ARS POETICA 2U releva do conceito de que a alquimia das palavras é parte essencial da vida, sendo esta considerada como arte total.
Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
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Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".

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POEMARIUM : recipientis poeticus

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domingo, 4 de setembro de 2011

ARS POETICA (84): No país dos sacanas - a radiografia de Jorge de Sena


Worldbeasts XXI / David Zink, 2011

NO PAÍS DOS SACANAS


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas,
Não há mesmo melhor que uma sacanice
para fazer funcionar fraternamente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já o é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país?
Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

10/10/73

Jorge de Sena
In: Sena, Jorge de – 40 anos de servidão, 2.ª ed. revista, Lisboa : Moraes Editores, 1982
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ARS POETICA (67): Madrigal - Yes, the art of Jorge de Sena & Monteverdi

-Madrigal a due voce (2009) / David Zink


MADRIGAL


Se vieres, poesia,
a mim ter comigo,
em mim não encontras
o teu velho amigo.

Mal onde procures,
já estive, não estou:
e mesmo que queiras
que eu parta: não vou.

Que a vida que tenho,
se o mundo a levar,
ainda é com ela
que esperas durar.


Jorge de Sena
in: Pedra Filosofal, 1950

&...


The madrigal history tour
- Italy (part 1) / The King's Singers


Madrigal / Yes (promotional video, 1978)
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sábado, 16 de maio de 2009

ARS POETICA (64): Jorge de Sena's Ode to Destiny and John Dowland's Tears...

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ODE AO DESTINO


Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam em bandos,
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são as vítimas.
É nesta mesma rua que eu
ouço todos os sonhos passar desfeitos.

Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.


Jorge de Sena
Pedra Filosofal, 1950
republicado em: Poesia - I, 2.ª ed., Moraes Ed., 1977


So let's...

"Flow My Tears" (John Dowland, 1563-1626)
/ by Andreas Schöll, countertenor

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sábado, 8 de novembro de 2008

ARS POETICA (50): Pas de Strauss, La Valse de Jorge de Sena et un cadeau à la fin



A VALSA DA DEMOCRACIA / Jorge de Sena


Instalada a justiça, distribuída equitativamente a liberdade,
um automóvel para todos?
Mas, meus amigos que imbecilidade!
As carroças serão, por largo tempo, uma necessidade social.
Serão precisos 80 milhões de carroças.
De outro modo, a que atrelar os americanos?

………….

O açúcar, o petróleo, o aço, urânio,
algumas crianças rindo, um stick de golfe,
o copo de papel, a sanduíche
esterilizada, uma mulher contraceptiva
Com as partes de celofane, um homem
De borracha sintética, com as partes de nylon,
terileno, etc. E a bênção do arcebispo,
cardeal, e o Conselho das Igrejas Metodistas
cantando o Ave Caeser, Mulher de Todos os Homens,
bananas, bananas e laranjas, Little Rock,
o governador Rockfeller não intervirá
para tirar da cadeia os parentes contrários
à segregação. Coca-cola. Cadeira eléctrica. O cancro de Foster Dulles.
A poliomielite como carreira política até à
Presidência da República. «Sempre que uma forma
de governo tende a destruir esses fins, o povo
tem o direito de reformá-la ou aboli-la.»
Para tanto: a liberdade de imprensa será garantida
pela publicidade dos «trusts», e os partidos políticos
organizados em cooperação com a Agência Central
de Informações, disputarão eleições LIVRES, segundo
a Constituição. Esta
é um pergaminho encadernado noutro
com fecho de ouro e cadeado de prata,
e dentro, ao abrir-se, uma bailarina,
à vista, e uma caixa de música, oculta,
ao som da qual a bailarina dança
a Valsa da Democracia:

Ai senador
Ai deputado
governador
rinoceronte
a barca bela
de Flagelonte
sulcando vai.
Dido infelice
ficou sem nada
porque o Eneias
vereador
não usa as pastilhas Tricotex reconhecidamente as melhores
para activar e regenerar, sem perigo de habituação,
a virilidade desinteressada. Velhice? Gerontocracia:
O governo do futuro, pelo futuro, para o futuro. Graças
ao Tricotex infalível, discreto, em drageias róseas,
que basta uma só depois do acto para preparar,
com antecedência de vinte e quatro horas, o acto
seguinte. A incineração, apenas poderá reduzir
a cinzas – e perfumadas por excipiente inofensivo –
o ardor de Eneias ou de qualquer homem de negócios
ou simples empregado, mesmo o do Governo Federal
com pensão de reforma, que, pela conformação habitual
do seu espírito, não possa, concentrar-se para além
da secretária. A secretária de vidro transparente,
sob a qual os membros inferiores são visíveis,
deve ser a preferida: hoje mesmo, em três modelos
de dimensões diversas, você poderá comprar,
por um dólar, a secretária que lhe convém.
Sentada na cadeira giratória – gratuitamente
entregue também na primeira prestação – o cavalheiro pode
aguardar confiadamente o efeito do Tricotex.
As secretárias Panfília – Erótia Incorporated
são, com décadas de experiência, associadas
da Bryll Massachusssets Company, cujos técnicos
especializados inventaram o TRI-CO-TEX
que se vende em caixas de pastilhas para
– o nome e a utilização a combinar no drug-store,
para não suscitar a suspeita do seu (ou sua) partner.

…………………….

Instalada a justiça, distribuída equitativamente a
liberdade – um automóvel para todos? Ou a morte sobre
a terra vista azul, se do céu negro?


Jorge de Sena
provavelmente em 1961
In: Sequências. Lisboa : Moraes Editores, 1980, pp. 87-89


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Da Ciência e da Arte / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Acerca da essencial e discreta diferença / Júlia Lello (poema) & David Zink (música)

Canção de embalar / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Falas de amor / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)