Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".
Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
ARS POETICA (55): Crisis! What crisis?
Como a minha amada sentiu o começo da crise
Uma vez, não pude deixar de desabafar:
- Quando a crise rebentou
Os poderosos pediram ajuda e resultou!
Mas aqueles que têm verdadeira precisão,
Esses, bem podem pedir, que pouco lhes dão.
- Sempre foi assim, meu tesouro,
Quem tem amigos, não morre mouro!
Desta forma me quis consolar a minha amada,
Enquanto trocava com o espelho uma nova mirada.
As suas palavras, trouxeram-me à lembrança a minha avó.
Parece-me que ainda estou a vê-la…
À saída da missa, a dar a sua esmola
E a dizer, com muito carinho:
- Tenha paciência, pobrezinho.
Inesperadamente, a minha amada acrescentou:
- Socialmente, vai ser uma tragédia
E quem mais vai sofrer é a classe média!
Mas outra surpresa ainda me estava reservada:
A minha amada,
Ela que só gosta de pensar nela e em mais nada,
Astutamente, este suspiro me lançou:
- Desde que a crise começou
Nunca mais pensaste nesta pobre moura envergonhada,
Que embora precisada, nunca te pediu nada.
Ao olhá-la nessa tarde calmosa,
Vi-a deitada, desnudada
E achei-a formosa,
Apetitosa.
Francisco José Lampreia
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
ARS POETICA (54): Correio poético (19): Natal é quando...
QUANDO…
Quando o voo da ave for sonho
- e o sorriso da criança esplendor
Quando as árvores tiverem sempre frutos
- e a terra minada for searas de trigo
Quando os dias nascerem calmos
- e as fontes tiverem sempre água
Quando a lua e o sol deixarem de ter segredos
- e os homens tiverem todo o tempo para amarem
e todos os dias serão Natal
Clotilde Moreira
2008.Dez.19
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
ARS POETICA (53): Correio poetico (18): Presente de Natal
Que a magia do Natal devolva os sonhos em realidade; e que em 2009 a felicidade nos olhares seja o espelho de cada um de nós.
Aos meus amigos, ofereço um…
PEQUENO POEMA
Dilua-se no universo
a couraça de orgulho!
Derreta-se no vento
a couraça de vaidade!
Dissipe-se no sol
a couraça de prepotência!
Louvemos colos
borralhos
afectos.
Busquemos a essência!
Edite Gil
2008.Dez.19
domingo, 14 de dezembro de 2008
ARS POETICA (52): Plantando o Natal...
Christmas in Paradise - IV (2008) / David Zink
Neste Natal, brindo aos amigos, próximos ou longínquos, sedimento que alimenta a raiz da árvore da nossa vida, tentando contrariar alguma nostalgia que nos chega dos dias cinzentos com o sabor bem luminoso dos afectos…
Dos dias conturbados que vivemos, diria que se cada um de nós plantasse uma couve, uma só que fosse, talvez se atenuasse de forma substancial a crise… e, se não lhe descobríssemos melhor e mais necessitado destinatário, sempre teríamos com que acompanhar a nossa ceia natalícia.
Aparentemente, os nossos economistas e homens das altas finanças não levam estas propostas a sério. E tenho para mim que é pena!...
só de musgo faço a base do presépio
imperfeito
que ele é feito de matéria bem mais dura
e vou pondo as figuras ao meu jeito
dando o jeito de lhes dar
ar de ternura
fruta seca sobre a mesa
e a aletria
fantasias de fantasiar fartura
pela ceia o bacalhau faz companhia
preenchendo lugares vagos
e a lonjura
a bota na chaminé
em vago intento
de trazer ao Natal
quem sabe o riso
o brinde
a réstia intemporal de um outro alento
que nos dê outro Natal de mais sustento
pelo céu
cruza um corpo sideral
a apontar o corpo ao léu de uma criança
e nós todos esperando que o Natal
a conforte em agasalhos de esperança
por fim
o travo doce de um bom vinho
a brindar de novo ao sonho
e o embaraço
de não estares à minha mesa
meu amigo
para te dar neste Natal um grande abraço…
Bom Natal e Festas Felizes
- Jorge Castro
Dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
ARS POETICA (51): correio poético (17): Poema de Natal
O poeta espanhol Pedro Sevylla de Juana, quis partilhar com os leitores de Ars Poetica 2U um actualissimo poema-reflexão para a presente quadra natalíca. Aqui fica com a devida vénia e público louvor pelo cultivo de valores humanistas, de que a actual sociedade está particularmente carente.
O homem e a fome
Fome,
fome,
fome;
duas sílabas tão só
e rompem o fluir do homem.
Agente ou paciente
aprofundam a cisão do homem
apagam os caminhos do homem
dessangram o coração do homem
anulam, revogam,
invalidam, desautorizam,
negam o homem.
Pedro Sevylla de Juana
http://www.sevylla.com/
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sábado, 8 de novembro de 2008
ARS POETICA (50): Pas de Strauss, La Valse de Jorge de Sena et un cadeau à la fin
A VALSA DA DEMOCRACIA / Jorge de Sena
Instalada a justiça, distribuída equitativamente a liberdade,
um automóvel para todos?
Mas, meus amigos que imbecilidade!
As carroças serão, por largo tempo, uma necessidade social.
Serão precisos 80 milhões de carroças.
De outro modo, a que atrelar os americanos?
………….
O açúcar, o petróleo, o aço, urânio,
algumas crianças rindo, um stick de golfe,
o copo de papel, a sanduíche
esterilizada, uma mulher contraceptiva
Com as partes de celofane, um homem
De borracha sintética, com as partes de nylon,
terileno, etc. E a bênção do arcebispo,
cardeal, e o Conselho das Igrejas Metodistas
cantando o Ave Caeser, Mulher de Todos os Homens,
bananas, bananas e laranjas, Little Rock,
o governador Rockfeller não intervirá
para tirar da cadeia os parentes contrários
à segregação. Coca-cola. Cadeira eléctrica. O cancro de Foster Dulles.
A poliomielite como carreira política até à
Presidência da República. «Sempre que uma forma
de governo tende a destruir esses fins, o povo
tem o direito de reformá-la ou aboli-la.»
Para tanto: a liberdade de imprensa será garantida
pela publicidade dos «trusts», e os partidos políticos
organizados em cooperação com a Agência Central
de Informações, disputarão eleições LIVRES, segundo
a Constituição. Esta
é um pergaminho encadernado noutro
com fecho de ouro e cadeado de prata,
e dentro, ao abrir-se, uma bailarina,
à vista, e uma caixa de música, oculta,
ao som da qual a bailarina dança
a Valsa da Democracia:
Ai senador
Ai deputado
governador
rinoceronte
a barca bela
de Flagelonte
sulcando vai.
Dido infelice
ficou sem nada
porque o Eneias
vereador
não usa as pastilhas Tricotex reconhecidamente as melhores
para activar e regenerar, sem perigo de habituação,
a virilidade desinteressada. Velhice? Gerontocracia:
O governo do futuro, pelo futuro, para o futuro. Graças
ao Tricotex infalível, discreto, em drageias róseas,
que basta uma só depois do acto para preparar,
com antecedência de vinte e quatro horas, o acto
seguinte. A incineração, apenas poderá reduzir
a cinzas – e perfumadas por excipiente inofensivo –
o ardor de Eneias ou de qualquer homem de negócios
ou simples empregado, mesmo o do Governo Federal
com pensão de reforma, que, pela conformação habitual
do seu espírito, não possa, concentrar-se para além
da secretária. A secretária de vidro transparente,
sob a qual os membros inferiores são visíveis,
deve ser a preferida: hoje mesmo, em três modelos
de dimensões diversas, você poderá comprar,
por um dólar, a secretária que lhe convém.
Sentada na cadeira giratória – gratuitamente
entregue também na primeira prestação – o cavalheiro pode
aguardar confiadamente o efeito do Tricotex.
As secretárias Panfília – Erótia Incorporated
são, com décadas de experiência, associadas
da Bryll Massachusssets Company, cujos técnicos
especializados inventaram o TRI-CO-TEX
que se vende em caixas de pastilhas para
– o nome e a utilização a combinar no drug-store,
para não suscitar a suspeita do seu (ou sua) partner.
…………………….
Instalada a justiça, distribuída equitativamente a
liberdade – um automóvel para todos? Ou a morte sobre
a terra vista azul, se do céu negro?
Jorge de Sena
provavelmente em 1961
domingo, 26 de outubro de 2008
ARS POETICA (49): Revisitação do "Cântico Negro", por Jorge Casimiro
Jorge Casimiro, poeta que é também físico, investigador, ensaísta, e homem de mil e uma actividades, dá-nos em acto de homenagem e para que não caia no esquecimento ("porque de silêncio também se morre", diz-nos o autor), no seu último livro, uma visão poética diferente de um tema que inspirou José Régio e se tornou, pela voz de João Vilaret, um dos mais célebres da poesia portuguesa.
CÂNTICO NEGRO
neste labirinto de silêncios palpáveis
desenho com o dedo a suspeita de estar só
e um bando de canetas voa espavorido do ninho
solto aos quatro ventos
em jorros de tinta negra
negra como o mais negro dos cânticos
que aqui onde vou não arrasto pés sangrentos
nem desbravo florestas inexploradas
nem terras-de-ninguém devassadas
nem pântanos secos
sem troncos ocos
sem areias movediças
sem água
sem lodo
sem cais
sem sereias de caudas postiças
sem lamas
nem dalai lama
nem pecados originais
não! mais gente não!
que eu não vivo para infectar amores antagónicos entre deuses e demónios
se vivo é só p’ra proclamar a morte da última ave do paraíso
atacada de taquicardia voluptuosa
p’ra declarar louca toda a bússola que me aponte o norte
p’ra caminhar na berma bamba do abismo sem rede
e engolir em seco todo
de chofre
ou em silêncio assina a sua sentença de morte
sempre em silêncio
porque de silêncio
também se morre
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
ARS POETICA (48): correio poético (16): Edite Gil, do real ao imaginário
RAZÃO – SONHO – REAL – IMAGINÁRIO
Na caverna de um ser
o respirar da alma…
o respingar da alma…
Esbarrar no vazio, no silêncio, na indiferença
instintivamente, por dor ou saudade
é não compreender a música nómada
é não compreender a infusão, a fusão e a efusão…
Refulgindo, o ébano do espírito mascara-se com a candura…
Que regresse a condescendência da fantasia!
O refrão invade o rifão!...
Grite-se a mágoa infinda do coração clandestino
que caminha ilícito e descalço…
o frio das pedras na vereda cortante que ruma ao abismo…
Quem ousou cortar as asas da imaginação?
Cada um ruma a si, e não se encontra…
E o zimbório da vida em astuta zombaria…
O refrão invade o rifão!...
Para quê as palavras?
Para quê os sonhos?
Para quando, o momento memorável da libertação?
Edite Gil
2008.Ago.26
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
ARS POETICA (47): Poemas mínimos (V): Archeological Steps of a Poem
v - Os P _ _ _ _ _ do poema (arqueologia)

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terça-feira, 7 de outubro de 2008
ARS POETICA (46): correio poético (15): Em busca das palavras perdidas
PALAVRAS PERDIDAS
Há palavras que nunca foram ditas
E deviam...
Há palavras que ficaram guardadas
Para serem ditas um dia...
Mas o dia não chegou
Porque
antes de tempo
Chegou outro dia
que tudo acabou
E o dia das palavras guardadas
Guardou as palavras que deviam ser ditas.
Clotilde Moreira
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terça-feira, 23 de setembro de 2008
ARS POETICA (45): Frátria, de Carlos Carranca
FRÁTRIA , OU A POESIA COM SENTIDO DE ALMA LUSA
Carlos Carranca, é uma voz de excepção das Baladas e do Fado de Coimbra, de que tivémos o privilégio de voltar a ouvir há poucos dias na última sessão das "Noites com Poemas". É também uma personalidade indomável que não se cansa de proclamar valores éticos em contra-corrente com a "moda" actual, contrapondo a um Portugal corrupto que se autodestrói a alma de um Portugal fraternal.
Pré-face
(…)
Mas nós somos sempre mais do que conhecemos e os nossos versos vão para além daquilo que sabemos, daquilo que escrevemos.
(…)
Toda a palavra sobre a Morte é do domínio do imaginário mas, como todo o imaginário, está cheia de conteúdo da Vida, sobretudo do que da Vida nos escapa. Ela procura uma resposta para a solidão ontológica radical, singular, condenada a sonhar o sonho, que é como quem diz, condenada à inconsistência do sonho.
(…)
É, pois, trágico para quem vive em constante procura da essência das coisas, assistir, impotente, à dura realidade de uma Pátria a afastar-se da essência e a perder-se na imitação e na vulgaridade utilitárias. Porque não há nada que mais nos degrade do que esta entrega à idolatria da técnica e do consumismo de massas, onde a preocupação dominante do negócio e a intensidade frenética da Vida aniquilam toda a inquietação espiritual.
Agitar, inquietar, libertar, essa foi, é e será a eterna missão da Poesia.
Interrogo-me, frequentes vezes se não estará a poesia mais próxima da magia do que da literatura. Ora, o Poeta não é um literato, é um mágico, sendo na missão transfiguradora da realidade que o poeta se cumpre, e não no acervo de obras consultadas ou na profusão de autores citados. Não é citando os criadores que o Poeta existe, é existindo que o Poeta é.
(…)»
In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, pp. 7-8
A batida cardíaca
é o mar – este mar – a bater na minha vida.
Mar de cadência dorida
solidão líquida de sal.
Esta batida é o mal
da angústia demoníaca
a desfazer-se em poemas
princípio da própria vida
que a morte dá de saída.
In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, p. 19
Há tantos anos que passo pela vida
e nunca parei a olhá-la.
Aonde ia eu?
Corremos fugimos de nós
de nós
e o mar ali à minha espera
a arfar em harmonia.
A vida a respirar a vida.
In: Frátria. Coimbra : Mar da palavra, 2008, p. 23
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sexta-feira, 27 de junho de 2008
ARS POETICA (44): "Veritas vincit", ou a Poesia do não-fingimento
Um heterónimo de Fernando Pessoa disse algures que "o poeta é um fingindor" (cf. Autopsicografia / Bernardo Soares, in: Presença, n.º 36, Novembro de 1932), ainda que invocando "a dor que deveras sente", mas o poeta Francisco José Lampreia vem contrapor a necessidade de afirmar a "verdade" imanente (qualquer que ela signifique, e a que nos seja possível alcançar, sendo que os poetas voam sempre mais longe que o comum dos mortais...). E, há que dizê-lo, ainda bem que a poesia não se esgota nos "fingidores", lugar hoje ocupado não por poetas mas por predadores (anti-)sociais.
Poetas "veristas", ou melhor dizendo, poetas d(e)(a) coragem (já que a "verdade" exige coragem, atitude rara nos tempos que correm) são hoje tão necessários como o ar puro que queremos respirar. É certo que a "verdade" por si só não é poesia, mas cabe aos poetas dotá-la de sentido(s) poético(s) "carregado(s) de futuro". Tal como no axioma poético de Gabriel Celaya (1911-1991), Premio Nacional de las Letras Españolas em 1986, trata-se de "(...) poesía necesária, como el pan de cada día (...)".
FJL é uma dessas significantes vozes que se erguem em contra-corrente, e dá-nos um precioso contributo no seu estilo pessoal, em que a intenção “verista” é sabiamente condimentada com a difícil arte da fina ironia.
David Zink
Veritas vincit
- As verdades têm de ser ditas!
- Meu amigo, isso não é chic!
Desconheces a “Realpolitik”?
O dizer deve ser… uma arte,
Agora… é assim em toda a parte.
Cuidado também com a escrita!
A escrita… é perigosa!
E causa melindres,
Pode mesmo ser considerada… melindrosa!
Em vez de verdades,
Falemos e escrevamos antes…
Sobre assuntos de diversão.
Sobre assuntos sérios, Não!
Coisas de diversão… é o que está a dar,
Corre-lhes o vento de feição!
Por isso, coisas sérias não;
Os outros estão-se nas tintas!
- As verdades têm de ser ditas!
- Porque gritas?
- Também não posso gritar?
Francisco José Lampreia / Junho de 2008
quarta-feira, 11 de junho de 2008
ARS POETICA (43): Poesia & Desporto (I): Fernando Grade no Autódromo do Estoril
AUTÓPSIA DE UMA CORRIDA DE AUTOMÓVEIS
“Não queiras ser mais vivo do que és morto” (Augusto de Campos)
Gosto muito de cães que gostem de água.
Fui com um cão bom e branco ver os carros velozes.
Bicho das sementes, o cão ladrava aos motores e
fez os seus grandes inimigos entre os vermes.
As pessoas olhavam para o cão grande vindo da neve
e tinham medo que ele se transformasse num objecto violento;
depois, vendo-o manso,
queriam discutir pneus com o cão branco.
Penso que
o animal é fã de Galileu Galilei:
4 motores + 2 motores + 3 estupores = Sol ao cubo com morangos,
a Terra parece boa e, muitas vezes, marreta.
Não chove, ainda bem para as travagens
– e ganha menos quem trava.
Saio,
creio que o cão desconfia:
a morte andou a cheirar por dentro da água
das chuvas que, afinal, não ganhou rosto algum.
Com Tales de Mileto e
com o meu cão branco fujo das águas
para uma mesa poligonal de cervejas,
misteriosamente como quem sabe e não esquece
que, ao sol ou à chuva, podiam ter morrido,
hoje, sete ou oito mestres do som em fúria
(chamam-lhes, também, pilotos)
naquele vento de armas, dólares e pneus.
Falta-me agradecer a excepção
de me terem deixado entrar para junto dos motores,
armado com o meu cão. Bicho longo,
com alma de bombeiro ; a beber cerveja
ao pé dele – conquista-se o paraíso!
Fernando Grade / Alcabideche, 20 de Setembro de 1987
In: Viola Delta : vol. XXXV : poemas sobre o desporto e outros / Abel Sabaoth, [et al.]. Estoril: Edições Mic, 2003, pp. 18-19.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
ARS POETICA (42): Correio Poético (14): Metamorfoses do «mito do eterno retorno»
Ciclo de vida? Ou Morte?
Só o nascimento tem uma vinda
Só a morte tem uma ida
Tudo o resto vem e vai.
Uns têm um momento breve
como a flor
como o sorriso,
Outros parece que são sempre
como a pedra.
Mas mesmo a pedra se parte
se quebra
se desfaz em areia
E acaba por ir no sopro do vento
ou no rolar da água do mar.
Clotilde Moreira
segunda-feira, 12 de maio de 2008
ARS POETICA (41): Fernando Grade, um poeta para quem...
Ao menos, hoje, o mundo não morreu
«Nihil esse tam sanctum, quod nom
aliquando violaret audácia»
Cicero
A rosa em concha
sedoso bicho de águas ruivas
floresta velha de medos e marés
sal de muito viajar
pedra fechada por unhas ardidas
sangue seco batido pelo grato vento
da família:
flor guardada por facas brancas
palavras austeras sibilinas de trevo
(«o corpo nunca dança!»)
beco de carne minúsculo e
cheiroso de outras armas, cada vez mais cerrado
sobre a pele, hirto de tantos retratos
em cólera que jamais lambeu,
a rosa em concha de ervas
vai ser metralhada por uma audácia
violeta de pregos, sémen
e duas maçãs, violento modo
com crinas soltas e suor
de ser barco púrpura
que rói e fornica.
Ao menos, hoje, o mundo não morreu.
In: Philosophus per ignem : poemas / Fernando Grade. – S. João do Estoril : Edições Mic, 1996, p. 28
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quarta-feira, 7 de maio de 2008
quarta-feira, 30 de abril de 2008
ARS POETICA (39): Haiku(s) V57 a V59, de Isabel Cristina
3 HAIKAI
V57
No fundo da noite
o ar é lento e doce
ritmam-se os gestos
V58
Na escuridão
ateiam-se as estrelas
de ternos abismos
V59
Em rubras auroras
enlaçam-se vagarosas
as cálidas sombras
Isabel Cristina /04.08
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segunda-feira, 28 de abril de 2008
ARS POETICA (38): Correio Poético (13): Memorabilia de Edite Gil
ÉTIMO DA MEMÓRIA
No étimo da memória
a reminiscência de sorrisos…
Declaro pobreza assumida na demência das mentes!
Traço traços, faço rabiscos, arrisco uns riscos paradoxos!
Finco os pés finos e fico
mirando o trote das árvores.
Visto-me de paisagem…
No alfobre,
nem botão nem flor seca…
Esqueci as cores da juventude
e a gravidez das estrelas…
As andorinhas engripadas não rumam para Sul!
Submirjo de beijos rubros de doçura
na cor travessa do sentimento!
Na agonia da ira do amor
quero a embriaguez de verdade!
Ordeno ao odor do crepúsculo coruscante, reluzente
a insânia insónia!
Estou tão perto de nada no dorso da calçada
presencio a canção das águas…
Afinal
só quero de volta a minha alma
e desenhar nostalgias desertas distraidamente excêntricas…
Edite Gil
2008.Abr.27
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quinta-feira, 24 de abril de 2008
ARS POETICA (37): Infusões (politicamente incorrectas) de Carlos Pedro
Ars poetica 2U revela em ante-estreia mundial um poema do novo livro de Carlos Pedro ("Capê") - Ó simpático, vai um tirinho? - que será simbolicamente lançado amanhã, dia 25 de Abril de 2008, pelas 18h30m, na histórica Biblioteca Operária Oeirense (na Rua Cândido dos Reis, junto ao edifício-sede da Câmara Municipal de Oeiras), com apresentação do Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor António Nóvoa.
INFUSÕES
Dizem que
do pó vim
dizem que
em pó
me tornarei
espero que
isso aconteça
que a boca
me arrefeça
já com muita
longa idade
numa cidade
longínqua
e que mãos
mui piedosas
me enviarão
para cá
com cuidado
cremado
numa lata de
chá ah! ah! ah!
ou de café
eh! eh! eh!
e numas
confusões
"alzheirmais"
me tomarão
regularmente
em infusões
só depois de
muito mijado
por fim
dormirei
descansado
in: Ó simpático, vai um tirinho? / Carlos Pedro. 2008
segunda-feira, 21 de abril de 2008
ARS POETICA (36): A música das pedras
COISAS REVOLTAS / por Carlos Peres Feio
algumas coisas revoltam-se ao serem tocadas
e poucos saberão porquê.
revelam na atitude invisível
a agonia em que têm existido
obrigadas ao espectáculo dos humanos
face ao auditório dos inertes,
das pedras semipreciosas, preciosas e simples pedras,
as que amo.
como as compreendo,
incrédulas com este fim de século,
a lembrarem,
a desejarem
voltar aos tempos
antes de a história ser feita,
em que a ordem universal
a gravidade e o silêncio,
só eram vagamente acordados
pelo passar onírico
de um meteoro
In: Podiam ser mais / Carlos Peres Feio. – Carcavelos: Junta de Freguesia ; Cascais: Associação Cultural de Cascais, D.L. 2007
