ARS POETICA 2U releva do conceito de que a alquimia das palavras é parte essencial da vida, sendo esta considerada como arte total.
Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".

Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/


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POEMARIUM : recipientis poeticus

POEMARIUM : recipientis poeticus

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (20): Correio Poético (10): Por onde moram os anjos...


Dentro de mim...

Se eu te disser
Que mora um anjo dentro de mim.
Que se reveste de luz
Que minha vida conduz!

E que essa luz...
Apaga a inveja e maldição,
Espalha o amor
Dentro do meu coração!

Se eu te disser
Que dentro de mim
Existe uma chama
Tão quente
Que me dá ânimo
e muito alento!

Se eu te disser
Que esse anjo que vive em mim...
Faz parte do meu ser
Do princípio até ao fim!

Se eu te disser
Que dentro de mim
Existe um segredo...
Um elo ou corrente
Que me anima
Mesmo quando estou doente!

Ah! Se eu te disser
Tudo o que minha alma sente
Um anjo com asas
Sim! serei sempre
Leve como o vento!


Emília Lamy
2007/28/12

sábado, 23 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (19 ): Correio Poético (9): In Memoriam


--------------------------------



Olhei-te
Não me viste
Chamei-te
Não me ouviste
Mas agarrei-te e fiquei contigo
Sempre até ao fim.

Muitas vezes em silêncio
Muitas mais os dois.

Percorremos caminhos
Alcançámos paz
Demos alegrias.
Pouco perdemos
Porque cada dia
estávamos simplesmente.

Agora partiste
E eu fiquei.
Mas não estou só:
Tenho por companhia
as nossas recordações.


Clotilde Moreira


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (18) : as palavras

Dentro de breves momentos, este poema será lançado ao mundo, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, na sessão de Noites Com Poemas. Aqui fica, entretanto, em pleno trabalho de parto:

as palavras

são palavras que nos guardam
que resguardam o passado
nos caminhos que trilhamos

são palavras do presente
que se lavram ternamente
no futuro que fizermos

mas há palavras dementes
que ferem gritam trucidam
o dia mal resguardado

há gemidos nas palavras
lágrimas risos e as lavras
da sementeira do acaso

palavras não valem nada
mas são o gume da espada
e do berço o acalanto

eu às palavras pertenço
e subo ao rés do universo
se me perco ou se me venço

às palavras me abandono
que não sou dono de nada
para além de uma alvorada

trago as palavras comigo
levo-as ao porto de abrigo
nos caminhos que cruzamos

há palavras para os ais
para o sempre e nunca mais
elas sobram se as calamos.


- poema de Jorge Castro

domingo, 17 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (17): Poemas mínimos (I): Nothing at all...


I - Nada mais que... (poema sem palavras)


David Zink / 17 Fev. 2008


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (16): Correio poético (8): Palavras-chave


As palavras



Falo de Amor,
falo de raiva
e sempre de Paz;


Falo da guerra,
mas também de Esperança,
de Alegria.


Falo da Primavera
e de flores;


Falo de tudo
Sempre com as mesmas palavras,
Apenas as alinho de maneiras diferentes.


Maria Clotilde Moreira - Algés


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (15) : Carnevalis Poeticus (2) : King Momus

CArneVAlis PoetiCUS : King Momus (2008) / David Zink
baseado numa fotografia da autoria de Jorge Castro (original in Sete Mares)



serás tu

ó máscara
dupla-face em que me faço

de façanhudo farsante

a riso alvar de palhaço?

e passo

saltimbanco

cabeçudo

pelo Terreiro do Paço

aos terreiros do Entrudo

que vale tudo

seja por bem ou por mal

tanta vez assim-assim

outras vezes Carnaval

sem fim


Jorge Castro
2008, Fev. 5
in http://sete-mares.blogspot.com/

sábado, 2 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (14) : Carnevalis Poeticus (1)



MÁSCARA


Não tem uma forma fácil
de artesanalmente se confeccionar
de cartão, pano, gesso ou couro
o rosto deve sempre ocultar

Talvez no culto de Isis
ou honrando Dionísio, surgiu
na aura Grécia clássica
sua impar função cumpriu

Na Idade Média talvez
nas festas de doidos ou inocentes
naqueles folguedos medievais
mais ou menos decadentes

Nos primórdios do teatro
como simples caracterização
nas ancestrais culturas
da Grécia ou do Japão

Mas desde Ésquilo e Sófocles
e seus heróicos musicais
que a dita evoluiu
e saiu dos palcos teatrais

Na commedia dell'arte
com o célebre pantaleão
a bem distinta columbina
e arlequim, sábia improvisação

Num Carnaval bem temperado
com faz-de-conta e subtileza
o charme, a imaginação e o mistério
são seus convivas de mesa

Umas tocam o burlesco
sem tom de provocação
outras tocam o jocoso
são sátira e acusação

É sempre um desafio
à nossa imaginação
fazê-las com inteligência
e ostenta-las com paixão.

Edite Gil
2006.Fev.23

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

ARS POETICA (13) : Cadavre Exquis


CADÁVER ESQUISITO NUMA SESSÃO DAS «NOITES COM POEMAS»



E eis que na última sessão das «Noites com Poemas» (4.ªs feiras em meados de cada mês, 22h, na Biblioteca Municipal de Cascais, em S. Domingos de Rana), surgiu um cadáver esquisito. Não, não foi necessário chamar a polícia, nem o inspector Poirot, nem Miss Marple, nem o comissário Maigret, o caso acabou por ser deslindado pelos poetas que ali se deslocaram, bem coadjuvados por uma assembleia de neófitos, companheiros, mestres, e superiores incógnitos.

Decorria então uma tranquila discussão académica, com o concurso de destacados especialistas como os Profs. José da Encarnação (pivot da sessão) e Ana Paula Guimarães, em torno dos conceitos de "poesia popular" versus "poesia erudita", pontuada de locuções poéticas de vários presentes.

Por força da dificuldade de delimitação dos conceitos, e em ordem a preservar a boa harmonia de uma assembleia eclética, tendia-se a considerar que não haveria poesia popular ou erudita, mas tão somente Poesia.

Todavia um dos presentes, embora reconhecendo que a realidade é bem mais complexa do que toda a catalogação, e que há práticas que transpõem as fronteiras, advertiu para que não se caísse no "erro de Damásio" (parafraseando a conhecida obra de António Damásio - O erro de Descartes -, que em sua opinião constituiu um magistral ovo de Colombo do marketing contemporâneo, tendo despertado a curiosidade de "gregos e troianos", fazendo o pleno entre racionalistas e teístas) pois Descartes nunca sustentou que a existência dependesse da "consciência de si", mas antes que esta era fundamental para o homem, para interagir de forma positiva na sociedade, desenvolvendo-se a si próprio e, consequentemente o mundo em que se insere.

Com efeito, o desenvolvimento da própria linguagem, sempre incompleta e redutora quando se trata de descrever a realidade, deriva dessa necessidade prática (só a poesia alquímica, transmutadora de significados, é capaz de superar os seus limites). É nesse sentido que o método cartesiano assente no primado do "cogito, ergo sum" (penso, logo existo) continua a ser uma ferramenta essencial para a actividade humana e para o desenvolvimento do pensamento científico e da própria praxis social, pois a comunicação interpessoal, assim como toda a tentativa de compreender o mundo (seja pela maiêutica socrática ou por uma qualquer forma de "peregrinação interior", incluindo a simples reflexão ou a meditação zen) assim o exige, apesar de ser dever da ciência e da filosofia questionar-se a si própria, e sabendo-se que está por resolver o problema de saber quem nasceu primeiro - o ovo ou a galinha?

E, consequentemente, o orador não deixou de sustentar que as catalogações - ainda que redutoras da realidade, como a própria linguagem o é - eram indispensáveis ao conhecimento, e que embora houvesse um denominador comum ao acto poético (a sua ressonância musical, o jogo das palavras, etc.), havia uma diferença estético-filosófica abissal entre a poesia de António Aleixo e a de Jorge de Sena (uma formada por uma reflexão originada na sua propria experiência, a outra reforçada pela cultura adquirida por via intelectual, condensando o saber e a experiência da humanidade - incluindo a do próprio autor - no percurso histórico da sua existência), pelo que não era adequado meter tudo no mesmo saco. E , sem que isso significasse um juízo de valor sobre cada uma das categorias: há "boa" e "má" poesia popular, e "boa" e "má"poesia erudita, assim como há poetas dificilmente catalogáveis.

Mas, uma vez recolocado o estatuto das categorias poéticas sem manifestações contrárias, David Zink acabou por propor à assistência um repto: a realização ao vivo de um poema colectivo, com o contributo de todos os presentes, incluindo os poetas "populares" que lá se encontravam,
segundo um processo "erudito" de raíz surrealista, em que cada um escreveria um verso, sem conhecimento do que estava antes.

Aceite o desafio, eis o resultado:



…E A NOITE TEVE UM FILHO – ESTE POEMA!




Por vezes sinto-me suicida e vejo crâneos erectos
Eu sou devedor à Terra
O mar imenso é meu. De toda a gente

Canto para vós a minha e a tua voz
Tenho fome de poesia
Amando irremediavelmente o que resta de nós próprios

Tenho uma jaqueta de abóbora
Toquei porque não canto
Hoje sou feliz, amanhã também
Porque tive quem eu sempre quis, seja cá ou no além
Hoje há Primavera

É um poema de sons feitos palavras
Eu sei que meus ais…
Pobre de mim que não sei escrever versos
Tomara eu ser poeta e dizer palavras assim
Todos são conhecidos como heróis

David… Moisés… a Pietá
Noite poética, vida livre
É bom neste mundo andar
Eu vejo o gato à janela
Que asas posso eu adejar, se não céu para voar

Cai o silêncio
E batemos à porta da vida tanta vez esquecidos da voz

Notas ou letras, poemas, definições
Amanhece o lento leito…
Com alma transmontana de madrugada!



- E aqui fica esta "poesia popular" travestida em "erudita" graças a um “cadavre exquis” encontrado em São Domingos de Rana.

Deslindado está o caso, no entanto não excluimos a forte hipótese de virem a surgir novos cadáveres esquisitos nas próximas sessões das «Noites com Poemas».

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

ARS POETICA (12): Correio Poético (7) : Glosa de Edite Gil


DA POESIA PARA O POETA


Poeta:
- Eis-me aqui, de novo
Em mais um desabafo comisero
Dos vincos desta engelhada memória…

Poesia:
- Não.
Basta!
Pára!
Deixa-te desse palavreado literário
Desse ar austero de quem domina o que quer que seja
Não me enclausures entre os eruditos.
Eu sou livre e indomável, nasço espontânea…
Não basta casares as palavras de forma diferente
Solene e requintada, pinceladas de outros tons
E chamares-me poesia.
Não me catalogues nem rotules,
Sextilha ou oitava
Redondilha maior ou menor
Eneassilábica ou decassilábica
Rima cruzada ou interpolada
Pejada ou despojada de pontuação…
Olha-me com verdade!
Escuta-me,
Sente-me,
Inebria-te em mim…
Ou crês, por ventura, que almejo ser o mero vomitório dos teus queixumes?

Edite Gil
2006.Mar.20

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

ARS POETICA (11): Correio poetico (6): Explicação do poema


E a provar que a poesia se explica a si mesma, Clotilde Moreira questiona a poesia e responde sob a forma de poema:


O que é um poema?


São palavras que saiem
soltam-se e correm…
de uma alma com dor
ou de um coração de alegrias

Um poema são gritos
que saltam do nosso peito

ou gargalhadas…

Um poema são sempre palavras
São mãos estendidas
Pedindo
Suplicando

Às vezes são esperanças
Muitas vezes desenganos.

Um poema são saudades
São lembranças registadas


Clotilde Moreira

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

ARS POETICA (10) : Correio Poético (5) : Elegia de Natal de Edite Gil


Christmas angelorum (2007) / David Zink



O NATAL DA MINHA INFÂNCIA

Na minha infância
O pinheiro de Natal era um pinheiro
Um pinheiro sempre verde
O cheiro…
O cheiro era o de pinheiro manso
Algumas pinhas agarradas aos galhos
Ajudavam a vesti-lo de uma forma humilde mas genuína
A avó pendurava Pais Natal e sombrinhas de chocolate
E uma nota de Santo António para cada neta…
O avô amassava as filhós e acendia a lareira que
num canto da sala crepitava os sons de Natal…
Na minha infância
O Natal era ingenuidade e pureza
O Natal era a família
A paz, a harmonia
A pureza doa afectos
A solidariedade entre as pessoas
Era um menino semi-nu, numa manjedoura…
Na minha infância
O Natal não era consumismo
Nem presentes caros
Nem mesas ricamente adornadas
Fomentando vergonhosas ostentantações
Na minha infância
O Natal era simplesmente
Amor
Na minha infância
Os presentes eram singelos
Os presentes eram deixados às crianças,
Não eram encomendados por elas,
Mas eram uma nascente de genuína felicidade
Que nos rasgava o rosto
Com um sorriso franco da alma
Na minha infância
Não era obrigatório oferecer presentes
Davam-se de coração, eram verdadeiros
Na minha infância
O Natal tinha um brilho especial



Edite Gil
2007.Dez.20

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

ARS POETICA (9) : Elegia do Natal de Jorge Castro


Christmas in Purgatory (2007) / David Zink

Caros Amigos,
Como vem sendo hábito que me apraz cultivar, das minhas voltas à volta das palavras, cá vou fazendo o meu cartão de Natal, em cada ano, para partilhar convosco. Reflectindo sempre um estado de alma que é o meu e que não será necessariamente universal, espero dele que transmita, essa sim, uma mensagem de esperança e solidariedade, que entendo como definitivas para salvaguarda da nossa humanidade.

Assim, com os votos de Boas Festas e Ano Novo pleno das mais felizes realizações, aqui vos deixo, com um abraço, o meu Natal de 2007:



o Natal não está porreiro

tal estão as coisas por cá
de Dezembro a dar-a-dar a Janeiro ao deus-dará
(venha um Fevereiro faceiro mais curto para respirar...)

mas o Natal de azevinho
da rabanada e romã
era o princípio de tudo
hoje é o fim
vejam lá!...

começa já em Outubro - sugam-nos osso e tutano
faz-se do Natal Entrudo que se paga todo o ano

fim do ano com acerto que desacerto amanhã
da prestação que é um aperto
do emprego que não há
do medo de vir à rua sem saber quem lá virá
de estar cada mão mais nua do aperto que não dá
de se viver do incerto que por certo morrerá

faz falta o Natal do início
da carícia do sentir
de viver no precipício por saber como voar
dos avós - do aconchego - do cachecolzinho de lã
do ar frio e da braseira
da prenda que alguém nos dá
de sermos livres de rir ou de bem saber chorar
de ouvir cantar os anjos bem cedo pela manhã
com harpas bombos e banjos em charanga que eu sei lá
de bater que sim o pé porque assim mesmo é que é
de não voar sobre as casas porque caíram as asas
mas cantando por ter fé no dia que lá virá
construindo cada dia em cada sítio onde há
uma réstia de alegria

o Natal - ah quem me dera - fosse a arte de ensinar
assim como quem espera ter o prazer de aprender

esse Natal
meu amigo
nunca terá existido...
mas p´rò que der e vier
está à mão de semear para quem o quiser colher
e eu cá o deixo contigo.

-
Jorge Castro
Dezembro de 2007

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

ARS POETICA (8) : Correio poético (4): Cântico de Natal de Clotilde Moreira


The Crib (2007) / David Zink


Todos os anos há Natal


Apesar da guerra
Apesar da fome
Apesar dos homens sem pátria
E dos povos sem nação

Apesar das lágrimas
Das dores das mães
Das crianças famintas,
Das crianças soldados

Apesar da ganância
Das leis injustas
Das angústias dos sem trabalho
Dos desalojados

Apesar de tanta injustiça

A terra move-se
As tardes caiem
As noites acontecem
E há sempre uma manhã que nasce Natal

Paz aos homens de boa vontade


Maria Clotilde Moreira / Algés

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

ARS POETICA (7): Da paleta de cores (1) : o Verde na poesia de Rui Zink


A cor do verde


Diz-me, meu amor
Diz-me, por favor

Da esperança
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?

Diz-me, não te cales
Diz-me, mas não fales

Dos teus olhos
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?

Diz-me, não entendo
Diz, não tenhas medo

Da inveja
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?

Diz, se é segredo
A mim podes dizer

Do Sporting
o verde é a cor
Mas do verde
é qual a cor?

Não é segredo nenhum
Eu digo, sem medo algum

O verde – é da
cor do verde
Pois só o verde
é do verde a cor


Rui Zink, 2005

in: Flores mais parecidas / Albane Chotard Moreno [fotografias] ; textos de Gonçalo M. Tavares, Jacinto Lucas Pires, Pedro Mexia, Rui Zink. Tercena : Arte Mágica, 2005. ISBN 989-605-014-7

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

ARS POETICA (6) : Correio Poético (3)



PALAVRAS COM IMPORTÂNCIA


Ah! Se eu fosse pássaro
Voava alto, muito alto
E escrevia no azul do céu
A palavra LIBERDADE,

Ah! Se eu fosse peixe
Nadava no mar imenso e
E nas suas águas escrevia
a palavra VIDA,

Ah! Se eu fosse borboleta
Todas as primaveras
Escrevia a palavra ESPERANÇA,

Se fosse vento
Soprava em rajadas fortes
A palavra FELICIDADE,

Se fosse apenas uma criança
Com a minha bola colorida
Escrevia a palavra FUTURO,

Se tivesse os braços fortes de um homem
Esculpia no mundo a palavra AMOR

Sou mulher
E com todos vós
Todos os dias
Ajudo a construir a PAZ.

Clotilde Moreira
2007. Nov. 11

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

ARS POETICA (5) : dia na praia


Quem me tira o mar, há-de arrepender-se pois há coisas que eu não perdoo. Mas dias há em que sobrevém uma nostalgia por outras calmarias de gente, mesmo com tempestade no mar...

há um de foca na areia
aquele na areia defeca

passa de faca à boleia
o Mãos-Leves pela boneca

de fácil esta sereia
serena aquele meia-leca

a Licas chuta na veia
braço atado com cueca

o Tarzan na borda enleia
a velha ardida sueca

aquel’outra mãe-baleia
empina o rabo p’ra Meca

e dois gajos volta e meia
em pino dão uma queca

baba-se o cura à ideia
que há mais de um dia não peca

no restaurante há lampreia
mas prato forte é faneca

e caracóis p’rà colmeia
atascada na bejeca

outro a bola pontapeia
em ânsias de ser Zé Becker

a trampa no mar campeia
pensos - restos de muqueca

bandeira azul que está cheia
de chorinhos à rabeca

há prédio a mais que desfeia
há gente de seca-e-meca

às vezes sem maré-cheia
ao pisar uma alforreca
chega-me triste a ideia
de que ir à praia é uma seca!...

- Jorge Castro

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

ARSPOETICA (4) : Correio Poético (2)

Abrindo o correio poético...

2 POEMAS DE M.ª CLOTILDE MOREIRA:


E, então, há um dia
em que perguntamos:
porque foi assim?

Recordamos e revemos
as gargalhadas que não demos
os sonhos que nos roubaram…
apenas sentimos que vivemos.
E agora?


**************************


Às vezes adiamos os sonhos
Para um amanhã com mais tempo

Mas quando esse tempo chega
Os sonhos são só lembranças
Porque os actores já partiram.


Maria Clotilde Moreira
Outubro de 2007

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

ARS POETICA (3) : Correio Poético (1)


Abrimos o correio poético e recolhemos 2 POEMAS DE EDITE GIL:



O REINO DE AQUEM MAR



O Imperador reinava
No seu trono, irresoluto
Fazia mui jus ao voto
Tinha o poder absoluto.

No Parlamento de Algas,
Deste reino de Aquém mar,
Os prosódicos discursos
Eram canções de embalar.

No Ministério da Terra
Era tal a disfunção
Que p'ra evitar a guerra
Muda a cor, o Camarão.

Mas sem dizer a ninguém,
No mais íntimo segredo,
Dando ares de convicção
Sem reconhecer o medo.

E assim desgovernava
Este peixe, a nação
A impotência era muita,
Maior era a ambição.

Não havia um algodão,
No âmbito da saúde,
Que não tivesse controle
Muito, muito amiúde.

O Imperador reinava
No seu trono, irresoluto
E as finanças, controlava,
Acreditando ser arguto.

Na pesca em terra seca,
Muita água ele metia,
Deixava outro oceano
Pescar o que bem queria.

Administrando Aquém,
Com seu ar superior,
Fazia o que entendia
Passando-se por doutor.

Veste fato e põe gravata,
Com o seu ar expedito
P'ra que quem não o conheça
Creia ser um erudito.

A falta de economia,
Deste país bem a sério,
Continua a ser sinistra,
Continua a ser mistério.

Inda estou p'ra descobrir
Como o país vai avante.
Na escola da Tainha,
Ai, ai, ai que hilariante,

Bateram no Tamboril,
Que era então o Mestre-escola,
Notícia de rodapé
Só o qu'importa é a bola.

E assim vai este país,
De verdade irresoluta,
Com este Imperial
Um grande filho da Truta.

Edite Gil
2007.Abr.05



REVOLTA

Terá esta gente memória de peixe?
Reinará, a indiferença mundana acomodada?
Onde está a educação e a formação?
Assistiremos pávidos e serenos
ao apodrecimento da pureza já tão perdida?
A que móbil interior poderemos apelar,
quando, com uma precisão cirúrgica,
a amoralidade suplanta os bons costumes?
Seremos prisioneiros
dos silêncios eternos e inoportunos,
adormecendo ante o ribombar de problemas e emoções?
Rebelamo-nos demonstrando o descontentamento gélido
ou contemplamos apenas as exéquias da nossa história?



Edite Gil
2006.Jun.14

Edite Gil cultiva a cultura popular, reinventando-a como forma de a preservar, e vai tecendo aquilo que ora designaremos por "poemas andarilhos", ou seja, a arte de juntar palavras que se revê na tradição oral maltesa (como diria o poeta e romancista alentejano Manuel da Fonseca), contadora de estórias (i.é, das histórias de cariz popular), carregando-as com o sentido da crítica social e política ("a palavra é uma arma"), mordaz, irónica, ora filigranada, metafórica, ora abrupta com a jactância do improviso, mas nunca ao acaso - parte de uma reflexão pessoal para nos convidar também a nós a segui-la... aqui e agora!

v.t.: Registo vídeo de Edite Gil, interpretando o conto "Os velhos e a morte", no IX Encontro Palavras Andarilhas (Beja, 20-22 de Setembro, 2007), in: http://videos.sapo.pt/af9YaenTpP4RevJyhd54

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

ARS POETICA (2) : Memórias de Adriano


HOMENAGEM POÉTICA A ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA (1942-1982)

O trovador do vento que passa, evocado pelo poeta de O Canto e as Armas:

ADRIANO / por Manuel Alegre

Não era só o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem quer caber e não cabia.

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro
Era Outubro em Avintes. E chovia.


Elucidário:

- "O que é estranho é como puderam esquecer o Adriano e a sua obra durante tantos anos?" (José Niza, compositor, in Jornal de Notícias)

- "Foi o primeiro que cantou versos proibidos. Penso que ele foi o mais corajoso de todos. Antes de qualquer outro cantou canções que punham claramente em causa o regime, que falavam de liberdade e do maior tabu de todos - a guerra colonial" (Manuel Alegre in Sic online)

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
e o vento nada me diz
...
(da Trova do vento que passa / poema de Manuel Alegre)

Ver poema completo e cifras dos acordes musicais in:


Mais informação, incluindo a discografia de Adriano Correia de Oliveira, e o programa da principal homenagem a assinalar os 25 anos em que o cantor se libertou das amarras do corpo, in: http://arsmusica2u.blogspot.com/

terça-feira, 2 de outubro de 2007

ARS POETICA (1) : ainda a tempo de esperança

ao percorrer os meus dias em tempos de lassidão
olhando o céu vi o céu
olhando o chão vi o chão

mas ao ter de conjugar de improviso o verbo amar
num presente indicativo de que algo está a mudar
com todas essas pessoas
umas piores que outras boas
outras nem boas nem más
segundo a velha bitola que entre cábula e loas
me ficara da escola
vi nascer um chão no céu
passeei p’lo céu no chão

tudo o que vai e que vem
assim a todos convém:
há que ter o chão no céu
e em cada passo de seu
haver um céu neste chão

p’ra que não fique o senão
contra a força da razão
de já não sonhar ninguém.


- Jorge Castro

terça-feira, 25 de setembro de 2007

ARS POETICA (0)

Windows of creation (2002) / David Zink

ARS POETICA releva do conceito de que a poesia é uma manifestação não só reveladora do ilimitado potencial criativo do ser humano como essencial à sua própria existência, uma parte essencial da vida, sendo esta considerada uma forma de arte total.

Entendemos que a poesia evidencia a musicalidade das palavras e coloca nestas o sentido do indizível, indo ao âmago da alma humana, em busca do conhecimento de si próprio e dos outros, e bem assim da sua relação com a natureza e o infinito cósmico, potenciando uma multiplicidade de leituras, criando ritmos e melodias que desafiam o imaginário, como artifício da sua forma de (se manif)estar e de transformar o mundo que o rodeia, superando a natureza da sua condição animal, para afirmar a sua racionalidade.

Com efeito, a poesia enquanto arte das palavras - acto distinto da objectividade da contrução técnica do discurso -, é uma permanente viagem interior, que se revela plena de musicalidade e múltiplos sentidos que interagem com o interlocutor (a começar pelo próprio poeta), estimulando novas dimensões da sensibilidade, que conduzem a um maior conhecimento de si próprio e do mundo que nos rodeia, num percurso que pode ir do finito ao infinito (e vice-versa).


ARS POETICA defende que a poesia tem tudo a ganhar quando congrega outras formas de arte

e que melhor se completa quando congrega outras formas de arte (artes visuais, dança, música, etc.).

Consequentemente, ARS POETICA revê-se no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo.


ARS INTEGRATA é um projecto aberto assente na criação artistica multidisciplinar, fundado por David Zink a partir de um ensemble homónimo - de dimensão e composição variáveis, mas com um "núcleo duro" composto pelo Corelis (coro misto), DZ (autor-intérprete, direcção musical, piano e sintetizadores), Equivalentes (projecções cenográficas, fotografia), Jorge Castro e Júlia Lello (poetas, intérpretes), Leonor Henriques, Mafalda Tello e Sophia Sylva (bailarinas) - que recentemente (31 Janeiro 2007) se apresentou na Culturgest, misturando vários géneros e formas artísticas, integradas por texturas musicais a partir da fusão de elementos populares e eruditos, do jazz e do rock à música clássica e à vanguarda, tendo sido muito aplaudido pela assistência que encheu a prestigiada sala de concertos...... e pretende ser também uma associação emergente e um espaço de discussão, conhecimento, troca de experiências e informação, abrangendo todas as formas de arte (incluindo a música, a dança, as «belas artes», a literatura e a poesia, etc.), aberto tanto a artistas executantes, como a investigadores e ao publico em geral interessado nestas matérias.


ARS POETICA procura estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de tratar a arte das palavras. Por isso é também ARS POETICA 2U (leia-se, "to you", i.e., a arte da poesia para si).

A sua colaboração é essencial, contribua com poemas, críticas, ensaios, depoimentos e/ou divulgue aos seus amigos.



Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".



N.B.: ARS POETICA 2U é um espaço de livre-pensamento e de debate de ideias - independentemente das seus colaboradores -, não possuindo vinculação a correntes estéticas particulares, nem comprometimento clubístico, político-partidário, ou de cariz confessional, pelo que não assume qualquer comprometimento com os textos e opiniões expressas e/ou praticadas tanto no seu blog como naqueles que divulga (idem, para sites).


Da Ciência e da Arte / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Acerca da essencial e discreta diferença / Júlia Lello (poema) & David Zink (música)

Canção de embalar / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Falas de amor / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)