ARS POETICA 2U releva do conceito de que a alquimia das palavras é parte essencial da vida, sendo esta considerada como arte total.
Por isso se revê no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo, procurando estar em sintonia com todos os que partilham do nosso modo aberto de conceber e fruir a arte.
Por isso é também 2U (leia-se, "to you", i.e. a arte da poesia para si).
Colabore com poemas, críticas, etc.
E-mail: arspoetica2u@gmail.com
Somos fiéis ao lema "Trás outro amigo também".

Convidamo-lo ainda a visualizar e a ouvir (basta clicar com o rato sobre as imagens) alguns dos poemas com música e interpretação por elementos do Ars Integrata Ensemble (vídeos disponíveis no final desta página), assim como a visitar a página do mesmo em http://arsintegrataensemble.blogspot.com/


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POEMARIUM : recipientis poeticus

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domingo, 16 de outubro de 2011

ARS POETICA (85): "Há sempre uma nódoa no fato engomado da Democracia", um poema irónico de Júlia Lello


E assim termina o último e obrigatório livro de poemas de Júlia Lello:

Há sempre uma nódoa...

Há sempre uma nódoa no fato engomado da Democracia.
Esfrega-se e não sai, lava-se e não passa…
Em cada sistema bem organizado
Há sempre uma ideia inesperada
Que brota do nada
E desestabiliza.
Em cada país há sempre um reduto que não se conforma.
Em cada cultura há sempre o artista louco da mansarda.
Em cada família uma ovelha negra espreita inoportuna.
Nos países pobres, nos países ricos,
Nas melhores famílias, nos melhores ambientes,
Lá está um rebelde:
De onde é que ele surge?
Estava tudo certo se ele não surgisse:
Com tudo arrumado e tantos direitos,
Quem iria agora lembrar-se da fome
Dos que não se queixam?
- Mas não: surge sempre
Um estremecimento,
Uma inquietação,
Que perturba o mundo
E não se percebe
De onde é que surgiu.
Sempre alguns milhões
Milhares ou centenas, Não importa quantos,
Como insectos, chegam e invadem
Quando tudo parecia estar calmo.
Juntam-se, reclamam e fazem barulho
Que maça e não larga…
Vêm com ideias
E gestos e frases.
E indignam-se com muitas coisas
Que todos aceitam como naturais.
E não há maneira
De acabar com eles.
Pois quando se pensa
Que já se aquietaram
De todos os cantos
Surgem de repente…
Júlia Lello
In: Os Vivos e os Mortos. [Lisboa: ed.aut., 2011] (Digital XXI), pp. 44-45

Veja a crítica ao livro, in:
http://arslitteraria.blogspot.com/

segunda-feira, 7 de abril de 2008

ARS POETICA (32): Rossinianos gatos de Júlia Lello



A Dona


Ela cuida de ti como cuida dos gatos:
Entre duas espinhas, passa-te a mão pelo p’lo,
Vigiando-te os cios, previne os desacatos
E vai servindo os restos, com lúcido desvelo.

P´ra que a tua alforria todo o mundo constate
Deixa que mies alto, à noite, nos telhados
(contando que seja o tempo do repouso das gatas
E o gang dos caixotes actue noutros lados).

E, porque não há nada que tanto te deleite,
Consente que persigas os ratos nos esgotos.
Mas à porta, de sonsa, deixa-te o pires de leite,
E uma fôfa almofada onde enterres os osssos

Júlia Lello, 93

* Poema dito por Júlia Lello (extra-programa) com música original de David Zink, no espectáculo do Ars Integrata Ensemble - "Prima la musica, poi le parole?"- levado realizado no Palácio Foz em 6 de Abril de 2008 (v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )


quarta-feira, 2 de abril de 2008

ARS POETICA (30): Da poesia concertante de Júlia Lello



Acerca da essencial e discreta diferença*



Sur-presa das manhãs em que ‘inda me visitas
Acordo-as pressurosa. Solicita, penteio-as
Preparo-as para as galas.
Sentamo-nos então para melhor olhar-te,
Enquanto o tempo pára
E com simplicidade teu trono ocupas.
Diante a ti tecemos
Bordamos, recamando nossas preciosas telas
Perante o teu olhar longuínquo, intenso
O teu olhar perdido acutilante.
Desenleamos as meadas, dobamos
Com júbilo, celebrando a efeméride.
Porém, fugaz e lento, o tempo escoa-se:
Dás sinais de agitado.
E antes de ver-te ansioso
Despeço, lesta as companheiras
E acompanho-te à porta eu própria.
Sóbria, compondo os cabelos
Lançando fora os restos, esconjurando as memórias.
Sossego então. E pronta,
Dirijo-me, eficaz, ao dia que começa.

in: O Concerto ou: o triunfo da música (peça de teatro): seguido de nove poemas inéditos / Júlia Lello. Lisboa : Tema, 1999


* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )

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segunda-feira, 31 de março de 2008

ARS POETICA (28): Textos pretextuais de Júlia Lello (II)



Ad Præsente Deo*



Tudo parece agora inteiro e claro
Confiante e imutável
Cada olhar é legível e liberto
E em tua mão honesta a minha pousa

Partir-se de uma base quanto isso tranquiliza
Não mais equívocos A má fé repousa
Banida E a luz envolve as formas

E no entanto uma palavra
Às vezes um silêncio ou uma
Imperceptível indomável onda
Desorganiza Abala Instaura o caos

Partido este porém já outra vez de novo
Se pode degustar a paz quando ela volta
Já outra vez não-podre
Mas fresca depurada

E este ciclo de vida é a ti que devo.


in: Textos pretextuais / Júlia Lello. Odivelas: Europress, D.L. 1991

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* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )

sexta-feira, 7 de março de 2008

ARS POETICA (21): Textos Pretextuais de Júlia Lello



E porque o culto


Não cuides que te busco ainda por querer-te
Pois nem te quereria já se tu te desses,
De tanto me aplicar (certa de que o quisesses)
No construir da ideia de perder-te:

Após louco intentar com ardis demover-te
Ao ver que a amor já não era crível que cedesses
Desistindo por fim de crer que tu viesses
Oh, como trabalhei os gestos de não ver-te!

E ao fim de tanto estóico esforço de vontade,
se alguma vez me vires buscar com ansiedade
Nesse lodo em que afunda memórias teu olhar,

Não te iludam vestígios de incansável ardor
Nem atribuas causas a saudades de amor
Que é a mim, nada mais, que eu ando a procurar.

in: Textos pretextuais / Júlia Lello. Odivelas: Europress, D.L. 1991


* Poema musicado por David Zink para o espectáculo do Ars Integrata Ensemble no Palácio Foz (domingo, 6 de Abril de 2008, pelas 16h - v. programa completo em ARS MUSICA (39): Ars Integrata Ensemble ao vivo no Palácio Foz )

Da Ciência e da Arte / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Acerca da essencial e discreta diferença / Júlia Lello (poema) & David Zink (música)

Canção de embalar / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)

Falas de amor / Jorge Castro (poema) & David Zink (música)