ARS POETICA 2U releva do conceito de que a alquimia das palavras é parte essencial da vida, sendo esta considerada como arte total. Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte. Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si). Colabore com poemas, críticas, etc. E-mail: arspoetica2u@gmail.com Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".
Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/
The blessed flag waiting for Christmas (2012) / David Zink
Natal em lista de espera
Ficou longe, como se a retina tivesse embaciado, o natal grande, à volta de uma mesa que pensávamos eterna. Hoje, temos uns natais pequeninos, feitos de restos de sonhos que se tornaram interditos. Mas esperamos –...ainda - um natal que nos abrigue, num templo em que cabem todos os deuses e ninguém se esquece dos que sofrem, dos que morrem de solidão e desamparo, das crianças não amadas, dos que sobram nas famílias. Dormiremos a sono solto, no dia em o natal for para todos, como as praças das cidades, as árvores das montanhas, os mares de todos os tempos, o céu de todos os mares.
The enlightened boy, messenger of Peace / David Zink
Não dê… Neste Natal Não dê dinheiro a um pobre Habitua-o mal Não dê comida a um pobre Habitua-o mal Não dê de beber a um pore Ele vai gastar tudo em vinho Não dê guarida a um pobre Ele gosta é mesmo de chão Não dê livros a um pobre Ele queima-os para se aquecer Não dê carinho a um pobre Ele estranha e fica nervoso Não diga bom dia a um pobre Dá-lhe falsas esperanças Não dê saúde a um pobre É uma despesa inútil Se quer mesmo dar-lhe alguma coisa [porque enfim está no espírito de natal e você é uma alma piedosa] Dê-lhe porrada. Vai ver que ele gosta É ao que ele está habituado E os pobres já sabemos como é os pobres (coitados) não são muito de mudança não.
Rui Zink In: JL : jornal de letras, artes e ideias, Ano XXI, n.º 1075 (2011-12-14 a 27), “Contos de Natal”, 11
Oops! Mu.. dança não, mas talvez com o swing de Wynton Marsalis possa haver uma mudança de paradigma...
Christmas Jazz Jam / Wynton Marsalis
Ars Poetica 2U wishes you a merry and fun Christmas!
Querido Pai Natal, este ano peço-te dois presentes, dois presentes especiais. Como sei que para ti tudo é possível peço-te uma borracha e um lápis especiais Uma borracha muito especial uma borracha que apague ódios e guerras que apague a fome e as doenças que apague mentiras e desejos de vingança… E um lápis especial para corporizar abrigos e agasalhos um lápis para desenhar um sorriso em cada rosto escrever a felicidade em cada coração e a esperança em cada homem.
- «Natalis Angelorum et Lapis Philosophorum» / David Zink fecit MMIX
PEDRA FILOSOFAL
Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul.
eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultra-som, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
(pseudónimo do prof. Rómulo de Carvalho) In: Movimento Perpétuo, 1956
E no (en)"Canto Livre", da sublime interpretação histórica de Manuel Freire (em 1969), aqui revivida pelo próprio quatro décadas depois:
Que a magia do Natal devolva os sonhos em realidade; e que em 2009 a felicidade nos olhares seja o espelho de cada um de nós.
Aos meus amigos, ofereço um…
PEQUENO POEMA
Dilua-se no universo a couraça de orgulho! Derreta-se no vento a couraça de vaidade! Dissipe-se no sol a couraça de prepotência! Louvemos colos borralhos afectos. Busquemos a essência!
Neste Natal, brindo aos amigos, próximos ou longínquos, sedimento que alimenta a raiz da árvore da nossa vida, tentando contrariar alguma nostalgia que nos chega dos dias cinzentos com o sabor bem luminoso dos afectos…
Dos dias conturbados que vivemos, diria que se cada um de nós plantasse uma couve, uma só que fosse, talvez se atenuasse de forma substancial a crise… e, se não lhe descobríssemos melhor e mais necessitado destinatário, sempre teríamos com que acompanhar a nossa ceia natalícia.
Aparentemente, os nossos economistas e homens das altas finanças não levam estas propostas a sério. E tenho para mim que é pena!...
só de musgo faço a base do presépio imperfeito que ele é feito de matéria bem mais dura e vou pondo as figuras ao meu jeito dando o jeito de lhes dar ar de ternura
fruta seca sobre a mesa e a aletria fantasias de fantasiar fartura pela ceia o bacalhau faz companhia preenchendo lugares vagos e a lonjura
a bota na chaminé em vago intento de trazer ao Natal quem sabe o riso o brinde a réstia intemporal de um outro alento que nos dê outro Natal de mais sustento
pelo céu cruza um corpo sideral a apontar o corpo ao léu de uma criança e nós todos esperando que o Natal a conforte em agasalhos de esperança
por fim o travo doce de um bom vinho a brindar de novo ao sonho e o embaraço de não estares à minha mesa meu amigo para te dar neste Natal um grande abraço…
O poeta espanhol Pedro Sevylla de Juana, quis partilhar com os leitores de Ars Poetica 2U um actualissimo poema-reflexão para a presente quadra natalíca. Aqui fica com a devida vénia e público louvor pelo cultivo de valores humanistas, de que a actual sociedade está particularmente carente.
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", apontou sabiamente Camões no seu canto, mas convém não esquecer que também é preciso que as vontades ajudem a mudar os tempos. E eis como a poesia em contra-corrente se ergue como um farol de esperança susceptível de negar o triunfo da morte do amor (sim, é aí que nos conduz o individualismo).
O homem e a fome
Fome, fome, fome; duas sílabas tão só e rompem o fluir do homem.
Agente ou paciente aprofundam a cisão do homem apagam os caminhos do homem dessangram o coração do homem anulam, revogam, invalidam, desautorizam, negam o homem.
Na minha infância O pinheiro de Natal era um pinheiro Um pinheiro sempre verde O cheiro… O cheiro era o de pinheiro manso Algumas pinhas agarradas aos galhos Ajudavam a vesti-lo de uma forma humilde mas genuína A avó pendurava Pais Natal e sombrinhas de chocolate E uma nota de Santo António para cada neta… O avô amassava as filhós e acendia a lareira que num canto da sala crepitava os sons de Natal… Na minha infância O Natal era ingenuidade e pureza O Natal era a família A paz, a harmonia A pureza doa afectos A solidariedade entre as pessoas Era um menino semi-nu, numa manjedoura… Na minha infância O Natal não era consumismo Nem presentes caros Nem mesas ricamente adornadas Fomentando vergonhosas ostentantações Na minha infância O Natal era simplesmente Amor Na minha infância Os presentes eram singelos Os presentes eram deixados às crianças, Não eram encomendados por elas, Mas eram uma nascente de genuína felicidade Que nos rasgava o rosto Com um sorriso franco da alma Na minha infância Não era obrigatório oferecer presentes Davam-se de coração, eram verdadeiros Na minha infância O Natal tinha um brilho especial
Caros Amigos, Como vem sendo hábito que me apraz cultivar, das minhas voltas à volta das palavras, cá vou fazendo o meu cartão de Natal, em cada ano, para partilhar convosco. Reflectindo sempre um estado de alma que é o meu e que não será necessariamente universal, espero dele que transmita, essa sim, uma mensagem de esperança e solidariedade, que entendo como definitivas para salvaguarda da nossa humanidade.
Assim, com os votos de Boas Festas e Ano Novo pleno das mais felizes realizações, aqui vos deixo, com um abraço, o meu Natal de 2007:
o Natal não está porreiro pá tal estão as coisas por cá de Dezembro a dar-a-dar a Janeiro ao deus-dará (venha um Fevereiro faceiro mais curto para respirar...)
mas o Natal de azevinho da rabanada e romã era o princípio de tudo hoje é o fim vejam lá!...
começa já em Outubro - sugam-nos osso e tutano faz-se do Natal Entrudo que se paga todo o ano
fim do ano com acerto que desacerto amanhã da prestação que é um aperto do emprego que não há do medo de vir à rua sem saber quem lá virá de estar cada mão mais nua do aperto que não dá de se viver do incerto que por certo morrerá
faz falta o Natal do início da carícia do sentir de viver no precipício por saber como voar dos avós - do aconchego - do cachecolzinho de lã do ar frio e da braseira da prenda que alguém nos dá de sermos livres de rir ou de bem saber chorar de ouvir cantar os anjos bem cedo pela manhã com harpas bombos e banjos em charanga que eu sei lá de bater que sim o pé porque assim mesmo é que é de não voar sobre as casas porque caíram as asas mas cantando por ter fé no dia que lá virá construindo cada dia em cada sítio onde há uma réstia de alegria
o Natal - ah quem me dera - fosse a arte de ensinar assim como quem espera ter o prazer de aprender
esse Natal meu amigo nunca terá existido... mas p´rò que der e vier está à mão de semear para quem o quiser colher e eu cá o deixo contigo.