Do poeta brasileiro, cidadão do mundo, Ferreira Gullar, prémio Camões 2010:
Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".
Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/
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domingo, 24 de junho de 2012
ARS POETICA (91): Metade de Ferreira Gullar, Pedaço de Chico Buarque
Do poeta brasileiro, cidadão do mundo, Ferreira Gullar, prémio Camões 2010:
terça-feira, 15 de maio de 2012
ARS POETICA (90): A Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012
de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada
e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade
foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas
ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade
legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa do operário
há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo
Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós
Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?
- Jorge Castro
Maestro: Mikis Theodorakis (1925-)
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
ARS POETICA (87): Cartas do amor urgente, de Carlos Peres Feio
escrita
mas és tu que a vais
entregar
tu não sabes
mas levas a minha vida
na tua mão
confio-te o melhor de
mim
porque as minhas
palavras
ganham-me sempre em
concurso
com os meus atos
tresloucados
leva à tua irmã as
minhas letras
ainda não é dia dos
namorados
mas eu já a namoro
com o normal romantismo
de um coração que envia
mensagens
não acredito nas
soluções avançadas
para sentimentos antigos
o meu coração pode vir a
ter
um pace maker
mas não pode
digitalizar
porque ama mas não é
lógico
então espero espero
que a carta vá e volte
outra
perfumada amorosa
em papel seda
este processo da
produção
da carta de amor
não me sai da mente
por isso chamo a este
poema
cartas * do amor * urgente
c peres feio 2012 01 31 carcavelos
sábado, 24 de dezembro de 2011
ARS POETICA (86): A árvore de Natal, de Rui Zink e Wynton Marsalis
Neste Natal
Não dê dinheiro a um pobre
Habitua-o mal
Não dê comida a um pobre
Habitua-o mal
Não dê de beber a um pore
Ele vai gastar tudo em vinho
Não dê guarida a um pobre
Ele gosta é mesmo de chão
Não dê livros a um pobre
Ele queima-os para se aquecer
Não dê carinho a um pobre
Ele estranha e fica nervoso
Não diga bom dia a um pobre
Dá-lhe falsas esperanças
Não dê saúde a um pobre
É uma despesa inútil
Se quer mesmo dar-lhe alguma coisa
[porque enfim está no espírito de natal
e você é uma alma piedosa]
Dê-lhe porrada.
Vai ver que ele gosta
É ao que ele está habituado
E os pobres já sabemos como é
os pobres (coitados) não são muito de mudança não.
Rui Zink
In: JL : jornal de letras, artes e ideias, Ano XXI, n.º 1075 (2011-12-14 a 27), “Contos de Natal”, 11
Oops! Mu.. dança não, mas talvez com o swing de Wynton Marsalis possa haver uma mudança de paradigma...
Christmas Jazz Jam / Wynton Marsalis
Ars Poetica 2U wishes you a merry and fun Christmas!
domingo, 13 de março de 2011
ARS POETICA (83): "Que parva que eu sou", um poema-hino para uma "geração à rasca"
Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Pedro da Silva Martins / "Deolinda"
E a interpretação dos DEOLINDA...
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
ARS POETICA (80): Os Vampiros, de ontem e de hoje, na poesia de José Afonso
OS VAMPIROS
Hoje como Ontem, os Vampiros aí estão atacando de novo (de dentes mais afilados e sequiosos que nunca)… permanece pois, com pleno sentido, o poema do saudoso José Afonso (“Zeca” para os amigos), uma das melhores vozes que Portugal conheceu, mas também uma voz incómoda para os “podres poderes” (da canção de Caetano Veloso), poeta de grande sensibilidade e lutador de causas justas, aqui fica o poema como homenagem ao seu autor e para todos vós, para que não se deixem vampirizar a pretexto da actual "crise", porque «quem te avisa teu amigo é» (provérbio popular) e como disse essa outra voz do «Canto Livre», P.e Francisco Fanhais: «É preciso avisar toda a gente!»...
Os Vampiros
No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada
Se alguém se engana
Com o seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
As vidas acabadas
São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No pinhal do rei
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada
No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada
(poema transcrito de um exemplar autografado do livro "Cantares")
In: AFONSO, José – Cantares, 3.ª ed. aum., [Lisboa] : AAEE, [s.d.] (Offset da AEIST), pp. 77-78
Aqui deixamos também a interpretação do “Zeca”, na sua última actuação pública - no Coliseu dos Recreios em Lisboa, em 29 de Janeiro de 1983 - quando este já se encontrava muito afectado pela doença que lhe viria a ser fatal. O registo fílmico do concerto integral foi agora editado, pela primeira vez, em DVD (documento precioso para recordar o momento àqueles que como nós lá estiveram, mas também para o dar a conhecer aos que por qualquer motivo não puderam estar presentes (incluindo, claro está, os que estiveram ausentes por força da razão de ainda não terem nascido).
domingo, 14 de novembro de 2010
ARS POETICA (79): O Outono, de Vivaldi

L' AUTUNNO
Allegro
Celebra il Vilanel con balli e Canti
Del felice raccolto il bel piacere
E del liquor de Bacco accesi tanti
Finiscono col Sonno il lor godere
Adagio molto
Fà ch' ogn' uno tralasci e balli e canti
L'aria che temperata dà piacere,
E la Stagion ch' invita tanti e tanti
D' un dolcissimo Sonno al bel godere.
Allegro
I cacciator alla nov'alba a caccia
Con corni, Schioppi, e canni escono fuore
Fugge la belva, e Seguono la traccia;
Già Sbigottita, e lassa al gran rumore
De' Schioppi e cani, ferita minaccia
Languida di fuggir, ma oppressa muore.
Antonio Vivaldi
fecit circa 1752
«L'AUTUNNO» (de "Le Quattro Stagioni")
I Movimento - Allegro / Schlomo Mintz (violino) & The Israel Philharmonic Orchestra, dir. Zubin Mehta
II Movimento - Adagio molto / Gidon Kremer (violino & dir.) & The English Chamber Orchestra
III Movimento - Adagio / Schlomo Mintz (violino) & The Israel Philharmonic Orchestra, dir. Zubin Mehta
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sábado, 3 de abril de 2010
ARS POETICA (74): Me queda la palabra, de Blas de Otero, y el Canto Libre de Paco Ibañez
Ars Poetica 2U
EN EL PRINCIPIO
Si he perdido la vida, el tiempo, todo
lo que tiré, como un anillo, al agua,
si he perdido la voz en la maleza,
me queda la palabra.
Si he sufrido la sed, el hambre, todo
lo que era mío y resultó ser nada,
si he segado las sombras en silencio,
me queda la palabra.
Si abrí los labios para ver el rostro
puro y terrible de mi patria,
si abrí los labios hasta desgarrármelos,
me queda la palabra.
Blas de Otero
biografia in: http://es.wikipedia.org/wiki/Blas_de_otero
- e o seu maior intérprete vivo - Paco Ibañez (1934-):
e outro memorável, dos Aguaviva:
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
ARS POETICA (72): Correio poetico (22): O Inverno, na voz de Clotilde Moreira e em Vivaldi

O vento soprou
com força guinchou,
como nota desavinda
que se soltou
e sozinha cantou.
O vento soprou
e com força arrancou
o chapéu
que voou
e lá longe aterrou.
O vento soprou
e com força gritou:
o INVERNO chegou...
Maria Clotilde Moreira
The return of Mr. Winter
& L’ HIVERNO, di Antonio Vivaldi (1678-1741)
Concerto no. 4, in Fa minore per archi, RV 297, "L’ Inverno" – movimento I : Allegro non molto / Gidon Kremer (violino) & The English Chamber Orchestra (rec. 1992)
parte quarta di Le Quattro Staggioni, in Il cimento dell'armonia e dell'inventione, opus 8 (ca. 1725)
INVERNO
(soneto)
(Movimento I: Allegro non molto)
Aggiacciato tremar trà nevi algenti
Al Severo Spirar d' orrido Vento,
Correr battendo i piedi ogni momento;
E pel Soverchio gel batter i denti;
(Movimento II : Largo)
Passar al foco i di quieti e contenti
Mentre la pioggia fuor bagna ben cento
(Movimento III : Allegro)
Caminar Sopra il giaccio, e à passo lento
Per timor di cader gersene intenti;
Gir forte Sdruzziolar, cader à terra
Di nuove ir Sopra 'l giaccio e correr forte
Sin ch' il giaccio si rompe, e si disserra;
Sentir uscir dalle ferrate porte
Sirocco Borea, e tutti i Venti in guerra
Quest' é 'l verno, mà tal, che gioia apporte.
Antonio Vivaldi
fecit circa 1725
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
ARS POETICA (71): Pedra Filosofal, um poema de Natal com pinheiros altos
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«Natalis Angelorum et Lapis Philosophorum» / David Zink fecit MMIX
PEDRA FILOSOFAL
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
In: Movimento Perpétuo, 1956
E no (en)"Canto Livre", da sublime interpretação histórica de Manuel Freire (em 1969), aqui revivida pelo próprio quatro décadas depois:
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009
ARS POETICA (67): Madrigal - Yes, the art of Jorge de Sena & Monteverdi
Madrigal a due voce (2009) / David ZinkMADRIGAL
Se vieres, poesia,
a mim ter comigo,
em mim não encontras
o teu velho amigo.
Mal onde procures,
já estive, não estou:
e mesmo que queiras
que eu parta: não vou.
Que a vida que tenho,
se o mundo a levar,
ainda é com ela
que esperas durar.
Jorge de Sena
&...
The madrigal history tour - Italy (part 1) / The King's Singers
Madrigal / Yes (promotional video, 1978)
sábado, 16 de maio de 2009
ARS POETICA (64): Jorge de Sena's Ode to Destiny and John Dowland's Tears...
ODE AO DESTINO
Destino: desisti, regresso, aqui me tens.
Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.
Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam em bandos,
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.
Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.
Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.
A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são as vítimas.
É nesta mesma rua que eu
ouço todos os sonhos passar desfeitos.
Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.
Jorge de Sena
Pedra Filosofal, 1950
So let's...
"Flow My Tears" (John Dowland, 1563-1626)
sábado, 4 de abril de 2009
ARS POETICA (62): Correio poético (21): Um poema da cidade-tempo nos carris, por Clotilde Moreira
Clotilde Moreira reflecte sobre "o tempo, esse grande escultor" (Marguerite Yourcenar dixit) e presta homenagem ao "amarelo da Carris" esse meio de transporte que, apesar de nascido em Inglaterra, é monumento nacional português e património da humanidade
JÁ NÃO VIAJO PELA CIDADE...
Spacial tram (2009) / (re)designed by David ZinkJá não viajo pela cidade...
Os meus planos
têm agora a dimensão do dia,
o futuro já não tem tamanho para mim.
Mas tenho saudades
quando a pressa era Amarela.
Tlim, Tlim avança
Tlim, pára!
E aos solavancos
Corríamos por ruas e ruelas
Avançávamos pelas avenidas
E tudo ficava ao nosso alcance.
Tenho saudades dos bancos corridos
de madeira e palha;
Tenho saudades dos toldos de riscas
e do calor das viagens de verão
até ao Dafundo,
Tenho saudades dos miúdos pendurados
e do pica-bilhetes.
Tenho saudades do tempo
em que a pressa era Amarela.
Clotilde Moreira
E, a pretexto, evoca-se uma das canções populares portuguesas mais inspiradas «O amarelo da Carris» (música de José Luís Tinoco, sobre poema de José Carlos Ary dos Santos), na voz de Carlos do Carmo
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sexta-feira, 20 de março de 2009
ARS POETICA (61): Viva(ldi), La Primavera!
Ars Poetica 2U celebra a Primavera publicando dois poemas em concerto (um brinde de Pedro Sevylla de Juana, vindo de Espanha expressamente para os nossos leitores, e outro, oh surpresa das surpresas!, um soneto de Antonio Vivaldi), a música das palavras e não só...
PRIMAVERA
A gente da rua, a comum e corrente
essa gente magnífica que empurra o planeta,
Às brisas frescas
Às traquinadas das crianças alegres
Às noites serenas
pálida e cheia
A comer três vezes ao dia
A enlaçar a tempo um ónibus com outro
A passar uma manhã inteira
Os homens e mulheres de carne e sangue
Pedro Sevylla de Juana
e LA PRIMAVERA, di Antonio Vivaldi (1678-1741)
Concerto no. 1, in Mi maggiore per violino, archi e clavicembalo, RV 269, "La Primavera" – movimento I : Allegro / Gidon Kremer (violino) & The English Chamber Orchestra (rec. 1992)
parte prima di Le Quattro Staggioni, in Il cimento dell'armonia e dell'inventione, opus 8 (ca. 1725)
PRIMAVERA
(Movimento I: Allegro)
Giunt' è la Primavera e festosetti
Vengon' coprendo l'aer di nero amanto
(Movimento II : Largo)
E quindi sul fiorito ameno prato
(Movimento III : Allegro)
Di pastoral Zampogna al suon festante
Danzan Ninfe e Pastor nel tetto amato
Di primavera all' apparir brillante.
Antonio Vivaldi
fecit circa 1725
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sábado, 8 de novembro de 2008
ARS POETICA (50): Pas de Strauss, La Valse de Jorge de Sena et un cadeau à la fin
A VALSA DA DEMOCRACIA / Jorge de Sena
Instalada a justiça, distribuída equitativamente a liberdade,
um automóvel para todos?
Mas, meus amigos que imbecilidade!
As carroças serão, por largo tempo, uma necessidade social.
Serão precisos 80 milhões de carroças.
De outro modo, a que atrelar os americanos?
………….
O açúcar, o petróleo, o aço, urânio,
algumas crianças rindo, um stick de golfe,
o copo de papel, a sanduíche
esterilizada, uma mulher contraceptiva
Com as partes de celofane, um homem
De borracha sintética, com as partes de nylon,
terileno, etc. E a bênção do arcebispo,
cardeal, e o Conselho das Igrejas Metodistas
cantando o Ave Caeser, Mulher de Todos os Homens,
bananas, bananas e laranjas, Little Rock,
o governador Rockfeller não intervirá
para tirar da cadeia os parentes contrários
à segregação. Coca-cola. Cadeira eléctrica. O cancro de Foster Dulles.
A poliomielite como carreira política até à
Presidência da República. «Sempre que uma forma
de governo tende a destruir esses fins, o povo
tem o direito de reformá-la ou aboli-la.»
Para tanto: a liberdade de imprensa será garantida
pela publicidade dos «trusts», e os partidos políticos
organizados em cooperação com a Agência Central
de Informações, disputarão eleições LIVRES, segundo
a Constituição. Esta
é um pergaminho encadernado noutro
com fecho de ouro e cadeado de prata,
e dentro, ao abrir-se, uma bailarina,
à vista, e uma caixa de música, oculta,
ao som da qual a bailarina dança
a Valsa da Democracia:
Ai senador
Ai deputado
governador
rinoceronte
a barca bela
de Flagelonte
sulcando vai.
Dido infelice
ficou sem nada
porque o Eneias
vereador
não usa as pastilhas Tricotex reconhecidamente as melhores
para activar e regenerar, sem perigo de habituação,
a virilidade desinteressada. Velhice? Gerontocracia:
O governo do futuro, pelo futuro, para o futuro. Graças
ao Tricotex infalível, discreto, em drageias róseas,
que basta uma só depois do acto para preparar,
com antecedência de vinte e quatro horas, o acto
seguinte. A incineração, apenas poderá reduzir
a cinzas – e perfumadas por excipiente inofensivo –
o ardor de Eneias ou de qualquer homem de negócios
ou simples empregado, mesmo o do Governo Federal
com pensão de reforma, que, pela conformação habitual
do seu espírito, não possa, concentrar-se para além
da secretária. A secretária de vidro transparente,
sob a qual os membros inferiores são visíveis,
deve ser a preferida: hoje mesmo, em três modelos
de dimensões diversas, você poderá comprar,
por um dólar, a secretária que lhe convém.
Sentada na cadeira giratória – gratuitamente
entregue também na primeira prestação – o cavalheiro pode
aguardar confiadamente o efeito do Tricotex.
As secretárias Panfília – Erótia Incorporated
são, com décadas de experiência, associadas
da Bryll Massachusssets Company, cujos técnicos
especializados inventaram o TRI-CO-TEX
que se vende em caixas de pastilhas para
– o nome e a utilização a combinar no drug-store,
para não suscitar a suspeita do seu (ou sua) partner.
…………………….
Instalada a justiça, distribuída equitativamente a
liberdade – um automóvel para todos? Ou a morte sobre
a terra vista azul, se do céu negro?
Jorge de Sena
provavelmente em 1961
quinta-feira, 3 de abril de 2008
ARS POETICA (31): A ciência e a arte de Jorge Castro
Da Ciência e da Arte*
Grilhetas são as sombras nas paredes das grutas
E os medos fundem no meu corpo os rochedos e o chão
Esquecido de voar
Tenho de inventar asas para descobrir o Sol
E desfraldar as velas dos caminhos não cumpridos
Aí aperceberei o som único da minha voz
Encruzilhada de encontros feitos da ciência dos dias e da arte dos homens
Estarão aí os cumes das montanhas
Ou mesmo só as verdes planícies iluminadas
Onde te encontre
Porque só disso se trata
Por fim
O encontrar-te
Depois a arte fluirá
Nesse espaço todo feito de magias e imponderáveis
Em fugaz ou efémera eternidade
E a ciência dos dias encontrará o homem
E tudo estará no sítio certo
Nesse mar desesperadamente azul e imenso
Intranquilamente constante
E esses seremos nós
E nunca se terá visto alguma vez um mar tão grande.
- Jorge Castro
01 de Maio de 2003
* Poema inédito de Jorge Castro, musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )
quarta-feira, 2 de abril de 2008
ARS POETICA (30): Da poesia concertante de Júlia Lello
Acerca da essencial e discreta diferença*
Sur-presa das manhãs em que ‘inda me visitas
Acordo-as pressurosa. Solicita, penteio-as
Preparo-as para as galas.
Sentamo-nos então para melhor olhar-te,
Enquanto o tempo pára
E com simplicidade teu trono ocupas.
Diante a ti tecemos
Bordamos, recamando nossas preciosas telas
Perante o teu olhar longuínquo, intenso
O teu olhar perdido acutilante.
Desenleamos as meadas, dobamos
Com júbilo, celebrando a efeméride.
Porém, fugaz e lento, o tempo escoa-se:
Dás sinais de agitado.
E antes de ver-te ansioso
Despeço, lesta as companheiras
E acompanho-te à porta eu própria.
Sóbria, compondo os cabelos
Lançando fora os restos, esconjurando as memórias.
Sossego então. E pronta,
Dirijo-me, eficaz, ao dia que começa.
in: O Concerto ou: o triunfo da música (peça de teatro): seguido de nove poemas inéditos / Júlia Lello. Lisboa : Tema, 1999
* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )
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terça-feira, 1 de abril de 2008
ARS POETICA (29): Voando com Jorge Castro
Canção de embalar*
Vês?
Se tu quiseres eu sou capaz de voar
Depois peço que me dês a tua mão
E virás comigo a todos os céus dos jardins por inventar
Veremos tudo o que fica para aquém dos nossos sonhos
E as pétalas das flores que nunca serão espezinhadas
Porque nós os dois sabemos bem desse mundo sem tempo e sem lugar
Desse espaço apenas apercebido na hora indecisa da madrugada
Em que os ogres adormecem e voltam a ser meninos
E as fadas cansadas demais para existirem
Se recolhem confundidas com as árvores da floresta
Haveremos de percorrer uma a uma cada estrela
Principalmente aquelas que ainda nunca vimos
E que guardam em si a luz que trazes no olhar
Estaremos na fúria dos mares e dos ventos
Seremos tão pequenos que ninguém saberá de nós
Tão imensos que caberá em nós todo o universo
E o nosso riso perturbará no firmamento a Via Láctea
Vês, filho
Como é tão grande e cheio de tudo este espaço em que podemos voar?
Voemos
Voemos agora que já vestiste o teu fato espacial da nave do sono
E eu me retiro devagarinho para não te acordar...
Jorge Castro
21 de Novembro de 2004
o por Sofia Sylva, para os espectáculos do Ars Integrata Ensemble na Culturgest (31 Jan. 2007) e com nova coreografia da mesma bailarina no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata ao vivo no Palácio Foz )segunda-feira, 24 de março de 2008
ARS POETICA (26): A poética do amor em Jorge Castro
Falas de amor
o amor é essa coisa improvável
quase ao rés do impossível
lugar tardoz
escondido
ao recato da família
que tantas vezes perpassa
sinuoso – aventureiro
- ia dizer indizível… -
brilhante qual candeeiro
de luz dada ao mundo inteiro
cheio de graça e desgraça
diamante que retraça um coração distraído
e que por vezes se esquece num recanto da mobília
mas um dia abro a gaveta
dos olhos
das mãos
da boca
de cada um dos sentidos
lá vem ele feito uma seta
essa coisa sem sentido
correndo como uma louca numa corrida sem meta
se consente
consciente
vai da paixão ao ocaso
então faz-se inconsciente
não sendo assim por acaso
que ver com olhos de amar
só se vê o que se quer
… ao resto não se faz caso
ah o amor – o amor
o amor não consentido
há lá coisa tão melhor do que um amor distraído?
Jorge Castro
2006



