ARS POETICA 2U releva do conceito de que a alquimia das palavras é parte essencial da vida, sendo esta considerada como arte total.
Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".

Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/


-

POEMARIUM : recipientis poeticus

POEMARIUM : recipientis poeticus
Mostrar mensagens com a etiqueta jorge castro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jorge castro. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 15 de maio de 2012

ARS POETICA (90): A Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012


Greeceland Anima MMXII / David Zink fecit



A Dimitris Christoulas, em Atenas, Abril de 2012



de súbito
insustentável
na praça Syntagma a relva surgiu vermelha
junto do tronco impassível da árvore abandonada

e toda a Grécia estremece com o espanto de um grito
um grito só e aflito que cruzou a Terra toda
como se fora pequena
como se valesse a pena despertar ainda a aurora
e jaz num corpo vazio que nos perturba a cidade

foi cada passo contado que o levou ao destino
foi a certeza da Vida que lhe aconselhou a morte
e um tiro redentor que suas mãos libertaram
agitaram o torpor das consciências paradas

ali foi digno
Dimitris
contra os tiranos da vida
a provar-nos às mãos-cheias que somos senhores de tudo
e só nós somos os donos da hora da liberdade
quando a centelha da honra se acende dentro de um peito
vestido de humanidade

legou uma nota breve bordada a sangue e a revolta
por não mais o merecerem os tiranos que nomeia
mas o olhar derradeiro abrange este mundo inteiro
adivinha-se fraterno
militante
solidário
numa paz feita na guerra que vestiu de dignidade
como a marca do trabalho na camisa do operário

há-de ter nome de rua
há-de erguer-se em monumento
e ser contado na lenda
se o soubermos merecer
se o sentirmos irmão ao alcance de um abraço
sem fronteiras de lamento
sem o esquecimento eterno
há-de ser céu e inferno
há-de ser a voz do vento
sempre que alguém se levante
num grito só e aflito que estremeça o universo

Dimitris não morreu só
pois com ele morremos nós
cada um para o seu lado
e todos morrendo sós

Dimitris
Dimitris
porque nos abandonaste?
qual o apelo sentido?
qual o rumo que traçaste?
porque nos ecoa ainda
esse grito que legaste?

- Jorge Castro


 Canto General (excerto)
(poema de Pablo Neruda; música de Mikis Theodorakis)
Solista: Maria Farantouri
Maestro: Mikis Theodorakis (1925-)



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

ARS POETICA (57) - esculpindo

em bloco duro de pedra informe e fero trato
a mão afaga
o cinzel lavra
aquele retrato
que paira só no olhar denso do artista
de forma tal que saiba ele que lá exista
um corpo
um ar
um ser
um estar
que nos evoca
o infinito de um mistério e da poesia

e quando depois se toca a aspereza atenuada
dádiva da terra-mãe por troca de nada
em parto ardente sem temor ou agonia
mas que a mãos ambas
o escultor mostra
e desvenda
e traça a golpes com o maço que deslaça
o fino enredo de uma vida
de uma lenda
queda-se esse infinito ao rés da mão em gentil acto
para melhor que o mundo o entenda
assim nascido
em bloco duro de pedra informe e fero trato.

- Jorge Castro

domingo, 14 de dezembro de 2008

ARS POETICA (52): Plantando o Natal...

-

Christmas in Paradise - IV (2008) / David Zink


Neste Natal, brindo aos amigos, próximos ou longínquos, sedimento que alimenta a raiz da árvore da nossa vida, tentando contrariar alguma nostalgia que nos chega dos dias cinzentos com o sabor bem luminoso dos afectos…

Dos dias conturbados que vivemos, diria que se cada um de nós plantasse uma couve, uma só que fosse, talvez se atenuasse de forma substancial a crise… e, se não lhe descobríssemos melhor e mais necessitado destinatário, sempre teríamos com que acompanhar a nossa ceia natalícia.

Aparentemente, os nossos economistas e homens das altas finanças não levam estas propostas a sério. E tenho para mim que é pena!...


só de musgo faço a base do presépio
imperfeito
que ele é feito de matéria bem mais dura
e vou pondo as figuras ao meu jeito
dando o jeito de lhes dar
ar de ternura

fruta seca sobre a mesa
e a aletria
fantasias de fantasiar fartura
pela ceia o bacalhau faz companhia
preenchendo lugares vagos
e a lonjura

a bota na chaminé
em vago intento
de trazer ao Natal
quem sabe o riso
o brinde
a réstia intemporal de um outro alento
que nos dê outro Natal de mais sustento

pelo céu
cruza um corpo sideral
a apontar o corpo ao léu de uma criança
e nós todos esperando que o Natal
a conforte em agasalhos de esperança

por fim
o travo doce de um bom vinho
a brindar de novo ao sonho
e o embaraço
de não estares à minha mesa
meu amigo
para te dar neste Natal um grande abraço…

Bom Natal e Festas Felizes

- Jorge Castro
Dezembro de 2008

-

quinta-feira, 3 de abril de 2008

ARS POETICA (31): A ciência e a arte de Jorge Castro



Da Ciência e da Arte*



Grilhetas são as sombras nas paredes das grutas
E os medos fundem no meu corpo os rochedos e o chão

Esquecido de voar
Tenho de inventar asas para descobrir o Sol
E desfraldar as velas dos caminhos não cumpridos
Aí aperceberei o som único da minha voz
Encruzilhada de encontros feitos da ciência dos dias e da arte dos homens
Estarão aí os cumes das montanhas
Ou mesmo só as verdes planícies iluminadas
Onde te encontre

Porque só disso se trata
Por fim
O encontrar-te

Depois a arte fluirá
Nesse espaço todo feito de magias e imponderáveis
Em fugaz ou efémera eternidade
E a ciência dos dias encontrará o homem
E tudo estará no sítio certo
Nesse mar desesperadamente azul e imenso
Intranquilamente constante

E esses seremos nós

E nunca se terá visto alguma vez um mar tão grande.


- Jorge Castro
01 de Maio de 2003


* Poema inédito de Jorge Castro, musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )

-

terça-feira, 1 de abril de 2008

ARS POETICA (29): Voando com Jorge Castro



Canção de embalar*



Vês?
Se tu quiseres eu sou capaz de voar
Depois peço que me dês a tua mão
E virás comigo a todos os céus dos jardins por inventar
Veremos tudo o que fica para aquém dos nossos sonhos
E as pétalas das flores que nunca serão espezinhadas

Porque nós os dois sabemos bem desse mundo sem tempo e sem lugar
Desse espaço apenas apercebido na hora indecisa da madrugada
Em que os ogres adormecem e voltam a ser meninos
E as fadas cansadas demais para existirem
Se recolhem confundidas com as árvores da floresta

Haveremos de percorrer uma a uma cada estrela
Principalmente aquelas que ainda nunca vimos
E que guardam em si a luz que trazes no olhar

Estaremos na fúria dos mares e dos ventos
Seremos tão pequenos que ninguém saberá de nós
Tão imensos que caberá em nós todo o universo
E o nosso riso perturbará no firmamento a Via Láctea

Vês, filho
Como é tão grande e cheio de tudo este espaço em que podemos voar?

Voemos
Voemos agora que já vestiste o teu fato espacial da nave do sono
E eu me retiro devagarinho para não te acordar...



Jorge Castro
21 de Novembro de 2004


* Poema musicado por David Zink e coreografadJustificar completamenteo por Sofia Sylva, para os espectáculos do Ars Integrata Ensemble na Culturgest (31 Jan. 2007) e com nova coreografia da mesma bailarina no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata ao vivo no Palácio Foz )

-

segunda-feira, 24 de março de 2008

ARS POETICA (26): A poética do amor em Jorge Castro


Falas de amor
*


o amor é essa coisa improvável
quase ao rés do impossível
lugar tardoz
escondido
ao recato da família
que tantas vezes perpassa
sinuoso – aventureiro
- ia dizer indizível… -
brilhante qual candeeiro
de luz dada ao mundo inteiro
cheio de graça e desgraça
diamante que retraça um coração distraído
e que por vezes se esquece num recanto da mobília

mas um dia abro a gaveta
dos olhos
das mãos
da boca
de cada um dos sentidos
lá vem ele feito uma seta
essa coisa sem sentido
correndo como uma louca numa corrida sem meta

se consente
consciente
vai da paixão ao ocaso
então faz-se inconsciente
não sendo assim por acaso
que ver com olhos de amar
só se vê o que se quer
… ao resto não se faz caso

ah o amor – o amor
o amor não consentido
há lá coisa tão melhor do que um amor distraído?


Jorge Castro
2006

* Poema musicado por David Zink para os espectáculos do Ars Integrata Ensemble na Culturgest (31 Jan. 2007) e no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata ao vivo no Palácio Foz )


_

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (18) : as palavras

Dentro de breves momentos, este poema será lançado ao mundo, na Biblioteca Municipal de Cascais, em São Domingos de Rana, na sessão de Noites Com Poemas. Aqui fica, entretanto, em pleno trabalho de parto:

as palavras

são palavras que nos guardam
que resguardam o passado
nos caminhos que trilhamos

são palavras do presente
que se lavram ternamente
no futuro que fizermos

mas há palavras dementes
que ferem gritam trucidam
o dia mal resguardado

há gemidos nas palavras
lágrimas risos e as lavras
da sementeira do acaso

palavras não valem nada
mas são o gume da espada
e do berço o acalanto

eu às palavras pertenço
e subo ao rés do universo
se me perco ou se me venço

às palavras me abandono
que não sou dono de nada
para além de uma alvorada

trago as palavras comigo
levo-as ao porto de abrigo
nos caminhos que cruzamos

há palavras para os ais
para o sempre e nunca mais
elas sobram se as calamos.


- poema de Jorge Castro

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

ARS POETICA (15) : Carnevalis Poeticus (2) : King Momus

CArneVAlis PoetiCUS : King Momus (2008) / David Zink
baseado numa fotografia da autoria de Jorge Castro (original in Sete Mares)



serás tu

ó máscara
dupla-face em que me faço

de façanhudo farsante

a riso alvar de palhaço?

e passo

saltimbanco

cabeçudo

pelo Terreiro do Paço

aos terreiros do Entrudo

que vale tudo

seja por bem ou por mal

tanta vez assim-assim

outras vezes Carnaval

sem fim


Jorge Castro
2008, Fev. 5
in http://sete-mares.blogspot.com/

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

ARS POETICA (9) : Elegia do Natal de Jorge Castro


Christmas in Purgatory (2007) / David Zink

Caros Amigos,
Como vem sendo hábito que me apraz cultivar, das minhas voltas à volta das palavras, cá vou fazendo o meu cartão de Natal, em cada ano, para partilhar convosco. Reflectindo sempre um estado de alma que é o meu e que não será necessariamente universal, espero dele que transmita, essa sim, uma mensagem de esperança e solidariedade, que entendo como definitivas para salvaguarda da nossa humanidade.

Assim, com os votos de Boas Festas e Ano Novo pleno das mais felizes realizações, aqui vos deixo, com um abraço, o meu Natal de 2007:



o Natal não está porreiro

tal estão as coisas por cá
de Dezembro a dar-a-dar a Janeiro ao deus-dará
(venha um Fevereiro faceiro mais curto para respirar...)

mas o Natal de azevinho
da rabanada e romã
era o princípio de tudo
hoje é o fim
vejam lá!...

começa já em Outubro - sugam-nos osso e tutano
faz-se do Natal Entrudo que se paga todo o ano

fim do ano com acerto que desacerto amanhã
da prestação que é um aperto
do emprego que não há
do medo de vir à rua sem saber quem lá virá
de estar cada mão mais nua do aperto que não dá
de se viver do incerto que por certo morrerá

faz falta o Natal do início
da carícia do sentir
de viver no precipício por saber como voar
dos avós - do aconchego - do cachecolzinho de lã
do ar frio e da braseira
da prenda que alguém nos dá
de sermos livres de rir ou de bem saber chorar
de ouvir cantar os anjos bem cedo pela manhã
com harpas bombos e banjos em charanga que eu sei lá
de bater que sim o pé porque assim mesmo é que é
de não voar sobre as casas porque caíram as asas
mas cantando por ter fé no dia que lá virá
construindo cada dia em cada sítio onde há
uma réstia de alegria

o Natal - ah quem me dera - fosse a arte de ensinar
assim como quem espera ter o prazer de aprender

esse Natal
meu amigo
nunca terá existido...
mas p´rò que der e vier
está à mão de semear para quem o quiser colher
e eu cá o deixo contigo.

-
Jorge Castro
Dezembro de 2007

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

ARS POETICA (5) : dia na praia


Quem me tira o mar, há-de arrepender-se pois há coisas que eu não perdoo. Mas dias há em que sobrevém uma nostalgia por outras calmarias de gente, mesmo com tempestade no mar...

há um de foca na areia
aquele na areia defeca

passa de faca à boleia
o Mãos-Leves pela boneca

de fácil esta sereia
serena aquele meia-leca

a Licas chuta na veia
braço atado com cueca

o Tarzan na borda enleia
a velha ardida sueca

aquel’outra mãe-baleia
empina o rabo p’ra Meca

e dois gajos volta e meia
em pino dão uma queca

baba-se o cura à ideia
que há mais de um dia não peca

no restaurante há lampreia
mas prato forte é faneca

e caracóis p’rà colmeia
atascada na bejeca

outro a bola pontapeia
em ânsias de ser Zé Becker

a trampa no mar campeia
pensos - restos de muqueca

bandeira azul que está cheia
de chorinhos à rabeca

há prédio a mais que desfeia
há gente de seca-e-meca

às vezes sem maré-cheia
ao pisar uma alforreca
chega-me triste a ideia
de que ir à praia é uma seca!...

- Jorge Castro

terça-feira, 2 de outubro de 2007

ARS POETICA (1) : ainda a tempo de esperança

ao percorrer os meus dias em tempos de lassidão
olhando o céu vi o céu
olhando o chão vi o chão

mas ao ter de conjugar de improviso o verbo amar
num presente indicativo de que algo está a mudar
com todas essas pessoas
umas piores que outras boas
outras nem boas nem más
segundo a velha bitola que entre cábula e loas
me ficara da escola
vi nascer um chão no céu
passeei p’lo céu no chão

tudo o que vai e que vem
assim a todos convém:
há que ter o chão no céu
e em cada passo de seu
haver um céu neste chão

p’ra que não fique o senão
contra a força da razão
de já não sonhar ninguém.


- Jorge Castro

Da Ciência e da Arte / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Acerca da essencial e discreta diferença / Júlia Lello (poema) & David Zink (música)

Canção de embalar / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Falas de amor / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)