por poetas mas por predadores (anti-)sociais.
Poetas "veristas", ou melhor dizendo, poetas d(e)(a) coragem (já que a "verdade" exige coragem, atitude rara nos tempos que correm) são hoje tão necessários como o ar puro que queremos respirar. É certo que a "verdade" por si só não é poesia, mas cabe aos poetas dotá-la de sentido(s) poético(s) "carregado(s) de futuro". Tal como no axioma poético de Gabriel Celaya (1911-1991), Premio Nacional de las Letras Españolas em 1986, trata-se de "(...) poesía necesária, como el pan de cada día (...)".
FJL é uma dessas significantes vozes que se erguem em contra-corrente, e dá-nos um precioso contributo no seu estilo pessoal, em que a intenção “verista” é sabiamente condimentada com a difícil arte da fina ironia.
David Zink
Veritas vincit
- As verdades têm de ser ditas!
- Meu amigo, isso não é chic!
Desconheces a “Realpolitik”?
O dizer deve ser… uma arte,
Agora… é assim em toda a parte.
Cuidado também com a escrita!
A escrita… é perigosa!
E causa melindres,
Pode mesmo ser considerada… melindrosa!
Em vez de verdades,
Falemos e escrevamos antes…
Sobre assuntos de diversão.
Sobre assuntos sérios, Não!
Coisas de diversão… é o que está a dar,
Corre-lhes o vento de feição!
Por isso, coisas sérias não;
Os outros estão-se nas tintas!
- As verdades têm de ser ditas!
- Porque gritas?
- Também não posso gritar?
Francisco José Lampreia / Junho de 2008
quarta-feira, 11 de junho de 2008
ARS POETICA (43): Poesia & Desporto (I): Fernando Grade no Autódromo do Estoril
AUTÓPSIA DE UMA CORRIDA DE AUTOMÓVEIS
“Não queiras ser mais vivo do que és morto” (Augusto de Campos)
Gosto muito de cães que gostem de água.
Fui com um cão bom e branco ver os carros velozes.
Bicho das sementes, o cão ladrava aos motores e
fez os seus grandes inimigos entre os vermes.
As pessoas olhavam para o cão grande vindo da neve
e tinham medo que ele se transformasse num objecto violento;
depois, vendo-o manso,
queriam discutir pneus com o cão branco.
Penso que
o animal é fã de Galileu Galilei:
4 motores + 2 motores + 3 estupores = Sol ao cubo com morangos,
a Terra parece boa e, muitas vezes, marreta.
Não chove, ainda bem para as travagens
– e ganha menos quem trava.
Saio,
creio que o cão desconfia:
a morte andou a cheirar por dentro da água
das chuvas que, afinal, não ganhou rosto algum.
Com Tales de Mileto e
com o meu cão branco fujo das águas
para uma mesa poligonal de cervejas,
misteriosamente como quem sabe e não esquece
que, ao sol ou à chuva, podiam ter morrido,
hoje, sete ou oito mestres do som em fúria
(chamam-lhes, também, pilotos)
naquele vento de armas, dólares e pneus.
Falta-me agradecer a excepção
de me terem deixado entrar para junto dos motores,
armado com o meu cão. Bicho longo,
com alma de bombeiro ; a beber cerveja
ao pé dele – conquista-se o paraíso!
Fernando Grade / Alcabideche, 20 de Setembro de 1987
In: Viola Delta : vol. XXXV : poemas sobre o desporto e outros / Abel Sabaoth, [et al.]. Estoril: Edições Mic, 2003, pp. 18-19.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
ARS POETICA (42): Correio Poético (14): Metamorfoses do «mito do eterno retorno»
Ciclo de vida? Ou Morte?
Só o nascimento tem uma vinda
Só a morte tem uma ida
Tudo o resto vem e vai.
Uns têm um momento breve
como a flor
como o sorriso,
Outros parece que são sempre
como a pedra.
Mas mesmo a pedra se parte
se quebra
se desfaz em areia
E acaba por ir no sopro do vento
ou no rolar da água do mar.
Clotilde Moreira
segunda-feira, 12 de maio de 2008
ARS POETICA (41): Fernando Grade, um poeta para quem...
Ao menos, hoje, o mundo não morreu
«Nihil esse tam sanctum, quod nom
aliquando violaret audácia»
Cicero
A rosa em concha
sedoso bicho de águas ruivas
floresta velha de medos e marés
sal de muito viajar
pedra fechada por unhas ardidas
sangue seco batido pelo grato vento
da família:
flor guardada por facas brancas
palavras austeras sibilinas de trevo
(«o corpo nunca dança!»)
beco de carne minúsculo e
cheiroso de outras armas, cada vez mais cerrado
sobre a pele, hirto de tantos retratos
em cólera que jamais lambeu,
a rosa em concha de ervas
vai ser metralhada por uma audácia
violeta de pregos, sémen
e duas maçãs, violento modo
com crinas soltas e suor
de ser barco púrpura
que rói e fornica.
Ao menos, hoje, o mundo não morreu.
In: Philosophus per ignem : poemas / Fernando Grade. – S. João do Estoril : Edições Mic, 1996, p. 28
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quarta-feira, 7 de maio de 2008
quarta-feira, 30 de abril de 2008
ARS POETICA (39): Haiku(s) V57 a V59, de Isabel Cristina
3 HAIKAI
V57
No fundo da noite
o ar é lento e doce
ritmam-se os gestos
V58
Na escuridão
ateiam-se as estrelas
de ternos abismos
V59
Em rubras auroras
enlaçam-se vagarosas
as cálidas sombras
Isabel Cristina /04.08
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segunda-feira, 28 de abril de 2008
ARS POETICA (38): Correio Poético (13): Memorabilia de Edite Gil
ÉTIMO DA MEMÓRIA
No étimo da memória
a reminiscência de sorrisos…
Declaro pobreza assumida na demência das mentes!
Traço traços, faço rabiscos, arrisco uns riscos paradoxos!
Finco os pés finos e fico
mirando o trote das árvores.
Visto-me de paisagem…
No alfobre,
nem botão nem flor seca…
Esqueci as cores da juventude
e a gravidez das estrelas…
As andorinhas engripadas não rumam para Sul!
Submirjo de beijos rubros de doçura
na cor travessa do sentimento!
Na agonia da ira do amor
quero a embriaguez de verdade!
Ordeno ao odor do crepúsculo coruscante, reluzente
a insânia insónia!
Estou tão perto de nada no dorso da calçada
presencio a canção das águas…
Afinal
só quero de volta a minha alma
e desenhar nostalgias desertas distraidamente excêntricas…
Edite Gil
2008.Abr.27
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quinta-feira, 24 de abril de 2008
ARS POETICA (37): Infusões (politicamente incorrectas) de Carlos Pedro
Ars poetica 2U revela em ante-estreia mundial um poema do novo livro de Carlos Pedro ("Capê") - Ó simpático, vai um tirinho? - que será simbolicamente lançado amanhã, dia 25 de Abril de 2008, pelas 18h30m, na histórica Biblioteca Operária Oeirense (na Rua Cândido dos Reis, junto ao edifício-sede da Câmara Municipal de Oeiras), com apresentação do Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor António Nóvoa.
INFUSÕES
Dizem que
do pó vim
dizem que
em pó
me tornarei
espero que
isso aconteça
que a boca
me arrefeça
já com muita
longa idade
numa cidade
longínqua
e que mãos
mui piedosas
me enviarão
para cá
com cuidado
cremado
numa lata de
chá ah! ah! ah!
ou de café
eh! eh! eh!
e numas
confusões
"alzheirmais"
me tomarão
regularmente
em infusões
só depois de
muito mijado
por fim
dormirei
descansado
in: Ó simpático, vai um tirinho? / Carlos Pedro. 2008
segunda-feira, 21 de abril de 2008
ARS POETICA (36): A música das pedras
COISAS REVOLTAS / por Carlos Peres Feio
algumas coisas revoltam-se ao serem tocadas
e poucos saberão porquê.
revelam na atitude invisível
a agonia em que têm existido
obrigadas ao espectáculo dos humanos
face ao auditório dos inertes,
das pedras semipreciosas, preciosas e simples pedras,
as que amo.
como as compreendo,
incrédulas com este fim de século,
a lembrarem,
a desejarem
voltar aos tempos
antes de a história ser feita,
em que a ordem universal
a gravidade e o silêncio,
só eram vagamente acordados
pelo passar onírico
de um meteoro
In: Podiam ser mais / Carlos Peres Feio. – Carcavelos: Junta de Freguesia ; Cascais: Associação Cultural de Cascais, D.L. 2007
quinta-feira, 17 de abril de 2008
ARS POETICA (35): Requiem por Pedro Bandeira Freire
David Zink
19 Agosto – 03 Setembro 1990
Kitó
terça-feira, 15 de abril de 2008
quarta-feira, 9 de abril de 2008
ARS POETICA (33): Haiku V56, de Isabel Cristina
Haiku
V56
Derretem em alvas
bocas, molhados p’la chuva
frutos d’alvoradas
Isabel Cristina
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
ARS POETICA (32): Rossinianos gatos de Júlia Lello
A Dona
Ela cuida de ti como cuida dos gatos:
Entre duas espinhas, passa-te a mão pelo p’lo,
Vigiando-te os cios, previne os desacatos
E vai servindo os restos, com lúcido desvelo.
P´ra que a tua alforria todo o mundo constate
Deixa que mies alto, à noite, nos telhados
(contando que seja o tempo do repouso das gatas
E o gang dos caixotes actue noutros lados).
E, porque não há nada que tanto te deleite,
Consente que persigas os ratos nos esgotos.
Mas à porta, de sonsa, deixa-te o pires de leite,
E uma fôfa almofada onde enterres os osssos
* Poema dito por Júlia Lello (extra-programa) com música original de David Zink, no espectáculo do Ars Integrata Ensemble - "Prima la musica, poi le parole?"- levado realizado no Palácio Foz em 6 de Abril de 2008 (v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )
quinta-feira, 3 de abril de 2008
ARS POETICA (31): A ciência e a arte de Jorge Castro
Da Ciência e da Arte*
Grilhetas são as sombras nas paredes das grutas
E os medos fundem no meu corpo os rochedos e o chão
Esquecido de voar
Tenho de inventar asas para descobrir o Sol
E desfraldar as velas dos caminhos não cumpridos
Aí aperceberei o som único da minha voz
Encruzilhada de encontros feitos da ciência dos dias e da arte dos homens
Estarão aí os cumes das montanhas
Ou mesmo só as verdes planícies iluminadas
Onde te encontre
Porque só disso se trata
Por fim
O encontrar-te
Depois a arte fluirá
Nesse espaço todo feito de magias e imponderáveis
Em fugaz ou efémera eternidade
E a ciência dos dias encontrará o homem
E tudo estará no sítio certo
Nesse mar desesperadamente azul e imenso
Intranquilamente constante
E esses seremos nós
E nunca se terá visto alguma vez um mar tão grande.
- Jorge Castro
01 de Maio de 2003
* Poema inédito de Jorge Castro, musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )
quarta-feira, 2 de abril de 2008
ARS POETICA (30): Da poesia concertante de Júlia Lello
Acerca da essencial e discreta diferença*
Sur-presa das manhãs em que ‘inda me visitas
Acordo-as pressurosa. Solicita, penteio-as
Preparo-as para as galas.
Sentamo-nos então para melhor olhar-te,
Enquanto o tempo pára
E com simplicidade teu trono ocupas.
Diante a ti tecemos
Bordamos, recamando nossas preciosas telas
Perante o teu olhar longuínquo, intenso
O teu olhar perdido acutilante.
Desenleamos as meadas, dobamos
Com júbilo, celebrando a efeméride.
Porém, fugaz e lento, o tempo escoa-se:
Dás sinais de agitado.
E antes de ver-te ansioso
Despeço, lesta as companheiras
E acompanho-te à porta eu própria.
Sóbria, compondo os cabelos
Lançando fora os restos, esconjurando as memórias.
Sossego então. E pronta,
Dirijo-me, eficaz, ao dia que começa.
in: O Concerto ou: o triunfo da música (peça de teatro): seguido de nove poemas inéditos / Júlia Lello. Lisboa : Tema, 1999
* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )
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terça-feira, 1 de abril de 2008
ARS POETICA (29): Voando com Jorge Castro
Canção de embalar*
Vês?
Se tu quiseres eu sou capaz de voar
Depois peço que me dês a tua mão
E virás comigo a todos os céus dos jardins por inventar
Veremos tudo o que fica para aquém dos nossos sonhos
E as pétalas das flores que nunca serão espezinhadas
Porque nós os dois sabemos bem desse mundo sem tempo e sem lugar
Desse espaço apenas apercebido na hora indecisa da madrugada
Em que os ogres adormecem e voltam a ser meninos
E as fadas cansadas demais para existirem
Se recolhem confundidas com as árvores da floresta
Haveremos de percorrer uma a uma cada estrela
Principalmente aquelas que ainda nunca vimos
E que guardam em si a luz que trazes no olhar
Estaremos na fúria dos mares e dos ventos
Seremos tão pequenos que ninguém saberá de nós
Tão imensos que caberá em nós todo o universo
E o nosso riso perturbará no firmamento a Via Láctea
Vês, filho
Como é tão grande e cheio de tudo este espaço em que podemos voar?
Voemos
Voemos agora que já vestiste o teu fato espacial da nave do sono
E eu me retiro devagarinho para não te acordar...
Jorge Castro
21 de Novembro de 2004
o por Sofia Sylva, para os espectáculos do Ars Integrata Ensemble na Culturgest (31 Jan. 2007) e com nova coreografia da mesma bailarina no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata ao vivo no Palácio Foz )segunda-feira, 31 de março de 2008
ARS POETICA (28): Textos pretextuais de Júlia Lello (II)
Ad Præsente Deo*
Tudo parece agora inteiro e claro
Confiante e imutável
Cada olhar é legível e liberto
E em tua mão honesta a minha pousa
Partir-se de uma base quanto isso tranquiliza
Não mais equívocos A má fé repousa
Banida E a luz envolve as formas
E no entanto uma palavra
Às vezes um silêncio ou uma
Imperceptível indomável onda
Desorganiza Abala Instaura o caos
Partido este porém já outra vez de novo
Se pode degustar a paz quando ela volta
Já outra vez não-podre
Mas fresca depurada
E este ciclo de vida é a ti que devo.
in: Textos pretextuais / Júlia Lello. Odivelas: Europress, D.L. 1991
sexta-feira, 28 de março de 2008
ARS POETICA (27): Haiku V55, de Isabel Cristina
Haiku
V55
Sons crepusculares
acordam doces manhãs
em bocas de luz
-
segunda-feira, 24 de março de 2008
ARS POETICA (26): A poética do amor em Jorge Castro
Falas de amor
o amor é essa coisa improvável
quase ao rés do impossível
lugar tardoz
escondido
ao recato da família
que tantas vezes perpassa
sinuoso – aventureiro
- ia dizer indizível… -
brilhante qual candeeiro
de luz dada ao mundo inteiro
cheio de graça e desgraça
diamante que retraça um coração distraído
e que por vezes se esquece num recanto da mobília
mas um dia abro a gaveta
dos olhos
das mãos
da boca
de cada um dos sentidos
lá vem ele feito uma seta
essa coisa sem sentido
correndo como uma louca numa corrida sem meta
se consente
consciente
vai da paixão ao ocaso
então faz-se inconsciente
não sendo assim por acaso
que ver com olhos de amar
só se vê o que se quer
… ao resto não se faz caso
ah o amor – o amor
o amor não consentido
há lá coisa tão melhor do que um amor distraído?
Jorge Castro
2006
quinta-feira, 20 de março de 2008
ARS POETICA (25): Correio poético (12): Poesia em Dia de...
PRIMAVERA
Gravita a vitalidade…
Germinam as sementes…
Um decote em forma de uva
cingindo um corpo só…
As magnólias espreguiçam
suas pétalas amarrotadas…
Uns olhos cor de avelã
num rosto de tez perfumada…
As rosas embalam-nos
com seu dulcíssimo perfume…
Um sorriso franco
diamante dos olhos da alma…
Pelos campos as papoulas
abrem, descaradas, seus negros corações de ouro…
Na boca um cântaro de mel,
um movimento preguiçoso,
um coração cavalgante,
as abelhas zumbindo o néctar dos Deuses…
Uma perna bem torneada
o desejo cintilante
num umbigo sem pudor…
Um chilreio de tenor, um bramido, um gorjeio de barítono,
um alento…
O sonho
que pairou silencioso na brisa inquieta
espreguiça então o desejo
de uma intimidade descomposta…
2006.Abr.15
quarta-feira, 19 de março de 2008
domingo, 16 de março de 2008
ARS POETICA (23): Correio Poético (11): To be or not to be...
De Francisco José Lampreia, que com a Estefânia Estevens forma um "duo poético" - ela divulgando com o (en)canto da sua voz os poemas dele, e este entrecruzando a sua "fala" tranquila numa toada ritmada, não raro com simbólica ironia - que tem vindo a recolher largo aplauso nas "Noites com poemas", recebemos um...
Poema de sense ou de nonsense?
Estou cansado de ouvir a felicidade comercial nas canções.
Gosto de ti, porque não cantas.
Mas continuo a ouvir as mesmas canções.
Algum dia, deixarei de gostar de ti,
Porque não cantas.
- Mas devo começar a cantar? Perguntas meigamente.
- Meu amor, não me faças perguntas difíceis.
Eu digo o mesmo que diz o povo na sua cultura:
“Mostrar inteligência em terra de loucos, é loucura!”
Francisco José Lampreia
segunda-feira, 10 de março de 2008
ARS POETICA (22) : Haiku(s) de Isabel Cristina
3 HAIKAI
Isabel Cristina, artista plástica e professora de ioga, confiou-nos 3 Haiku(s), essa forma poética depurada, de tradição japonesa mas que desde o final do séc. XIX tem vindo, para nosso deleite, a conquistar um número crescente de adeptos ocidentais.
V52
Esvoaçam olhos
P’lo céu rasgado de pássaros
Em manhãs de luz
V53
Em boca sedenta
Encosto o meu desejo
Solta-se a pele
V54
Acesa na noite
A minha boca é d’água
Entorno carícias
Isabel Cristina
-
sexta-feira, 7 de março de 2008
ARS POETICA (21): Textos Pretextuais de Júlia Lello
E porque o culto
Não cuides que te busco ainda por querer-te
Pois nem te quereria já se tu te desses,
De tanto me aplicar (certa de que o quisesses)
No construir da ideia de perder-te:
Após louco intentar com ardis demover-te
Ao ver que a amor já não era crível que cedesses
Desistindo por fim de crer que tu viesses
Oh, como trabalhei os gestos de não ver-te!
E ao fim de tanto estóico esforço de vontade,
se alguma vez me vires buscar com ansiedade
Nesse lodo em que afunda memórias teu olhar,
Não te iludam vestígios de incansável ardor
Nem atribuas causas a saudades de amor
Que é a mim, nada mais, que eu ando a procurar.
* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
ARS POETICA (20): Correio Poético (10): Por onde moram os anjos...
Dentro de mim...
Se eu te disser
Que mora um anjo dentro de mim.
Que se reveste de luz
Que minha vida conduz!
E que essa luz...
Apaga a inveja e maldição,
Espalha o amor
Dentro do meu coração!
Se eu te disser
Que dentro de mim
Existe uma chama
Tão quente
Que me dá ânimo
e muito alento!
Se eu te disser
Que esse anjo que vive em mim...
Faz parte do meu ser
Do princípio até ao fim!
Se eu te disser
Que dentro de mim
Existe um segredo...
Um elo ou corrente
Que me anima
Mesmo quando estou doente!
Ah! Se eu te disser
Tudo o que minha alma sente
Um anjo com asas
Sim! serei sempre
Leve como o vento!
Emília Lamy
2007/28/12
sábado, 23 de fevereiro de 2008
ARS POETICA (19 ): Correio Poético (9): In Memoriam
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Olhei-te
Não me viste
Chamei-te
Não me ouviste
Mas agarrei-te e fiquei contigo
Sempre até ao fim.
Muitas vezes em silêncio
Muitas mais os dois.
Percorremos caminhos
Alcançámos paz
Demos alegrias.
Pouco perdemos
Porque cada dia
estávamos simplesmente.
Agora partiste
E eu fiquei.
Mas não estou só:
Tenho por companhia
as nossas recordações.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
ARS POETICA (18) : as palavras
são palavras que nos guardam
que resguardam o passado
nos caminhos que trilhamos
são palavras do presente
que se lavram ternamente
no futuro que fizermos
mas há palavras dementes
que ferem gritam trucidam
o dia mal resguardado
há gemidos nas palavras
lágrimas risos e as lavras
da sementeira do acaso
palavras não valem nada
mas são o gume da espada
e do berço o acalanto
eu às palavras pertenço
e subo ao rés do universo
se me perco ou se me venço
às palavras me abandono
que não sou dono de nada
para além de uma alvorada
trago as palavras comigo
levo-as ao porto de abrigo
nos caminhos que cruzamos
há palavras para os ais
para o sempre e nunca mais
elas sobram se as calamos.
- poema de Jorge Castro
domingo, 17 de fevereiro de 2008
ARS POETICA (17): Poemas mínimos (I): Nothing at all...
I - Nada mais que... (poema sem palavras)
David Zink / 17 Fev. 2008
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
ARS POETICA (16): Correio poético (8): Palavras-chave
As palavras
Falo de Amor,
Falo da guerra,
Falo da Primavera
Falo de tudo
Maria Clotilde Moreira - Algés
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
ARS POETICA (15) : Carnevalis Poeticus (2) : King Momus
CArneVAlis PoetiCUS : King Momus (2008) / David Zink
baseado numa fotografia da autoria de Jorge Castro (original in Sete Mares)
serás tu
ó máscara
dupla-face em que me faço
de façanhudo farsante
a riso alvar de palhaço?
e passo
saltimbanco
cabeçudo
pelo Terreiro do Paço
aos terreiros do Entrudo
que vale tudo
seja por bem ou por mal
tanta vez assim-assim
outras vezes Carnaval
sem fim
sábado, 2 de fevereiro de 2008
ARS POETICA (14) : Carnevalis Poeticus (1)
MÁSCARA
Não tem uma forma fácil
Talvez no culto de Isis
na aura Grécia clássica
sua impar função cumpriu
Na Idade Média talvez
Nos primórdios do teatro
Mas desde Ésquilo e Sófocles
Na commedia dell'arte
Num Carnaval bem temperado
Umas tocam o burlesco
É sempre um desafio
Edite Gil
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
ARS POETICA (13) : Cadavre Exquis
CADÁVER ESQUISITO NUMA SESSÃO DAS «NOITES COM POEMAS»
E eis que na última sessão das «Noites com Poemas» (4.ªs feiras em meados de cada mês, 22h, na Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana), surgiu um cadáver esquisito. Não, não foi necessário chamar a polícia, nem o inspector Poirot, nem Miss Marple, nem o comissário Maigret, o caso acabou por ser deslindado pelos poetas que ali se deslocaram, bem coadjuvados por uma assembleia de neófitos, companheiros, mestres, e superiores incógnitos.
Decorria então uma tranquila discussão académica, com o concurso de destacados especialistas como os Profs. José da Encarnação (pivot da sessão) e Ana Paula Guimarães, em torno dos conceitos de "poesia popular" versus "poesia erudita", pontuada de locuções poéticas de vários presentes.
Todavia um dos presentes, embora reconhecendo que a realidade é bem mais complexa do que toda a catalogação, e que há práticas que transpõem as fronteiras, advertiu para que não se caísse no "erro de Damásio" (parafraseando a conhecida obra de António Damásio - O erro de Descartes -, que em sua opinião constituiu um magistral ovo de Colombo do marketing contemporâneo, tendo despertado a curiosidade de "gregos e troianos", fazendo o pleno entre racionalistas e teístas) pois Descartes nunca sustentou que a existência dependesse da "consciência de si", mas antes que esta era fundamental para o homem, para interagir de forma positiva na sociedade, desenvolvendo-se a si próprio e, consequentemente o mundo em que se insere.
Com efeito, o desenvolvimento da própria linguagem, sempre incompleta e redutora quando se trata de descrever a realidade, deriva dessa necessidade prática (só a poesia alquímica, transmutadora de significados, é capaz de superar os seus limites). É nesse sentido que o método cartesiano assente no primado do "cogito, ergo sum" (penso, logo existo) continua a ser uma ferramenta essencial para a actividade humana e para o desenvolvimento do pensamento científico e da própria praxis social, pois a comunicação interpessoal, assim como toda a tentativa de compreender o mundo (seja pela maiêutica socrática ou por uma qualquer forma de "peregrinação interior", incluindo a simples reflexão ou a meditação zen) assim o exige, apesar de ser dever da ciência e da filosofia questionar-se a si própria, e sabendo-se que está por resolver o problema de saber quem nasceu primeiro - o ovo ou a galinha?
E, consequentemente, o orador não deixou de sustentar que as catalogações - ainda que redutoras da realidade, como a própria linguagem o é - eram indispensáveis ao conhecimento, e que embora houvesse um denominador comum ao acto poético (a sua ressonância musical, o jogo das palavras, etc.), havia uma diferença estético-filosófica abissal entre a poesia de António Aleixo e a de Jorge de Sena (uma formada por uma reflexão originada na sua propria experiência, a outra reforçada pela cultura adquirida por via intelectual, condensando o saber e a experiência da humanidade - incluindo a do próprio autor - no percurso histórico da sua existência), pelo que não era adequado meter tudo no mesmo saco. E , sem que isso significasse um juízo de valor sobre cada uma das categorias: há "boa" e "má" poesia popular, e "boa" e "má"poesia erudita, assim como há poetas dificilmente catalogáveis.
segundo um processo "erudito" de raíz surrealista, em que cada um escreveria um verso, sem conhecimento do que estava antes.
…E A NOITE TEVE UM FILHO – ESTE POEMA!
Por vezes sinto-me suicida e vejo crâneos erectos
Eu sou devedor à Terra
O mar imenso é meu. De toda a gente
Canto para vós a minha e a tua voz
Tenho fome de poesia
Amando irremediavelmente o que resta de nós próprios
Tenho uma jaqueta de abóbora
Toquei porque não canto
Hoje sou feliz, amanhã também
Porque tive quem eu sempre quis, seja cá ou no além
Hoje há Primavera
É um poema de sons feitos palavras
Eu sei que meus ais…
Pobre de mim que não sei escrever versos
Tomara eu ser poeta e dizer palavras assim
Todos são conhecidos como heróis
David… Moisés… a Pietá
Noite poética, vida livre
É bom neste mundo andar
Eu vejo o gato à janela
Que asas posso eu adejar, se não céu para voar
Cai o silêncio
E batemos à porta da vida tanta vez esquecidos da voz
Notas ou letras, poemas, definições
Amanhece o lento leito…
Com alma transmontana de madrugada!
Deslindado está o caso, no entanto não excluimos a forte hipótese de virem a surgir novos cadáveres esquisitos nas próximas sessões das «Noites com Poemas».
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
ARS POETICA (12): Correio Poético (7) : Glosa de Edite Gil
DA POESIA PARA O POETA
Poeta:
- Eis-me aqui, de novo
Em mais um desabafo comisero
Dos vincos desta engelhada memória…
Poesia:
- Não.
Basta!
Pára!
Deixa-te desse palavreado literário
Desse ar austero de quem domina o que quer que seja
Não me enclausures entre os eruditos.
Eu sou livre e indomável, nasço espontânea…
Não basta casares as palavras de forma diferente
Solene e requintada, pinceladas de outros tons
E chamares-me poesia.
Não me catalogues nem rotules,
Sextilha ou oitava
Redondilha maior ou menor
Eneassilábica ou decassilábica
Rima cruzada ou interpolada
Pejada ou despojada de pontuação…
Olha-me com verdade!
Escuta-me,
Sente-me,
Inebria-te em mim…
Ou crês, por ventura, que almejo ser o mero vomitório dos teus queixumes?
Edite Gil
2006.Mar.20
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
ARS POETICA (11): Correio poetico (6): Explicação do poema
E a provar que a poesia se explica a si mesma, Clotilde Moreira questiona a poesia e responde sob a forma de poema:
O que é um poema?
São palavras que saiem
soltam-se e correm…
de uma alma com dor
ou de um coração de alegrias
Um poema são gritos
que saltam do nosso peito
ou gargalhadas…
Um poema são sempre palavras
São mãos estendidas
Pedindo
Suplicando
Às vezes são esperanças
Muitas vezes desenganos.
Um poema são saudades
São lembranças registadas
Clotilde Moreira
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
ARS POETICA (10) : Correio Poético (5) : Elegia de Natal de Edite Gil
Na minha infância
O pinheiro de Natal era um pinheiro
Um pinheiro sempre verde
O cheiro…
O cheiro era o de pinheiro manso
Algumas pinhas agarradas aos galhos
Ajudavam a vesti-lo de uma forma humilde mas genuína
A avó pendurava Pais Natal e sombrinhas de chocolate
E uma nota de Santo António para cada neta…
O avô amassava as filhós e acendia a lareira que
num canto da sala crepitava os sons de Natal…
Na minha infância
O Natal era ingenuidade e pureza
O Natal era a família
A paz, a harmonia
A pureza doa afectos
A solidariedade entre as pessoas
Era um menino semi-nu, numa manjedoura…
Na minha infância
O Natal não era consumismo
Nem presentes caros
Nem mesas ricamente adornadas
Fomentando vergonhosas ostentantações
Na minha infância
O Natal era simplesmente
Amor
Na minha infância
Os presentes eram singelos
Os presentes eram deixados às crianças,
Não eram encomendados por elas,
Mas eram uma nascente de genuína felicidade
Que nos rasgava o rosto
Com um sorriso franco da alma
Na minha infância
Não era obrigatório oferecer presentes
Davam-se de coração, eram verdadeiros
Na minha infância
O Natal tinha um brilho especial
Edite Gil
2007.Dez.20
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
ARS POETICA (9) : Elegia do Natal de Jorge Castro
Christmas in Purgatory (2007) / David ZinkCaros Amigos,
Como vem sendo hábito que me apraz cultivar, das minhas voltas à volta das palavras, cá vou fazendo o meu cartão de Natal, em cada ano, para partilhar convosco. Reflectindo sempre um estado de alma que é o meu e que não será necessariamente universal, espero dele que transmita, essa sim, uma mensagem de esperança e solidariedade, que entendo como definitivas para salvaguarda da nossa humanidade.
Assim, com os votos de Boas Festas e Ano Novo pleno das mais felizes realizações, aqui vos deixo, com um abraço, o meu Natal de 2007:
o Natal não está porreiro
pá
tal estão as coisas por cá
de Dezembro a dar-a-dar a Janeiro ao deus-dará
(venha um Fevereiro faceiro mais curto para respirar...)
mas o Natal de azevinho
da rabanada e romã
era o princípio de tudo
hoje é o fim
vejam lá!...
começa já em Outubro - sugam-nos osso e tutano
faz-se do Natal Entrudo que se paga todo o ano
fim do ano com acerto que desacerto amanhã
da prestação que é um aperto
do emprego que não há
do medo de vir à rua sem saber quem lá virá
de estar cada mão mais nua do aperto que não dá
de se viver do incerto que por certo morrerá
faz falta o Natal do início
da carícia do sentir
de viver no precipício por saber como voar
dos avós - do aconchego - do cachecolzinho de lã
do ar frio e da braseira
da prenda que alguém nos dá
de sermos livres de rir ou de bem saber chorar
de ouvir cantar os anjos bem cedo pela manhã
com harpas bombos e banjos em charanga que eu sei lá
de bater que sim o pé porque assim mesmo é que é
de não voar sobre as casas porque caíram as asas
mas cantando por ter fé no dia que lá virá
construindo cada dia em cada sítio onde há
uma réstia de alegria
o Natal - ah quem me dera - fosse a arte de ensinar
assim como quem espera ter o prazer de aprender
esse Natal
meu amigo
nunca terá existido...
mas p´rò que der e vier
está à mão de semear para quem o quiser colher
e eu cá o deixo contigo.
- Jorge Castro
Dezembro de 2007
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
ARS POETICA (8) : Correio poético (4): Cântico de Natal de Clotilde Moreira
The Crib (2007) / David ZinkTodos os anos há Natal
Apesar da guerra
Apesar da fome
Apesar dos homens sem pátria
E dos povos sem nação
Apesar das lágrimas
Das dores das mães
Das crianças famintas,
Das crianças soldados
Apesar da ganância
Das leis injustas
Das angústias dos sem trabalho
Dos desalojados
Apesar de tanta injustiça
A terra move-se
As tardes caiem
As noites acontecem
E há sempre uma manhã que nasce Natal
Paz aos homens de boa vontade
Maria Clotilde Moreira / Algés
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
ARS POETICA (7): Da paleta de cores (1) : o Verde na poesia de Rui Zink
A cor do verde
Diz-me, meu amor
Diz-me, por favor
Da esperança
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?
Diz-me, não te cales
Diz-me, mas não fales
Dos teus olhos
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?
Diz-me, não entendo
Diz, não tenhas medo
Da inveja
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?
Diz, se é segredo
A mim podes dizer
Do Sporting
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?
Não é segredo nenhum
Eu digo, sem medo algum
O verde – é da
cor do verde
Pois só o verde
é do verde a cor
Rui Zink, 2005
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
ARS POETICA (6) : Correio Poético (3)
PALAVRAS COM IMPORTÂNCIA
Ah! Se eu fosse pássaro
Voava alto, muito alto
E escrevia no azul do céu
A palavra LIBERDADE,
Ah! Se eu fosse peixe
Nadava no mar imenso e
E nas suas águas escrevia
a palavra VIDA,
Ah! Se eu fosse borboleta
Todas as primaveras
Escrevia a palavra ESPERANÇA,
Se fosse vento
Soprava em rajadas fortes
A palavra FELICIDADE,
Se fosse apenas uma criança
Com a minha bola colorida
Escrevia a palavra FUTURO,
Se tivesse os braços fortes de um homem
Esculpia no mundo a palavra AMOR
Sou mulher
E com todos vós
Todos os dias
Ajudo a construir a PAZ.
Clotilde Moreira
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
ARS POETICA (5) : dia na praia
Quem me tira o mar, há-de arrepender-se pois há coisas que eu não perdoo. Mas dias há em que sobrevém uma nostalgia por outras calmarias de gente, mesmo com tempestade no mar...
aquele na areia defeca
passa de faca à boleia
o Mãos-Leves pela boneca
de fácil esta sereia
serena aquele meia-leca
a Licas chuta na veia
braço atado com cueca
o Tarzan na borda enleia
a velha ardida sueca
aquel’outra mãe-baleia
empina o rabo p’ra Meca
e dois gajos volta e meia
em pino dão uma queca
baba-se o cura à ideia
que há mais de um dia não peca
no restaurante há lampreia
mas prato forte é faneca
e caracóis p’rà colmeia
atascada na bejeca
outro a bola pontapeia
em ânsias de ser Zé Becker
a trampa no mar campeia
pensos - restos de muqueca
bandeira azul que está cheia
de chorinhos à rabeca
às vezes sem maré-cheia
ao pisar uma alforreca
chega-me triste a ideia
de que ir à praia é uma seca!...
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
ARSPOETICA (4) : Correio Poético (2)
2 POEMAS DE M.ª CLOTILDE MOREIRA:
E, então, há um dia
em que perguntamos:
porque foi assim?
Recordamos e revemos
as gargalhadas que não demos
os sonhos que nos roubaram…
apenas sentimos que vivemos.
E agora?
**************************
Às vezes adiamos os sonhos
Para um amanhã com mais tempo
Mas quando esse tempo chega
Os sonhos são só lembranças
Porque os actores já partiram.
Maria Clotilde Moreira
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
ARS POETICA (3) : Correio Poético (1)
Abrimos o correio poético e recolhemos 2 POEMAS DE EDITE GIL:
O REINO DE AQUEM MAR
O Imperador reinava
No seu trono, irresoluto
Fazia mui jus ao voto
Tinha o poder absoluto.
No Parlamento de Algas,
Deste reino de Aquém mar,
Os prosódicos discursos
Eram canções de embalar.
No Ministério da Terra
Era tal a disfunção
Que p'ra evitar a guerra
Muda a cor, o Camarão.
Mas sem dizer a ninguém,
No mais íntimo segredo,
Dando ares de convicção
Sem reconhecer o medo.
E assim desgovernava
Este peixe, a nação
A impotência era muita,
Maior era a ambição.
Não havia um algodão,
No âmbito da saúde,
Que não tivesse controle
Muito, muito amiúde.
O Imperador reinava
No seu trono, irresoluto
E as finanças, controlava,
Acreditando ser arguto.
Na pesca em terra seca,
Muita água ele metia,
Deixava outro oceano
Pescar o que bem queria.
Administrando Aquém,
Com seu ar superior,
Fazia o que entendia
Passando-se por doutor.
Veste fato e põe gravata,
Com o seu ar expedito
P'ra que quem não o conheça
Creia ser um erudito.
A falta de economia,
Deste país bem a sério,
Continua a ser sinistra,
Continua a ser mistério.
Inda estou p'ra descobrir
Como o país vai avante.
Na escola da Tainha,
Ai, ai, ai que hilariante,
Bateram no Tamboril,
Que era então o Mestre-escola,
Notícia de rodapé
Só o qu'importa é a bola.
E assim vai este país,
De verdade irresoluta,
Com este Imperial
Um grande filho da Truta.
Edite Gil
2007.Abr.05
REVOLTA
Terá esta gente memória de peixe?
Reinará, a indiferença mundana acomodada?
Onde está a educação e a formação?
Assistiremos pávidos e serenos
ao apodrecimento da pureza já tão perdida?
A que móbil interior poderemos apelar,
quando, com uma precisão cirúrgica,
a amoralidade suplanta os bons costumes?
Seremos prisioneiros
dos silêncios eternos e inoportunos,
adormecendo ante o ribombar de problemas e emoções?
Rebelamo-nos demonstrando o descontentamento gélido
ou contemplamos apenas as exéquias da nossa história?
Edite Gil
2006.Jun.14
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
ARS POETICA (2) : Memórias de Adriano
HOMENAGEM POÉTICA A ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA (1942-1982)
O trovador do vento que passa, evocado pelo poeta de O Canto e as Armas:
ADRIANO / por Manuel Alegre
Não era só o som a oitava
Era a tristeza dentro da alegria
O corpo grande e a alma de menino
Os pés fora do berço e do destino
Elucidário:
- "O que é estranho é como puderam esquecer o Adriano e a sua obra durante tantos anos?" (José Niza, compositor, in Jornal de Notícias)
- "Foi o primeiro que cantou versos proibidos. Penso que ele foi o mais corajoso de todos. Antes de qualquer outro cantou canções que punham claramente em causa o regime, que falavam de liberdade e do maior tabu de todos - a guerra colonial" (Manuel Alegre in Sic online)
Ver poema completo e cifras dos acordes musicais in:
terça-feira, 2 de outubro de 2007
ARS POETICA (1) : ainda a tempo de esperança
olhando o céu vi o céu
olhando o chão vi o chão
mas ao ter de conjugar de improviso o verbo amar
num presente indicativo de que algo está a mudar
com todas essas pessoas
umas piores que outras boas
outras nem boas nem más
segundo a velha bitola que entre cábula e loas
me ficara da escola
vi nascer um chão no céu
passeei p’lo céu no chão
tudo o que vai e que vem
assim a todos convém:
há que ter o chão no céu
e em cada passo de seu
haver um céu neste chão
p’ra que não fique o senão
contra a força da razão
de já não sonhar ninguém.
- Jorge Castro
terça-feira, 25 de setembro de 2007
ARS POETICA (0)
Windows of creation (2002) / David ZinkARS POETICA releva do conceito de que a poesia é uma manifestação não só reveladora do ilimitado potencial criativo do ser humano como essencial à sua própria existência, uma parte essencial da vida, sendo esta considerada uma forma de arte total.
Entendemos que a poesia evidencia a musicalidade das palavras e coloca nestas o sentido do indizível, indo ao âmago da alma humana, em busca do conhecimento de si próprio e dos outros, e bem assim da sua relação com a natureza e o infinito cósmico, potenciando uma multiplicidade de leituras, criando ritmos e melodias que desafiam o imaginário, como artifício da sua forma de (se manif)estar e de transformar o mundo que o rodeia, superando a natureza da sua condição animal, para afirmar a sua racionalidade.
Com efeito, a poesia enquanto arte das palavras - acto distinto da objectividade da contrução técnica do discurso -, é uma permanente viagem interior, que se revela plena de musicalidade e múltiplos sentidos que interagem com o interlocutor (a começar pelo próprio poeta), estimulando novas dimensões da sensibilidade, que conduzem a um maior conhecimento de si próprio e do mundo que nos rodeia, num percurso que pode ir do finito ao infinito (e vice-versa).
ARS POETICA defende que a poesia tem tudo a ganhar quando congrega outras formas de arte
Consequentemente, ARS POETICA revê-se no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo.
ARS INTEGRATA é um projecto aberto assente na criação artistica multidisciplinar, fundado por David Zink a partir de um ensemble homónimo - de dimensão e composição variáveis, mas com um "núcleo duro" composto pelo Corelis (coro misto), DZ (autor-intérprete, direcção musical, piano e sintetizadores), Equivalentes (projecções cenográficas, fotografia), Jorge Castro e Júlia Lello (poetas, intérpretes), Leonor Henriques, Mafalda Tello e Sophia Sylva (bailarinas) - que recentemente (31 Janeiro 2007) se apresentou na Culturgest, misturando vários géneros e formas artísticas, integradas por texturas musicais a partir da fusão de elementos populares e eruditos, do jazz e do rock à música clássica e à vanguarda, tendo sido muito aplaudido pela assistência que encheu a prestigiada sala de concertos...... e pretende ser também uma associação emergente e um espaço de discussão, conhecimento, troca de experiências e informação, abrangendo todas as formas de arte (incluindo a música, a dança, as «belas artes», a literatura e a poesia, etc.), aberto tanto a artistas executantes, como a investigadores e ao publico em geral interessado nestas matérias.
ARS POETICA procura estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de tratar a arte das palavras. Por isso é também ARS POETICA 2U (leia-se, "to you", i.e., a arte da poesia para si).
A sua colaboração é essencial, contribua com poemas, críticas, ensaios, depoimentos e/ou divulgue aos seus amigos.
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".


